Sempre que se conta um conto de fadas, a noite vem, não importa o lugar, não importa a hora, como disse Clarissa Pinkola Estés, a mulher que corre com os lobos. Isso é muito bonito e acertado, mas acho que a noite vem com qualquer história. Talvez menos estrelada, com uma Lua menos misteriosa, mas noite, enfim. Acrescentaria também que não importa o meio usado para contar a história.
Atrevo-me à primeira pessoa porque sou íntimo dessa noite: eu a vivi desde a história em frente à fogueira, ao livro lido na cama, ao desenho animado e ao videogame. Então, em vez de um artigo, proponho a história de um filho e de um pai que, não por acaso, é autor de livros infantis. Espero que através dela possamos ver as diferenças entre os meios de trazer a noite, a influência que tiveram sobre a escrita, e que isso signifique alguma coisa, não apenas um exercício de nostalgia e vaidade.
Comecemos com o frio, em Bom Jesus, RS, no campo. Nossa casa tinha uma grande cozinha de chão batido, onde passávamos parte da noite, no inverno, em frente a uma fogueira. Era a hora e a estação das histórias. De dia não sobrava tempo, trabalho no campo é dureza. Contavam-se histórias no verão, sim, mas eram mais raras — acho que as pessoas se reuniam menos. Depois, se necessita menos de histórias no verão — sabe-se, as histórias aquecem, protegem. Nada melhor que uma boa história para manter longe a noite, o vento, os lobos e os espíritos malignos.
Meu pai era o principal contador de história. Por mais escabrosa, engraçada ou incrível que fosse a história, a voz dele não se alterava, nem os gestos. A emoção ficava como que embutida, pedindo para ser adivinhada. Mas essa calma, essa quase opacidade, não chateava. Pelo contrário, parecia tornar real, cotidiano, o milagre mais absurdo. Esse modo neutro de narrar, incapaz de lances teatrais ou do uso de uma linguagem rebuscada, no fundo não tem nada de modesto: é uma tremenda aposta no poder da palavra, poder que muita gente hoje, sob a avalanche das imagens, parece ter esquecido. Mais tarde, quando comecei a escrever para crianças, eu ouvia em mim a voz do meu pai. Naturalmente me matava tentando capturar aquele tom, aquele jeito, aquela cadência. Desejava, acima de tudo, que meu texto não soasse literário, que trouxesse a naturalidade das histórias daquelas velhas noites, que trouxesse entre as linhas um resto do calor das fogueiras e da presença remota dos bichos que falavam, das princesas encantadas, dos fantasmas que assombravam os castelos.
É preciso lembrar que essa voz não era exatamente a mesma de sempre. Era a voz de contar histórias. As palavras eram simples, as de todo dia, mas a voz era mais clara, pausada e um tiquinho solene. Nos diálogos, se modificava, imitando de leve as personagens. O pai nunca interrompia a história para fazer comentários pessoais, como muitas vezes acontece quando lemos para uma criança. Sei que muitos autores não resistem e inserem comentários em suas narrações, quase sempre puxões morais de orelha, generalizações sobre o triste destino do bípede implume ou conclusões que deveriam ser feitas pelo leitor. Por mais inteligentes e engraçados que sejam, esses comentários me parecem excrescências. Sou fiel à lição do pai: nunca se meta entre a história e o ouvinte, ou leitor.
O pai aprendeu as histórias com meu avô. Suponho que as contasse como ouviu, porque, para essas coisas, tinha uma memória fantástica. Suas contribuições se resumiam a detalhes circunstanciais. Eram as únicas coisas que variavam, por sinal. Quando estava mais disposto, certas cenas se alongavam, como aquela em que o macaco põe a cela na onça para ir a cavalo numa festa. Lembro com prazer desses momentos. Mas me pergunto: por escrito uma cena espichada não tende a chatear? Sou adepto do texto veloz, da ausência de enrolação — como se vê, um fã de Stendhal. Mas há a necessidade de suspense, que exige certa lentidão, para que as coisas possam impressionar e encantar, como disse Mário Quintana.
Certas cenas e falas se repetiam, sem jamais mudar. Eram verdadeiros refrões. Eu as aguardava como quem aguarda a sobremesa, salivando de antecipação. Passei a usar esse truque da repetição na minha série de histórias de bruxas, muitas vezes com intenção humorística. Mas por escrito a coisa é complicada. É preciso adivinhar a cena certa, as palavras certas.
