CORVO DO POE: Puxa, você de novo?
ERNANI SSÓ: É a crise, meu nego.
CP: Cabotinismo então se chama crise?
ES: Pode ser, mas também pode ser um serviço de utilidade pública. Veja, os resenhistas, como todo mundo nos jornais, trabalham demais, leem os livros correndo, quando leem, e escrevem a toda, sem pensar direito. Daí que os livros gringos, que já vêm com a publicidade pronta, têm grande vantagem em Pindorama.
CP: Por que não pede pros compadres falarem bem do teu romance?
ES: Se eu tivesse, pedia.
CP: Uma amiga tua disse que não ia levar os parentes no lançamento porque o Como o diabo gosta (Cosac Naify, 2015) tem muita putaria. Ela não falava sério, claro, mas que tem muita putaria, tem.
ES: Tem, mas não mais que o resto. Acontece que alguns leitores lembram mais das cenas de sexo que das outras. Ou se impressionam mais.
CP: Não tem medo de ser acusado de pornógrafo?
ES: Não. No meu romance o sexo é importante, mas não se limita ao que o inolvidável Edélsio Tavares chamava de aquilo-naquilo, que é, acho, o que diferencia o pornô do erótico. Eu lido com gente que, entre outras coisas, vai pra cama às vezes, não lido com dois bonecos que transam sem parar, com posições forçadas pra ficar tudo explícito na tela, pra ele parecer um super-homem e ela a matéria obediente da realização de suas fantasias. Você precisa estar num atraso danado pra achar a pornografia interessante, sem falarmos que a escrita ainda é pavorosamente mal escrita, vide Cassandra Rios ou Erika Leonard James, pra começo de conversa. Sexo, como o resto, precisa de clima, de sugestão, de enredo, de personagens. Aliás, sem isso, não fica nada caliente. Como dizia Nabokov, sexo não é ginástica. Então, se nas cenas que escrevo não transparece a relação do casal, seja ela lúdica ou desesperada, sacana ou cômica, lírica ou crua, eu considero um fracasso e boto no lixo. Simples assim.
CP: Você recebeu algum elogio por essas cenas?
ES: Alguns. Por exemplo, o crítico Paulo Hecker Filho me disse que eram novidade, porque comigo o sexo era social, justo isso de que falei, as relações, o meio, os personagens. Mas não sei se é novidade. Talvez só na literatura brasileira, que é muito cabaçuda, como dizia Caio Fernando Abreu, que também me deu força pra seguir escrevendo sobre sexo (isso quando eu tinha vinte anos, no milênio passado). E um adolescente me apertou a mão e disse: “Parabéns, fiquei de barraca armada”.
CP: Nenhum elogio de mulheres?
ES: Corvo, Corvo, acho melhor parar, que começo a me sentir com o arranjo tutti frutti da Carmen Miranda na cabeça.
CP: Por falar em barraca armada, você recomenda o Como o diabo gosta pros adolescentes?
ES: Por que não? Eles vão se divertir horrores. Eu não me proponho como modelo de nada – sai, tutufum! Mangolô três vezes! –, mas qualquer coisa é melhor que o modelo proposto pela pornografia: o vazio afetivo e a submissão. Há outra coisa, que faz bem aos adolescentes: Como o diabo gosta é a história de uma busca. Me parece, inclusive, que o Camilo é bastante adolescente, apensar da idade.
CP: Pois é, a gente sente que há uma busca, mas nunca se sabe exatamente o que o Camilo busca.
ES: Ora, ora, Corvo, o que todo mundo busca: a cerveja mais gelada, espelhos que não distorçam muito, sereias sem a parte de peixe, sentido ou satisfação, acertar o ponto do filé e do livro…
CP: OK, OK. Vamos voltar à putaria. Você tem muitos livros pra crianças. Como fica então? Se sente o médico e o monstro?
ES: Eu sou legião.
CP: Não te fresqueia, tchê!
ES: Quando escrevo pra crianças, escrevo sobre o que me preocupava ou divertia quando criança. Quando escrevo pra adultos, escrevo sobre o que me preocupa ou diverte agora. De qualquer forma, sigo bastante criança e cada vez mais perto da segunda infância.
CP: O romance tem muito humor, inclusive quando trata de sexo. No entanto, um grande autor, de cujo nome quero lembrar mas não consigo, disse que sexo e humor são uma mistura pior que limonada com mocotó.
ES: Esse cara está confundindo humor com programas globais e sexo com aquilo que ele faz, uma vez por mês, com sua senhora. Se você pode falar até da morte com humor, por que não de sexo? O problema real, como sempre, é falta de talento, não o assunto.
