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O autêntico jornalismo tem os dias contados

Talvez a maioria dos jornalistas – e o público em geral – ainda não tenha se dado conta de que as mudanças nas comunicações …

Talvez a maioria dos jornalistas – e o público em geral – ainda não tenha se dado conta de que as mudanças nas comunicações são mais profundas do que aparentam. E no jornalismo, especialmente, podem ter efeitos devastadores no que os mais antigos profissionais costumam classificar como jornalismo “autêntico”. Até alguns anos o padrão de comportamento das empresas jornalísticas, salvo algumas exceções, e em ocasiões especiais, era de separar claramente o editorial do comercial. Não era ético ou bem visto “misturar” as coisas porque comprometia a credibilidade do veículo. Pelo menos não deveria ser feito de uma forma, digamos, escancarada. Uma materinha 500 (como eram chamadas as reportagens que uma editoria era obrigada a fazer por ORDEM da direção para dar contrapartida a um parceiro) aqui, outra ali, de vez em quando era uma medida ainda aceita. Como ser fosse um pecado venial, mesmo que o repórter ficasse chateado em ter de fazer isso. Era assim. Era…

Mas sabemos que o mundo gira, as cabeças mudam, os conceitos também. Assim, como consequência, diante das novas técnicas de gestão empresarial, os produtos ganham traços de resiliência (para usar uma expressão em moda e que significa capacidade (ou necessidade?) de se adaptar ao meio ou à realidade vigente. Aos poucos a área comercial começou a impor alguns procedimentos alegando que era preciso faturar para pagar salários, sobreviver e ter lucro. E o forma surgindo alternativas que, mesmo um pouco envergonhados, os editores passaram a denominar de “publi editorial” ou “informe publicitário”. Na realidade, uma espécie de “propaganda” de um produto ou circunstância, mas em linguagem jornalística e formato editorial. Na verdade, todos sabiam que era publicidade, mas não naquele estilo de anúncio. Era algo “disfarçado”, não tão evidente ou agressivo à ética jornalística. Era como se validasse um antigo – e mal visto – ditado: “pagando bem, que mal tem!”.

No entanto, para quem cresceu cultivando e seguindo os preceitos do autêntico jornalismo, uma atividade independente, sem envolvimento comercial ou financeiro, tudo isso causava um mal estar. Muitos jornalistas até se negavam a fazer… mas sempre tinha quem fizesse, por não dar bola para a questão ou por necessidade. E o editor, coitado, o que iria dizer se uma ordem superior mandava fazer uma reportagem 500? Tinha duas opções, ou cumpria a ordem ou pedia demissão. Mas como ressaltei inicialmente, os tempos mudaram, o próprio conceito de jornalismo também, o romantismo e o “autêntico” estão cada vez mais ameaçados de extinção em função da necessidade de sobrevivência das empresas de comunicação. E quem quer resistir e tem alguma forma de sobreviver fora de um veículo, coloca um portal/site, um blog e vai lutar contra os moinhos de vento.

A própria formação jornalística atual está sendo direcionada, de forma consciente ou não, para entender, assimilar e, mais que isso, apoiar este novo perfil de comunicação e jornalismo. Digo isso porque algumas expressões em inglês passaram a ser incorporadas ao vocabulário jornalístico além do marketing, do release etc… O branded content, por exemplo, que basicamente significa conteúdo patrocinado, já faz parte desse universo. E para quem tinha alguma dúvida, desde o ano passado, por exemplo, Zero Hora  entregou seu caderno de gastronomia, o Gastrô, para o pessoal do grupo Destemperados, que exerce o branded content sem a menor cerimônia. Mas se no Gastrô – e na gestão do Caderno Donna o princípio também se evidencia – no “corpo” do jornal, ZH se entregou totalmente ao publicar conteúdo patrocinado na Semana da ARP – Associação Riograndense de Propaganda. Chegou a usar um logo com a expressão “ClicStudio”, mas não dizia o que era. Mas foram tantas as ligações de leitores e profissionais querendo saber o porquê daquilo, que um dia ZH explicou: era conteúdo patrocinado. Quem quer criticar diz que é a antiga “matéria paga” e outros, mais ácidos, caracterizam como “picaretagem”. Jornalismo “autêntico”? Só falta a pá de cal. É assim que caminha a humanidade! Quem acha que são mudanças naturais que ocorrem também em outros setores, pode seguir sua carreira sem remorsos, mas quem não assimila, é melhor pedir aposentadoria.

Autor

Julio Sortica

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