Os detalhes circunstanciais davam peso de realidade. Eles me remetiam a coisas que eu conhecia, me deixando à vontade, tornando-me cúmplice. Lembro, por exemplo, dos vidrinhos cheios de água que o macaco botou na cabeceira da cama para que a onça pensasse que eram remédios. O fato de o macaco ter casa, cama e vidrinhos em plena mata nunca me pareceu estranho. O importante era que eu via o macaco ali, gemendo. Assim, quando tratei de recontar essa história e muitas outras, resolvi seguir a mesma estratégia.
Um pouco mais tarde, comecei a ouvir histórias no rádio. Havia um programa infantil no domingo, pela manhã. Era uma hora sagrada. Nada tinha o direito ou poder de interferir, nada, nem terremotos ou a invasão dos marcianos. Foi aí que conheci a pior bruxa: sim, senhor, aquela que queria comer João e Maria. Até hoje não me recuperei. Eu tinha certeza de que essa história tinha sido criada para mim. Fui ler o texto, na versão dos Grimm, mais de vinte anos depois. Mas as imagens que carrego ainda são daqueles domingos e são, digamos, o modelo de onde copio as minhas bruxas atuais.
Então fui para a cidade. Na escola, uma professora lia Monteiro Lobato e a Bíblia, que eu acompanhava como qualquer bom folhetim. Essa professora devia ser um gênio didático: jamais ordenou um trabalho, jamais deu nota. A leitura valia por si mesma. Se a maioria dos meus colegas não se tornou leitor, não é por culpa dela, isso eu garanto. Não lembro se havia alguma discussão a seguir. É provável que sim.
O primeiro livro que encarei sozinho foi uma adaptação do Robinson Crusoé. O efeito? Preciso escrever uma aventura tão boa quanto essa. O segundo e o terceiro: O Caçador e O Último dos Moicanos, de James Fenimore Cooper. O efeito foi o mesmo. Nunca escrevi, claro. A leitura tem uma grande vantagem sobre a escrita: podemos ler qualquer livro, por mais genial que seja, mas só escrevemos os que podemos.
Passei correndo pelos quadrinhos, mas parei no cinema. As influências do cinema no modo de contar uma história são bem conhecidas — a redução de uma vida a uma ou duas cenas significativas, as mudanças sem aviso de uma cena para outra e a composição cada vez mais visual, mais coreografada, dessas mesmas cenas. Os diálogos se tornaram abundantes e mais naturais. Até aí, tudo bem. Mas e os desenhos animados? Principalmente os feitos para a tevê. Não é necessário ter assistido a centenas de horas de desenhos para se dar conta de que há cenas que jamais seriam pensadas se não se tivesse em mente as possibilidades da animação. Um exemplo óbvio: a personagem cai no chão e se levanta achatada como uma tábua, dá dois passos e se sacode — plop, volta ao normal. Eu pelo menos acabei incorporando esse tipo de coisa, como se pode ver nestas linhas de A Caçada da Bruxa, história inédita da série No Escuro:
“A bruxa deu um guincho de gavião e abriu a boca do saco, chamando o abismo de sombra. O abismo fechou-se sobre si mesmo e escorreu para dentro do saco, para onde a bruxa pulou também. Depois ela mostrou o punho fechado numa última ameaça.
“Os cavalos passaram a toda por cima do saco”.
Fala-se muito mal da tevê, com toda razão, me parece, porque uns 98% do que passa é lixo puro e simples. Mas acontece a mesma coisa com tudo, cinema, literatura, artes plásticas, jornalismo. Como lidar com isso? Eu tentei driblar o problema, quando tive um filho: me sentei com ele e assisti tevê, trocando figurinhas sobre a programação. Agi como crítico, sim, mas sem exagero: na boa, como diria a garotada. Agora, o mais importante foi descobrir do que meu filho gostava mais e ver por que, ou pelo menos ter uma noção. Acabei fã dos Cavaleiros do Zodíaco, do Mundo de Bob, de Hei, Harnold, da Pantera Cor-de-rosa e tantos outros desenhos ou filmes. Foi assim que descobri como continuava próximo da infância e como uma história, se realmente é boa, pode interessar a qualquer idade, coisa que todo mundo sabe, inclusive os críticos literários.
Toda noite, na hora de dormir, eu lia ou contava histórias para meu filho. Quando lia, muitas vezes tinha de meter a colher: usar palavras mais simples, pular descrições inúteis, desenrolar frases muito longas com mais vírgulas que os arquivos de um cartório. Isso me preparou para a leitura dos meus próprios textos, sem falar na escrita.
