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Vagando por Paris

“O flâneur é um príncipe que se compraz em seu anonimato.” (Charles Baudelaire) O famoso autor de Flores do Mal se declarava como “un …

“O flâneur é um príncipe que se compraz em seu anonimato.”

(Charles Baudelaire)

O famoso autor de Flores do Mal se declarava como “un piéton a Paris” e dizia que caminhar anonimamente pelas ruas e parques da cidade era seu melhor exercício de humildade e um aprendizado da História. Charles Baudelaire deixava de manhã cedo seu apartamento na Île de Saint-Louis e caminhava em direção à Rive Gauche. Seguia ao longo do Boulevard Saint-Michel, com eventual parada no então Le Vieux Pontoise, para tomar seu petit déjeuner.

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Suas demoradas caminhadas eram pontilhadas por paradas ao longo das ruas e praças, para admirar as tradicionais placas de mármore branco que marcam os locais onde grandes poetas, músicos e escritores viveram e morreram. Uma de suas paradas obrigatórias era no número 8 da rue des Feuillantines, com uma placa indicando o local do primitivo convento dos monges feuillantines e onde Victor Hugo passara parte de sua infância, de 1808 a 1813, antes da família se transferir para outro endereço, não longe dali, no número 30 da rue Dragon. A história de Paris também fazia parte da flânerie de Charles Baudelaire.

Na rue de Vaugirard, no número 72, ficava o antigo convento do Carmo, onde uma simples placa cinzenta recorda que em 1792, 114 frades carmelitas foram chacinados por um grupo de fanáticos.

E, adiante, no número 8 da rue des Grands-Augustins, outra placa evoca mais um episódio dramático – ali, o rei Henry IV foi assassinado e, uma hora mais tarde, seu filho, Louis XIII foi coroado.

O poeta segue o caminho pela rue de l’Estrapade, onde, no nº 3, se encontra o casarão onde Denis Diderot escreveu e editou sua obra referencial, A Enciclopédia. O dia avança e o poeta resolve fazer uma pausa mais demorada. Dirige-se à rue de l’Ancienne-Comédie, onde no número 8, se localizava o Restaurant Dagneau, conhecido reduto de poetas e escritores. Suas mesas eram frequentadas por nomes como George Sand, Théophile Gautier e Victor Hugo. Ou, se buscasse um lugar mais sofisticado e tradicional, iria mais adiante, até o Café Procope, no nº 13 da mesma rua, onde desde 1686 desfilavam notáveis da política e das letras: La Fontaine, Voltaire, Anatole France, os revolucionários Danton e Marat e até msmo Napoleão Bonaparte.

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Além de um flâneur de corpo-e-alma, Charles Baudelaire, não esquentava lugar, trocando de endereços, aparentemente insatisfeito com as casas, apartamentos ou águas-furtadas em que morava. Por certo tempo, ele viveu na Île de Saint-Louis, inicialmente no nº 22 do Quai de Béthune e, depois, no apartamento ao  lado, no nº 24. No entanto, não se vê placas com seu nome. Para a Prefeitura de Paris, ali morou apenas outro ilustre morador, o presidente Georges Pompidou, entre 1960 e 1974.

Os passos de Baudelaire o levariam ainda à rue de Le Regrattier (onde tentou se matar com uma facada no peito e fracassou), depois à rue de Pigalle, e, a partir de 1857, ao Hôtel du Maroc, no nº 35 da rue du Senne. É neste ano que sua vida torna-se difícil, quando os censores denunciam como imorais e indecentes seis poemas de “Les Fleurs du Mal”. E ainda lhe impõem uma multa de 300 francos. Baudelaire aceita a sentença e escreve seis novos poemas, que ele considera “muito mais belos que os censurados”. Depois disso, ele troca mais uma vez de endereço, agora para número 22 da rue d`Amsterdam e, depois, para a rue Beautrellis, acompanhado de sua musa, Jeanne Duval, que ele chama de ma maîtresse mulâtresse.

Neste último endereço, ele termina de escrever a biografia do amigo Theophile Gautier. A obra recebe muitos elogios, inclusive de Victor Hugo, que a compara com “um raio que caiu do céu”.

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Embora sem o merecido reconhecimento em vida, com o tempo, Charles Baudelaire passou a ser considerado o precursor da poesia simbolista e o pré-fundador da poesia moderna. Ele morreu prematuramente, em 1867 e está sepultado no Cemitério do Montparnasse, não longe de alguns dos endereços onde viveu e no trajeto de suas meditativas caminhadas pelas ruas de Paris.

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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