CP: Você disse que queria ser humorista, na adolescência, mas dos teus livros apenas um é uma comédia, O sempre lembrado. Enquadre-se ou se desenquadre.
ES: É verdade, só fui humorista n”O sempre lembrado. Como na maior parte da minha vida não consigo separar o cômico do drama, lá pelas tantas me pareceu natural não separar na literatura. Claro, é mais fácil separar, é mais higiênico e tal, mas quem quer moleza empurra bêbado na ladeira, como se diz. Depois, eu conhecia muitos autores, começando por Shakespeare e Cervantes, que se equilibraram na corda bamba, às vezes pendendo mais pro drama ou pro cômico. Como sempre li esses caras com mais agrado que os trágicos ou os humoristas puros, tentei aprender os macetes. É complicado, porque você tem de ver a dor com distância, mas não de uma distância que a dor deixe de doer. É como o cirurgião tirando uma bala das próprias tripas – sem anestesia e apreciando a ironia da situação.
CP: Você diria, como Kazuo Ishiguro, que quer ser a Jane Austen de calças?
ES: É uma boa pedida, não? Já tenho as calças, o que é meio caminho andado.
CP: Bom, vamos falar dos babados formais do Como o diabo gosta.
ES: Não tem nada demais: Camilo, meu personagem, levanta numa manhã muito feia – dia de São Gervásio, 19 de junho –, faz um mate e toma, coisa que leva uns vinte minutos. Isso é tudo. O romance é sobre esses vinte minutos. A parte evidente desses vinte minutos está narrada em itálico. O resto – as lembranças, delírios e invenções ou distorções – vem embutido nesses vinte minutos, como as gavetas da Vênus de Milo do Dalí. É simples, isso acontece com todos nós, todos os dias, basta dar uma espiada na própria vida. Como dizia Huxley, “A realidade, mesmo naqueles fragmentos que parecem mais sólidos, está crivada de ciladas”.
CP: Como você ordenou essas lembranças, delírios e invenções?
ES: Numerei todos os capítulos, depois numerei papeizinhos que botei num balaio e pedi pra uma vizinha bonita tirar um por um. Fui anotando os números numa folha e depois montei o livro.
CP: Sério?
ES: Ô Corvo, tou te estranhando! Embora o acaso desempenhe seu papel, como sempre, busquei uma ordem na distribuição dos capítulos. Às vezes a memória do Camilo, caprichosa como todas, faz suas associações. Às vezes eu entro na dança, na tentativa de equilibrar as coisas, alternando drama e comédia, alegria e angústia, realidade e pesadelo, pra cercar meu personagem pelos sete lados. Não faria sentido, por exemplo, botar três cenas de sexo uma depois da outra, não? Mais: como há uma boa variação estilística, tento não acumular monólogos ou diálogos, primeira pessoa ou terceira, essas coisas. Eu tenho um respeito supersticioso pelo saco do caro leitor.
CP: Você espera que, terminado o livro, esse quebra-cabeça se encaixe e forme uma figura?
ES: Não é uma esperança tresloucada, é? Todas as histórias revelam o Camilo, o meio e a época em que ele vive, seus vinte e oito anos de andanças. No fim, temos, me parece que razoavelmente nítida mesmo que fugaz e oblíqua, uma imagem dele e do clima do fim dos anos 70, começo dos 80, do desbunde e agonia da ditadura. Olha, eu gosto de experimentar, mas não abro mão da narração. Como dizia o Borges, a narração é um dos prazeres primordiais do homem. Abandoná-lo seria um pecado.
CP: Sim, claro, mas quando falo em figura, pensava mais no livro como um objeto.
ES: Também não é uma esperança tresloucada, é? As lembranças, pesadelos e invenções do Camilo vêm em estado bruto, como se ele estivesse tomando notas mentais e pensasse no que fará ou no que pode ser feito com elas. Trata-se, então, de um convite pro leitor esperto ler por cima do ombro do Camilo e elaborar com ele essa figura, ou o livro que escreverá.
CP: Você está muito falante. Está satisfeito com o livro?
ES: O suficiente pra publicá-lo.
CP: O lançamento vai ser dia 5 de agosto, às 19 horas, na Palavraria. Haverá antes um bate-papo com você, comandado pelo mestre-sala Milton Ribeiro. Muito bem, mas se chover?
ES: Vá de guarda-chuva, ora.
CP: Compareçam todos, por favor, que o Ernani tem poucas tias e moram longe.

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