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Que não nos falte esperança

Por Elis Radmann

A esperança é o sentimento de quem vê como possível a realização daquilo que deseja. A esperança traz consigo a ideia de crença, de confiança em algo positivo. Também pode estar associada a um sonho ou a uma expectativa.

A esperança necessita de perseverança, de uma persistência em acreditar que as coisas podem melhorar, mesmo quando a tendência é negativa. Em certo sentido, a esperança anda de mãos dadas com a fé e com o amor e não se dá bem com a frustração.

A frustração desmotiva e diminui a capacidade do indivíduo perseverar, de continuar lutando por aquilo que acredita. A frustração pode vir acompanhada de um sentimento de incapacidade, diante de obstáculos difíceis de serem superados. É, por essência, um desmotivador que tenta dizer para o indivíduo que ele deve desistir.

Faço esse pequeno resgate desses dois estados emocionais para demonstrar o sentimento dicotômico que motiva a maior parte da população.

As pesquisas de opinião realizadas pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião indicam que o eleitor está vivendo esses dois estados emocionais durante essa pandemia, sendo que a frustração tem ocupado a maior atenção da sociedade, pois está presente no cotidiano de cada família.

A pandemia tem dificultado a viabilidade de muitos projetos pessoais, começando pela questão econômica e financeira. Muitos negócios e empregos foram perdidos, muitas pessoas estão com dificuldade de manter o seu empreendimento e outras tantas percebem as dificuldades de se conseguir uma vaga de emprego. 

Quando o tema é crescimento cognitivo e intelectual, a educação também tem sido uma preocupação constante da população. Seja pela dúvida em relação à qualidade das aulas remotas (as lacunas que ficarão) ou pelo receio do impacto que a falta de socialização irá causar no desenvolvimento emocional das crianças e adolescentes. A grande pergunta é sobre o impacto geracional do isolamento social: como serão esses cidadãos?

Se a entrevista é com alguém que está com um tratamento de saúde represado (exames, consultas especializadas, cirurgias eletivas…) a frustração divide espaço com o medo e a indignação. Os entrevistados relatam a precarização de um sistema que já não respondia no ritmo desejado. Agendas são realizadas levando em consideração a fila de pacientes que precisam de atendimento, sem considerar que esse tempo de agenda pode agravar o quadro ou até ser mortal. É comum encontrarmos casos de famílias que receberam uma ligação para a realização de um procedimento de saúde após a morte de seu ente querido.

A frustração também ocupa o espaço das famílias com poder econômico. Muitos reclamam das viagens que não conseguiram fazer, das festas de casamento, debutantes ou aniversários que deixaram de realizar e dos momentos históricos que perderam. Cada um tem a sua dor!

Até aqui relatei a dicotomia vivida pelas pessoas em algumas de suas lutas pessoais, tentando superar a frustração e se apoiar na esperança, na crença de que irá melhorar.

Agora, a frustração se mostra mais ativa quando essas pessoas são instigadas a opinar sobre as instituições, sobre os políticos e as eleições. A maioria da população se mostra cansada, exausta, sem perspectiva e com muita desesperança. A maior indignação é com o aumento do jeitinho brasileiro, da corrupção, dos conchavos políticos e da gestão da pandemia.

Mas, como o brasileiro não desiste nunca, está sempre tentando encontrar um caminho, algo ou alguém em quem acreditar.

Autor

Elis Radmann

Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO – Instituto Pesquisas de Opinião em 1996 e tem a ciência como vocação e formação. Socióloga (MTB 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e tem especialização em Ciência Política pela mesma instituição. Mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Elis é conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) e Conselheira de Desburocratização e Empreendedorismo no Governo do Rio Grande do Sul. Coordenou a execução da pesquisa EPICOVID-19 no Estado. Tem coluna publicada semanalmente em vários portais de notícias e jornais do RS. E-mail para contato: [email protected]
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