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Não se brinca com o futuro

Por José Antônio Moraes de Oliveira

Não por acaso, eu desconfiava das ciganas do Campo do Polo, que batiam palmas no portão de casa oferecendo para ler nossa Buena Dicha.        O pai costumava dizer que eram umas fingideiras, pois nunca se deve brincar com o futuro. Mas, um certo dia, algo aconteceu que me deixou cheio de dúvidas.

Seu nome era Anna dos Gatos, não usava bola de cristal, mas todos falavam que ela sabia prever o futuro. Morava em um pequeno apartamento de fundos e fazia justiça ao nome: havia gatos por toda parte, nas cadeiras, em cima do sofá e se espreguiçando em cima do fogão.

Vestida de branco, toma de minha mão, passa o dedo na linha da vida, fecha os olhos por um bom tempo e sussurra alguma coisa no ouvido da mãe que a faz empalidecer. Na saída, pergunto o que dissera a vidente, mas a mãe hesita e cala. Depois me toma pelo braço e contar que a tal mulher dos gatos sabia de coisas antigas, que aconteceram quando eu tinha sete ou oito anos.

Naquela noite, perco o sono, me reviro na cama me perguntando:

Como ela podia advinhar que quebrei

o espelho do banheiro?”.

“E como sabia que uma vez cortei

fundo a mão com a faca da cozinha?

Sem respostas, levanto ainda assombrado e no café-da-manhã com a família, disfarço minhas inquietudes, mas fico pensando – se a mulher dos gatos sabe o que aconteceu comigo no passado, com certeza sabe o que vai acontecer comigo no futuro…

***

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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