Por gosto político e interesse profissional procurei acompanhar de forma constante a cobertura jornalística das ações envolvendo o impeachment da presidente Dilma Rousseff na Câmara Federal. Constatei que o volume de informações foi imenso, às vezes demasiado, repetitivo, ocupando cerca de 70% do espaço dos telejornais, páginas e páginas dos jornais e revistas, mas curiosamente, a dosagem no veículo rádio foi mais equilibrada. De uma forma geral, houve excesso sim, mas alguém comentará com certa razão que foi extremamente necessário. Não discordo, apenas faço referência ao exagero.
Quanto ao enfoque, procurei sinalização nas redes sociais e constatei que as reclamações dos defensores do mandato da presidente Dilma Rousseff foram mais frequentes, às vezes ferozes, alegando que algumas redes de televisão, principalmente a Globo, e algumas revistas, notadamente Veja, foram tendenciosas. Os apoiadores do impeachment deixaram claro que desejavam medidas mais efetivas do Supremo Tribunal Federal. Enfim, cada um defendendo seu lado. As opiniões – e tive cuidado de ler as versões de cada parte – chegaram a ser patéticas em sites e blogs pessoais, partidários e institucionais.
Deixando de lado a partidarização jornalística, em maior ou menor grau ela aconteceu, vou me fixar em um detalhe que me deixou frustrado como leitor e profissional. Cerca de duas semanas antes da votação, quando a maioria dos parlamentares já havia se posicionado contra ou a favor, surgiram as listas de projeção. Dois dos maiores jornais do Brasil, o Estado de São Paulo e a Folha de São Paulo, passaram a divulgar os número de votos a favor, contra o impeachment e os indecisos/não encontrados. A cada três, quatro dias, esse placar mudava conforme os acordos feitos entre as lideranças partidárias e o governo ou a oposição – ou algum fato específico, como a licença maternidade da deputada Clarissa Garotinho.
O curioso – e frustrante – é que nem a Folha nem o Estadão, muitos menos as grandes redes de TV, como Globo, Bandeirantes, Record e SBT, souberam projetar ou comentar com mais profundidade os votos dos indecisos ou não encontrados. Ora, por favor, como é que um parlamentar vai se “esconder” tão bem para não ser encontrado e dizer como voto. Falharam as empresas de comunicação. E feio. E quanto aos indecisos, talvez um ou outro poderia, realmente estar nesta condição, mas salvo raras exceções, quem faz cobertura política em Brasília há anos, sabe, ou tem obrigação de saber qual o provável comportamento de um parlamentar pelo seu histórico.
Será que o Heraldo Pereira (TV Globo), que transita pelos bastidores da Câmara, Senado e Alvorada não teria como projetar alguns votos indecisos? Uma grande surpresa, realmente aconteceu com o voto do ex-ministro dos transportes Alfredo Nascimento (PR/AM), que não apenas votou a favor do impeachment como renunciou ao cargo de presidente do partido no ato da votação. Alguns poucos deputados do PP e PDT também estava indecisos, mas era possível sim, prever como votariam. Nos dias que antecederam a votação, tanto a Folha como o Estadão – e a maioria dos veículos copiava estas informações – davam contam que a oposição tinha entre 338 e 339 votos… e precisaria de 342 para aprovar a admissibilidade (eta palavrinha horrível que foi incorporada ao noticiário político) do impeachment. Seria muito difícil descobrir qual a tendência de pelo menos 10 que votariam a favor pelo seu histórico ou tipo de interesse futuro.
De qualquer forma, apesar de alguns escorregões, a cobertura jornalística foi positiva. Com receio de ser considerada como apoiadora deste ou daquele lado, a maioria dos veículos teve um comportamento correto, procurando equilibrar tempo, convidados pró e contra, espaço e comentários. Creio que o jornalismo saiu fortalecido desse episódio, mas basta vermos os comentários nas redes sociais para comprovar que há muitos descontentes com imprensa de uma forma geral. Quem perde geralmente tem a tendência de buscar culpados em qualquer lugar. Faz parte do processo e o jornalista deve respeitar todas as posições, mesmo as que sejam contrárias às suas.

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