Toda a unanimidade é burra ou “o monopólio é prejudicial ao crescimento”. Já ouvimos milhares de vezes estas duas frases que sintetizam a preocupação de pensadores, empresários, legisladores e outros profissionais, sobre os riscos de algo ou alguém dominar completamente, ou quase por completo algum setor, seja qual for a atividade. No caso específico da comunicação, é mais do que necessário que exista um certo equilíbrio no mercado por dois motivos: 1) evitar a manipulação do pensamento, pois um veículo pode tornar-se uma espécie de porta-voz da sociedade, mesmo não o sendo na realidade; 2) evitar que esse domínio prejudique o desenvolvimento e a própria existência de uma concorrência eficiente, garantindo também a manutenção de um mercado de trabalho. Claro que existem outros fatores a considerar, mas vou me fixar nestes dois.
E porquê escolhi este tema? Certamente haverá quem vai concordar e outros que discordarão. É do processo. Refiro-me ao meio rádio, uma das formas de comunicação que sempre me atraiu, pela qual nutro quando respeito e admiração, mas que me também me preocupa. Talvez eu ainda não tenha a experiência profissional para comentar com extrema propriedade a situação do rádio no Rio Grande do Sul…mais especificamente, Porto Alegre. Quem fez um belo trabalho sobre isso foi o professor Luiz Arthur Ferraretto, em “Rádio no Rio Grande do Sul”, sem dúvida, um trabalho exemplar.
Porém, nos mais de 40 anos como jornalista procurei observar as reações do mercado, pelo convívio como pela leitura. É claro que tanto pelo lado empresarial, mais ainda pelo ponto de vista dos profissionais de comunicação. E atualmente convivemos com um cenário preocupante, principalmente em Porto Alegre, onde a Rádio Gaúcha domina o mercado, com mais de 80% de audiência quando se trata de emissora mais completa, e isto envolve jornalismo, serviço e entretenimento. No caso das emissoras mais voltadas para o segmento musical, cenário é diferente, há uma distribuição mais equilibrada da audiência. Mas estas emissoras tem uma estrutura superenxuta, não investem para qualificar uma equipe de jornalismo, coberturas setoriais e programas consistentes. Algum eventual noticiário, quando ocorre, é baseado na leitura de jornais e agora, da internet.
No entanto, o que sustenta uma emissora é a publicidade e esta converge, em valores, invariavelmente para aquelas que detém mais audiência. E é claro, existe a diferença nas tabelas de preços. E mesmo a mídia oficial também acaba privilegiando a chamada “grande mídia”. Às demais, sobra um pouco, na verdade, migalhas. Por isso é difícil para quem está nas posições de menor destaque no ranking, conseguir recursos suficientes tanto para investir em novas tecnologias, e projetos editoriais, como para qualificar seu quadro profissional. Mas, enfim, existe saída?
Certamente que existe saída. Não é fácil. Lembro que quando entrei para a Faculdade de Jornalismo, no início dos anos 70, Porto Alegre tinha um espectro radiofônico interessante, pois não existia o modal FM. E entre as rádios AM, a Guaíba dominava, com uma programação muito interessante, mesclando um jornalismo vibrante, com noticiosos ao estilo clássico, programas de entretenimento e serviço. Para muitos, na época, era a “emissora perfeita”. Por isso, era modelo, admirada em todo o Brasil e sua audiência passava dos 70%. No dial, porém, outras emissoras brigavam pelas outras posições, a Farroupilha, a Gaúcha, a Difusora, que também investiam em jornalismo e esporte. E na faixa de entretenimento a Itaí – ainda tinha novelas -, Princesa, Continental, União, Pampa, Caiçara e outras.
Mas a Guaíba, pertencente ao poderoso império da Caldas Júnior, que ainda tinha o fortíssimo Correio do Povo, a vibrante Folha da Manhã, a Folha da Tarde – que chegou a ter duas edições diárias – e mais tarde a TV Guaíba, “deitou nos louros” e se deu mal. Faltou visão empresarial para saber que nenhum reino se mantém eterno se não estiver atento às ações do inimigo/concorrente. E a RBS começou a evoluir, aproveitar os vácuos e alguma desatenção da EJCJ, como no caso dos classificados e foi avançando. Investiu em administração moderna, marketing e, principalmente, talentos. Aos poucos foi conquistando o mercado gaúcho, deixando o grupo rival para trás.
Atualmente, a situação é diferente: a RBS é que domina o mercado. Muitos atribuem essa liderança ou posição ao fato de a RBS TV ser afiliada à Rede Globo. É verdade que ajuda muito, mas não é determinante. A verdade é que a RBS, mesmo criticada por muitos, inclusive por jornalistas, ainda é a rede que mais investe em tecnologia, cobertura, novidades editoriais, mercadológicas e ações de marketing. Está no topo, sabe disso, mas também sabe que não pode “bobear”, por isso está em constante evolução. Mas, e as outras redes ou, no caso específico das rádios, elas não estão fazendo nada. Fazem sim, mas pouco para abalar as estruturas da líder. É como se fossem pequenos chutes nas canelas. Incomodam um pouco, de vez em quando, mas não derrubam.
Qual seria a alternativa para que as demais emissoras de Porto Alegre que atuam na mesma faixa da Rádio Gaúcha, como Guaíba, Bandeirantes e Pampa pudessem começar a mudar esse cenário? Bem, não sou um expert em gestão de comunicação, mas tenho sim, minhas ideias. Algumas podem até ser meio malucas, mas quem sabe tentando não daria algum resultado. Como não farei consultoria de graça – até porque tem gente ganhando bem para isso – vou dar apenas uma dica. Se estivesse no comando de uma destas emissoras, certamente me despiria de todo e qualquer orgulho para propor uma ação conjunta: fazer um POOL de emissoras e trabalhar de forma integrada em busca coberturas ou ações para atrair os anunciantes. Fazer, quem sabe, até “tudo junto e misturado” em alguns programas, para justamente atrair os ouvintes, ganhar audiência e mais verbas.
É evidente que cada emissora manteria sua programação básica, seu estilo, mas custaria tentar algo novo, que chamasse a atenção. E aí, meu amigo, fazer como Silvio Santos, ir para a praça, para as ruas, visitar entidades, empresas, escolas etc. Não se trata de um “Tudo pela Audiência”. É muito mais do que isso. Se não forem criativas, certamente vão patinar muitos anos sem ameaçar a líder. Tenho certeza que meus amigos gestores nestas emissoras todo santo dia pensam em o quê e como fazer para roubar alguns pontos dos concorrentes.
Quem sabe todos juntos não possam ganhar pontos preciosos de quem hoje está com muito, mas muito mais, algo como 85%. Deixo claro que nada tenho contra a Rádio Gaúcha, ao contrário, gosto muito do seu estilo inovador em vários aspectos, na sua persistência, no tentar fazer. As outras emissoras também desenvolvem ações, mas creio que ainda são movimentos tímidos para sacudir o mercado. Torço para que esse mercado se torne mais equilibrado, para o bem da comunicação e dos comunicadores.

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial