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Maníaco sexual normal, como todos

O Globo: Muita gente imagina o senhor como um velho tarado que desenha quadrinhos. Tem uma mensagem para essas pessoas? Milo Manara: Posso citar …

O Globo: Muita gente imagina o senhor como um velho tarado que desenha quadrinhos. Tem uma mensagem para essas pessoas?

Milo Manara: Posso citar John Le Carré: “Sim, eu sou um maníaco sexual normal, como todos”. Já quanto ao “velho”, não posso fazer nada, infelizmente. Mas tampouco acho que seja um insulto.

Implicante, eu?

Você não implica com ninguém? Puxa, você é demais. Agora me conte como andou sobre as águas, como multiplicou o pão e o vinho e como ressuscitou no terceiro dia. Como, você não é Cristo? Tem certeza? Se parece tanto.

Eu implico com artistas, escritores, atletas, papas, políticos, vizinhos. Não, não acho que seja justo sempre, mas, confesso, sempre tenho prazer nas implicâncias. Não se trata apenas de que eu discorde de alguém sobre determinada coisa – gosto de pegar no pé de alguns caras. O Freud e o Jung, por exemplo. Por que os erros ou exageros do Freud me irritam e os do Jung não? Ou por que os acertos de um me alegram mais que os do outro? Talvez seja a atitude do Freud, sabe como é, o jeitão do sujeito que sobe no caixote e não quer descer de modo algum, nem fechar a boca. Mas, poxa, devemos tanta coisa ao Freud.

Eu detesto textos pomposos, mas relevo isso no Conrad. Nem tenho vontade de dar uma gozada nele por certas frases – e olha que tem umas tenebrosas. Se ele fosse o Proust, eu chutava e depois cuspia em cima. No caso do Proust talvez menos por ele que pelos proustianos. Não conheço muitos, mas os que conheço me parecem tocar de ouvido, me entende? Aí, não dá outra, fico torrando e lembro aquela velha observação do Borges. Acho tão boa que vou fazer novo parágrafo pra ela, um modo de esfregá-la na fuça dos proustianos de plantão.

Borges: “Proust emprega o epíteto cardíaco para se referir a coisas do coração como órgão do sentimento. Acho que é um erro: “Apliquei, no lombo canino, uma carícia manual””.

Mas minha implicância mais selvagem é com Sartre e Simone de Beauvoir. Eram trapaceiros não apenas intelectuais mas nas relações íntimas, inclusive entre eles mesmos, já que o famoso casamento aberto foi uma disputa cheia de pequenas e grandes vinganças. A recusa do Nobel me levou a respeitar um pouco o Sartre, até que descobri que ela se deveu à influência dos russos, a quem ele beijava a mão na época. Depois se arrependeu e quis saber se podia receber a bufunfa. Mas aí era tarde, a academia disse. Bem feito.

Não implico com todos os trapaceiros, até acho alguns simpáticos. Meu problema com o casal existencialista é a pose profissional de seriedade e o uso de todo tipo de mentira, todo tipo de manobra, pra manter o status de intelectuais imbatíveis. Na defesa de Stalin e Mao, por exemplo, Sartre e Simone fizeram campanhas ferozes contra escritores honestos e muito mais lúcidos que eles, começando por Camus.

Às vezes minha implicância é gratuita. Ou, pelo menos, não consigo saber de onde vem. Não gosto de tênis, mal aguento quinze minutos de jogo, mesmo com os gemidos e as pernas da Ana Ivanovic. Mal vejo a cara do Federer, por exemplo, começo a torcer contra. As irmãs Williams também. Ao ver as moças penso que o tênis devia adotar as regras do boxe e do MMA: separar em categorias por peso.

Pior, só minha ojeriza pela Madonna. É maior inclusive que pela palavra ojeriza, ou pela vozinha da Xuxa. Talvez só perca pra minha ojeriza pela Ingried Guimarães. Se eu tivesse que ficar com a Madonna numa ilha deserta, como na refilmagem medíocre que o ex-maridinho dela fez de Por um destino insólito, filme muito divertido da Lina Wertmüller, a masturbação seria minha primeira opção.

Quanto aos papas, não me escapa um. Acho inclusive que é um dever implicar com eles.

Deu n”O Globo

“Cannes assiste a (sic) versão sombria de “MacBeth”.” Houve alguma alegrinha? O problema do jornalismo cultural brasileiro é que raramente é jornalismo ou cultural.

Dicionário do mau digitador

Espontoso. Ponto crítico alarmante.

Alarmente. Alarme falso.

Poerteiro. Um porteiro versejador ou que gosta de contos de terror do Edgar Allan.

Provacação. Deve ser vaca geneticamente alterada pra ficar mais atraente pra touros ou vegetarianos.

Autor

Ernani Ssó

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