Depois de várias dezenas de histórias, começaram os pedidos de repetição. Dizem que as crianças têm a tendência de gostar mais das histórias que o narrador gosta, já que ele as conta com mais alegria. Pensando assim, podia se esperar que meu filho preferisse Ernani Ssó em vez dos Irmãos Grimm. Não foi o que aconteceu, talvez porque eu goste muito dos Grimm. Agora, tive a sorte de que uma das histórias preferidas tenha sido escrita por mim.
Ler para ele o que escrevi foi uma grande experiência. Ao ouvir meu texto, fui descobrindo o que soava falso, o que funcionava, as palavras justas. Não é necessário dizer que ler para si mesmo, em voz alta, não é a mesma coisa que ler para uma criança. É fácil não ver os erros, ou nos acostumar com eles. Mas a criança reage sempre, às vezes audivelmente. Tive assim uma noção do que se passava com os velhos contadores de histórias que foram modificando tantos contos ao sabor do interesse da assistência. Seria bom que os autores de livros paradidáticos passassem por isso. Eu pelo menos não consigo entender a necessidade de se escrever uma história para se ensinar a uma criança a importância de se escovar os dentes, por exemplo, quando há um mundo de terrores e maravilhas que você pode revelar. Prefiro não me meter no trabalho do dentista.
Nunca levei meu filho ao teatro. Isso coube à mãe e à escola. Mas os quadrinhos acompanhei de perto, da Turma da Mônica aos mangás. Eu tinha um certo desprezo pelo Maurício de Souza por causa da quantidade de produtos que suas personagens vendem. Acabei relevando isso. Meu filho adorava seus gibis. Não sei se ficou alguma coisa, além da diversão, mas acho que o fato de uma criança esperar, toda semana, a revistinha nova e a ler por conta própria é justificativa suficiente.
Os mangás merecem um estudo à parte. Ou melhor, toda a cultura japonesa. O que os cowboys foram para nós, de gerações mais antiguinhas, os samurais e ninjas foram, ou são, para a garotada de hoje. Há dezenas de desenhos, gibis e filmes. Em geral, as produções são pobres e desleixadas. Mas compensa o que têm de vital e criativo. Os japoneses trouxeram de volta para a área infantil os mitos e as velhas e boas estratégias narrativas dos contos de fadas, tudo adaptado ao mundo de hoje, com grandes cidades e naves espaciais. O efeito foi tão avassalador que até os americanos começaram a imitar.
Chego agora ao último e controvertido ponto, os videogames. Não condenei, nem proibi. Joguei, para ver como é que era. Descobri o óbvio ululante: são muito divertidos, como todos os jogos, da bola de gude ao pôquer. Viciante? Também, claro. Mesmo os jogos mais simples contam uma história. São histórias pobres, simples de doer, mas bem ou mal permitem que o jogador encarne no herói ou no monstro e viva alguma fantasia necessária, exorcize algum demônio. Os melhores são os ditos jogos de estratégia, em que o jogador cria uma personagem que tem determinada missão a cumprir. Esse tipo foi levado ao extremo, como no famoso Ragnarök, baseado nos quadrinhos do coreano Lee Myungjin: jogado on line por milhares de pessoas ao mesmo tempo, exige a formação de clãs para garantir a sobrevivência das personagens.
Esses jogos de estratégia derivaram dos Role Playing Games. Meu filho jogava com os amigos. Obedecendo a uma série de regras, criava personagens e enredos básicos que iam sendo desenvolvidos à medida que se jogava. Assistir a uma sessão de RPG era muito estranho: quatro ou cinco crianças, com fichas e dados, sonhando acordadas. A RPG obriga o mestre, o jogador que dirige a aventura, a escrever muito e a ler manuais de trezentas páginas, com catálogos de personagens das mais variadas mitologias. Como era de se esperar, já inspirou muitos escritores.
As histórias em frente à fogueira ou num livro são as melhores? Têm mais clima, são mais profundas? Parece que sim. Mas não dá para negar o resto. Nossa necessidade de histórias é tanta que as histórias se metem em qualquer brecha. São basicamente as mesmas, sempre, mas cada meio de contá-las tem seus encantos, suas manhas, suas novidades. Quanto mais histórias, melhor. Quanto mais meios para contá-las, também.
Outra coisa: devemos estar com nossos filhos, na hora das histórias. Isso cria entre nós uma aliança inquebrantável.

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