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Jornalismo: ética e desencanto

Recentemente, dois conceituados jornalistas gaúchos, Mário Marcos de Souza e Luiz Ferraretto, manifestaram tristeza e desencanto com os rumos que a profissão de jornalista …

Recentemente, dois conceituados jornalistas gaúchos, Mário Marcos de Souza e Luiz Ferraretto, manifestaram tristeza e desencanto com os rumos que a profissão de jornalista está tomando no atual momento, caracterizando-se por ignorar a ética e as boas regras do jornalismo. Mário Marcos citou o caso da Folha de São Paulo que “contratou” o jovem líder de direita Kim Kataguiri e Ferraretto citou um erro crasso na coluna do chargista Marco Aurélio, trocando uma foto de Lula por FHC. Ferraretto comenta que a FSP mantém-se irredutível quanto ao aproveitamento do novo colunista, mas que ZH preocupou-se em pedir desculpas. Ambos os casos levam ao questionamento da credibilidade jornalística.

Não é apenas o Mário Marcos que se desencanta com a profissão, outros já se manifestaram anteriormente e teremos mais colegas nesta mesma situação no futuro. A ética profissional está sendo pisoteada em nome da gestão moderna. Há tempos que percebo um novo foco nas comunicações e no próprio jornalismo: a ética profissional está, aos poucos, sendo sufocada, substituída pela ética empresarial. Como assim? É simples: o jornalista e os leitores/ouvintes/telespectadores/navegadores, veem o jornalismo como uma missão, e imaginam poder circular em um universo perfeito para cumprir chegar a seus objetivos.  A maioria – salvo exceções de maus profissionais que existem em todas as áreas – procura fazer tudo conforme aprendeu na faculdade e no dia a dia, isto é, respeitando a ética profissional. Mas…

Mas quem manda, quem dá as cartas, quem define as coordenadas não é o repórter, o editor, o jornalismo, mas o dono da empresa. Muitas vezes não deixa claro quais são as regras do jogo, mas tem um mínimo de noção, sabe até onde pode avançar. É a ética empresarial, regida pela cartilha da necessidade do lucro, fazendo o que precisa ser feito, mesmo que isso signifique ferir a ética profissional. Nesse ponto é preciso decidir: continuo sendo jornalista, mesmo sabendo das regras do jogo, dos problemas de ética e tento, a menos, passar o máximo de informações que o sistema permite – ou não se dá conta e passa – ou pego minhas trouxas e vou embora. É melhor trabalhar em uma pousada em Garopaba ou vender churrasquinho em alguma parada de ônibus.

A situação chega a ser dramática para profissionais mais antigos, que viveram um período diferente, quando o jornalismo não era tão mercantilista. Os mais jovens ou os que estão se formando e mesmo aqueles que vão ingressar na faculdade, talvez já saibam como funciona o sistema. E vão seguir adiante, respeitando uma ética diferente, adaptada aos tempos atuais. Não quer dizer que estão errados, pois a vocação jornalística muitas vezes nos impele a tentar enfrentar estes desafios e, mesmo com decepção ou desencanto, tentar cumprir a missão que, basicamente, é bem informar,  com ética e verdade. Porém, o que o Mário Marcos e o Ferraretto expuseram é para reflexão. Muita reflexão.

Autor

Julio Sortica

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