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Antoine parou de curtir tudo

Por Flávio Paiva

Antoine tinha uma vida até certo ponto comum na pequena cidade de Chartres, na França. Nessa pequena cidade, que tem em sua população mais 39 mil almas habitantes, ele gostava de levar (e fazer disso seu meio de vida, além do estilo da própria) os visitantes, da França, Europa ou do mundo todo para conhecer as belezas da cidade, em especial a Catedral de Chartres. Ela, como ele não cansava de citar (e de admirar) é uma das mais belas construções da Europa.

Assim ele seguia a vida, tendo contato com o antigo, mas também com o novo. Faziam parte da sua rotina social media, AI, IoT e tantas maravilhas tecnológicas que temos hoje em dia. Curtia, interagia, reagia, postava. A vida pulsava ali e para ele estava tudo certo, simpático e organizado.

Até que numa manhã ele acordou e pensou: “Por que faço o que faço? Que graça tem? Faço a mesma coisa todos os dias.”. Pensou logo, agoniado, em alguma frase que o ajudasse a aliviar esse aperto no peito. Mas ela não vinha. Não veio. Ele foi convivendo com aquela sensação que até lhe dava algum ar engraçado, para quem via de fora. Continuou curtindo. Isso foi numa segunda, 20 de setembro de 2021.

Mas na sexta, dia 24, ele arremessou a toalha. “Deu!” E parou de interagir nas redes, foi aos poucos se desligando do mundo virtual, na medida do que podia uma pessoa de 37 anos fazer. Talvez se desligando não seja o melhor termo, mas reduzindo muito. E ele viu que, ao contrário do que podia parecer, ele não sentiu uma mudança tão violenta. Ele só foi seguindo o caminho, no feed que aparecia na sua frente, dando scroll infinito na vida. A diferença dessa vez, é que o foco ficou mais concentrado no essencial.

Uns 4 meses depois desse processo que foi quase uma desintoxicação de curtidas, uma terapia de grupo (dele com ele mesmo), passou a se curtir mais. A se gostar mais. E aí, com mais espaço, cores, autenticidade e principalmente, tranquilidade, foi voltando à vida tecnológica. Se não com a mesma intensidade de antes, tinha o mais importante: aquilo era ele, de verdade. Sem filtros.

Até que ele, numa dessas tours para levar turistas conhecer a Catedral de Chartres, conheceu Isabelle, uma mulher interessantemente linda(aqui, cabe uma explicação desse autor: interessantemente linda é um conceito que criei para definir aquelas mulheres que podem ser bonitas ou não, mas que são principalmente incrivelmente bonitas, sedutoras e encantadoras pelo que carregam em si, de inteligência, de vida, de charme, de sensualidade, virando verdadeiros ímãs para aqueles que podem se aproximar, com 39 anos e que vinha de Paris a cada 15 dias primeiro para conhecer Chartres, a Catedral, depois a Catedral, depois a Catedral e depois Antoine, depois Antoine e hoje vivem por lá. O fim dessa história, além desse, deixo pra você inventar. Será que foi parar nas redes?

Autor

Flavio Paiva

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