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Uma história

Por Flávio Paiva

João era uma criança de afirmações, de certezas. Virou um adolescente com convicções mais absolutas ainda e depois se tornou um adulto que dizia sempre isso eu sei, isso é assim. Isso não funciona assim, mas dessa forma. Até que João foi barrado por Maria. Que, em função de terem se passado décadas, bateu de frente.

Começou a questionar as certezas de João, que em princípio reagiu no ataque, mais agressivamente ainda, reafirmando as convicções. Mas os caminhos deles estavam marcados, traçados para um encontro que não iria terminar naquele encontro. Por casualidade ou não, se viram várias outras vezes e igualmente, Maria não se intimidou nem um pouco, pelo contrário. Passou mesmo a questionar João.

E questionou tanto e tão fortemente e às vezes de maneira contundente, que fez o furo no casco do navio de João. Então, ele tinha só duas alternativas. Ou ele afundava, o que óbvio que não queria, ou teria que usar material que Maria fornecia para fazer o reparo no casco e continuar vivo, navegando.

Assim estamos. Estamos líquidos, navegando em um mundo totalmente líquido, incapazes ou mesmo não querendo manter tão fortemente as nossas convicções. Ou melhor dizendo, nossas certezas inquestionáveis. Claro que todo mundo tem características pessoais, éticas, que não se modificam ao longo de uma vida inteira. Grazadeus. 

Já outras e agora no mundo são tantas, que vão quase todos os dias sendo rearranjadas, remodeladas, feito massa de modelar que pode ser um cubo, uma pirâmide, um cinzeiro, uma empresa, uma família. 

Agora, antes de deixar o barco naufragar e jogar a toalha, vá se perguntando aí (e eu aqui) se existe espaço para criar novas formas de empresa, de vida, de mundo. Antes que achem que sou um hippie nos dias de hoje (o que não seria tão mal assim, pensando bem), a ideia aqui é que entrar em contato com novidades, seja para adotar ou não, seja para rejeitar, seja para recomendar, fugir, o que for, não é mais uma possibilidade. É uma necessidade para continuar navegando.

O exemplo da navegação, do leme, das velas ajustadas aos ventos já foi usado milhares de vezes na história. Nesse caso, pego e uso de novo, porque ele é bom mesmo e eu estaria me contradizendo por tudo o que escrevi aí acima se não utilizasse esse exemplo.

Tem final feliz a história de João e Maria. Não faço a menor ideia, porque estamos cada vez mais vivendo nesse mundo em que a inteligência ficou cega de tanta razão, como cantou Lenine. Mas segue o baile, a navegação, a vida. 

Autor

Flavio Paiva

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