Colunas

O homem que lembrava

Por José Antônio Moraes de Oliveira

O russo Solomon Shereshevsky era um homem extraordinário. Dotado de uma memória prodigiosa, acabou pagando um alto preço por isso. Nos anos 30, ficou famoso como “O Homem que não Esquecia” e foi objeto de estudo e experiências conduzidas pelos maiores neurocientistas da época. Mas ao mesmo tempo,Solomon tinha grandes dificuldades em reconhecer rostos.

***

A maioria de nós guarda na memória os rostos das pessoas conhecidas; e quando enxergamos alguém que conhecemos, nossos mecanismos mentais identificam pessoas, comparando seu rosto com o catálogo de rostos que temos armazenado. Masa incrível memória de Salomon Shereshevsky era capaz de guardar cada mudança nos rostos que visualizava. Assim,a cadavezqueum conhecido mudavaaexpressãofacial – sorridente, triste ou apática – sua memória arquivava todas as versões daquele rosto. Assim,para ele, aspessoasnão tinham apenas um rosto,masdezenas, centenas.Equandoencontravaumconhecido, a mente de Salomon ia em busca  daquelerosto nas imagens arquivadas namemória. O que significava uma incessante – e torturante – procura do rosto da pessoa – ou pessoas – que estavam à sua frente. 

***

Mas para compensar suas dificuldades em identificar amigos e parentes, Salomon Shereshevsky foi reconhecido como o primeiro caso de hipermnésia – excesso de memória cognitiva – da medicina moderna.Passou por testes complicados, onde era forçado a memorizar fórmulas matemáticas complexas e poemas em vários idiomas. Para espanto dos médicos, ele não apenas decorava o que lhe era apresentado, como repetia tudo em ordem inversa. Um psicólogo que estava presente aos testes, voltou a visitar Salomon 10 anos depois,confirmando que ele repetia com facilidade números, textos e poemas da sessão inicial. E ainda relembrava os diálogos e a roupa que o psicólogo usava:

***

“- Você estava sentado em uma cadeira de balanço. Usava um terno cinza com colete e olhava fixamente para mim. E lembro das palavras que você disse…”.

Depois do diagnóstico dos cientistas, Shereshevsky pensou que podia ganhar a vida e ficar rico se apresentando como O Homem que Lembrava“. Deixou o emprego no jornal onde trabalhava e vai se apresentar nos bares e clubes de Moscou. As platéias oaplaudiam entusiasmadas, exigindo desafios cada vez mais difíceis. Mais tarde, ele excursiona pelo interior da Russia, com enorme sucesso. Mas o sonho não durou muito.

Aos poucos, Shereshevsky percebe uma crescente sinestesia, quando todos os cinco sentidos se misturam. Relembrar passou a ser mais difícil, com as palavras assumindo cores, sabores, formas e cheiros. Ele não mais consegue esvaziar a memória  e chega um ponto em que ele nem consegue relaxar nem desligar o fluxo de informações que absorve sem cessar. Qualquer som, palavra ou rosto desencadeia uma torrente de lembranças do que havia acontecido em seu passado. 

 ***

Atormentado, “O Homem que não Esquecia”, desiste de se apresentar em público e vai trabalhar como motorista de táxi em Moscou. O homem que tinha a mais fenomenal memória da história morre em 1958,anônimo e esquecido de todos.  

***

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
Compartilhar:

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.