
Não por acaso, eu desconfiava das ciganas do Campo do Polo, que batiam palmas no portão de casa oferecendo para ler nossa Buena Dicha. O pai costumava dizer que eram umas fingideiras, pois nunca se deve brincar com o futuro. Mas, um certo dia, algo aconteceu que me deixou cheio de dúvidas.
Seu nome era Anna dos Gatos, não usava bola de cristal, mas todos falavam que ela sabia prever o futuro. Morava em um pequeno apartamento de fundos e fazia justiça ao nome: havia gatos por toda parte, nas cadeiras, em cima do sofá e se espreguiçando em cima do fogão.
Vestida de branco, toma de minha mão, passa o dedo na linha da vida, fecha os olhos por um bom tempo e sussurra alguma coisa no ouvido da mãe que a faz empalidecer. Na saída, pergunto o que dissera a vidente, mas a mãe hesita e cala. Depois me toma pelo braço e contar que a tal mulher dos gatos sabia de coisas antigas, que aconteceram quando eu tinha sete ou oito anos.
Naquela noite, perco o sono, me reviro na cama me perguntando:
“Como ela podia advinhar que quebrei
o espelho do banheiro?”.
“E como sabia que uma vez cortei
fundo a mão com a faca da cozinha?
Sem respostas, levanto ainda assombrado e no café-da-manhã com a família, disfarço minhas inquietudes, mas fico pensando – se a mulher dos gatos sabe o que aconteceu comigo no passado, com certeza sabe o que vai acontecer comigo no futuro…
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