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Bate-papo de Borges: “Sobre meus contos”

Encontrei este texto no site Ciudad Seva – Hogar electrónico del escritor Luis López Nieves, na seção “Sobre a arte de narrar”, em “Opiniones  …

Encontrei este texto no site Ciudad Seva – Hogar electrónico del escritor Luis López Nieves, na seção “Sobre a arte de narrar”, em “Opiniones  y consejos de los maestros”. Não há informação sobre onde foi a conferência de Jorge Luis Borges, nem quando. Dei uma leve ajeitada na pontuação, porque a transcrição da conversa não sabia bem o que fazer com as frases lá pelas tantas. Mas mantive as repetições típicas da fala. Em tempo: deixei a segunda parte, sobre o conto “Libro de arena”, pra outro dia em que me ter na veneta.

Acabam de me informar que vou falar sobre meus contos. Talvez vocês os conheçam melhor que eu, já que eu os escrevi uma vez e tratei de esquecê-los – para não me desanimar, passei a outros. Em troca, talvez um de vocês tenha lido algum conto meu, digamos, umas duas vezes, coisa que não me aconteceu. Mas penso que podemos falar sobre meus contos, se acham que eles merecem atenção.

Vou tratar de lembrar algum e em seguida gostaria de conversar com vocês que, possivelmente, ou sem possivelmente, sem advérbio, podem me ensinar muitas coisas, já que eu não acredito, contrariamente à teoria de Edgar Allan Poe, que a arte, a operação de escrever, seja uma operação intelectual. Eu acho que é melhor que o escritor intervenha o menos possível em sua obra. Isto pode parecer assombroso, mas não é – enfim, curiosamente, se trata da doutrina clássica.

Vemos isso na primeira linha da Ilíada de Homero, que lemos – eu não sei grego – na versão tão criticada de Hermosilla: “Canta, Musa, a cólera de Aquiles”. Quer dizer, Homero, ou os gregos que chamamos Homero, sabia, sabiam, que o poeta não é o cantor, que o poeta (o prosador, dá na mesma) é simplesmente o amanuense de algo que ignora e que em sua mitologia se chamava a Musa. Em troca, os hebreus preferiram falar do espírito, e nossa psicologia contemporânea, que não padece de beleza excessiva, da subconsciência, do inconsciente coletivo, ou algo assim. Mas, enfim, o importante é o fato de que o escritor é um amanuense: ele recebe algo e trata de comunicá-lo. O que recebe não são exatamente certas palavras numa certa ordem, como queriam os hebreus, que pensavam que cada sílaba do texto havia sido prefixada. Não, nós acreditamos em algo muito mais vago que isso, mas de qualquer forma em receber algo.

O zahir

Então vou tratar de lembrar um conto meu. Estava em dúvida enquanto me traziam e me lembrei de um conto que não sei se vocês leram. Se chama “O zahir”. Vou lembrar como eu cheguei à concepção desse conto.

Uso a palavra “conto” entre aspas, pois não sei se é ou não é. Mas, enfim, a questão dos gêneros é o de menos. Croce achava que não há gêneros. Eu acho que sim, que existem no sentido de que há uma expectativa no leitor. Se uma pessoa lê um conto, ela o lê de um modo diferente de seu modo de ler quando procura um artigo numa enciclopédia ou quando lê um romance, ou quando lê um poema. Os textos podem não ser diferentes mas mudam conforme o leitor, conforme a expectativa. Quem lê um conto sabe ou espera ler algo que o distraia de sua vida cotidiana, que o faça entrar num mundo não direi fantástico – a palavra é muito ambiciosa –, mas sim ligeiramente diferente do mundo das experiências comuns.

Agora chego a “O zahir” e, já que estamos entre amigos, vou lhes contar como me ocorreu esse conto. Não lembro a data em que o escrevi, sei que eu era diretor da Biblioteca Nacional, que está situada no Sul de Buenos Aires, perto da igreja de La Concepción. Conheço bem esse bairro.

Meu ponto de partida foi uma palavra, uma palavra que usamos quase todos os dias sem nos dar conta do que há de misterioso nela (fora que todas as palavras são misteriosas): na palavra inesquecível, unforgettable em inglês. Me detive, não sei por que, já que havia ouvido essa palavra milhares de vezes – quase não passa um dia em que não a ouça –, e pensei como seria estranho se houvesse algo que realmente não pudéssemos esquecer. Que estranho seria se houvesse, no que chamamos realidade, uma coisa, um objeto – por que não? –, que fosse realmente inesquecível.

Esse foi meu ponto de partida, bastante abstrato e pobre: pensar no possível sentido dessa palavra ouvida, lida, literalmente inesquecível, inolvidável, unforgettable, unvergasselich, inouviable. É uma reflexão bastante pobre, como vocês viram. Em seguida pensei que se há uma coisa inesquecível, essa coisa deve ser comum, já que se tivéssemos uma quimera, por exemplo, um monstro com três cabeças (uma cabeça de cabra, acho, outra de serpente e outra acho que de cachorro, não tenho certeza), certamente o lembraríamos. De modo que não haveria nenhuma graça num conto com um minotauro, com uma quimera, com um unicórnio inesquecível. Não, teria que ser uma coisa comum.

Ao pensar nessa coisa comum pensei, acho que imediatamente, numa moeda, já que se cunham milhares e milhares e milhares de moedas todas exatamente iguais. Todas com a efígie da liberdade, ou com um escudo ou com certas palavras convencionais. Como seria estranho se houvesse uma moeda, uma moeda perdida entre esses milhões de moedas, que fosse inesquecível. E pensei numa moeda que agora desapareceu, uma moeda de vinte centavos, uma moeda igual às outras, igual à moeda de cinco ou à de dez, um pouco maior. Que estranho se entre milhões, literalmente, de moedas cunhadas pelo Estado, por uma das centenas de Estados, houvesse uma que fosse inesquecível. Daí surgiu a ideia: uma inesquecível moeda de vinte centavos. Não sei se existem ainda, se os numismáticos as colecionam, se têm algum valor, mas, enfim, não pensei nisso naquele tempo. Pensei numa moeda que para os fins de meu conto tinha que ser inesquecível, quer dizer, se uma pessoa a visse não poderia pensar em outra coisa.

Logo topei com a segunda ou terceira dificuldade – perdi a conta. Por que essa moeda ia ser inesquecível? O leitor não aceita a ideia – eu teria que preparar a inesquecibilidade de minha moeda, e para isso convinha supor um estado emocional em quem a vê, havia que insinuar a loucura, já que o assunto do meu conto é um assunto que se parece com a loucura ou a obsessão. Então pensei, como pensou Edgar Allan Poe quando escreveu seu justamente famoso poema “O corvo”, na morta bonita. Poe se perguntou a quem podia impressionar a morte dessa mulher e deduziu que tinha que impressionar alguém que estivesse apaixonado por ela. Daí cheguei à ideia de uma mulher, por quem eu estou apaixonado, que morre, e eu estou desesperado.

Uma mulher pouco memorável

Nesse ponto teria sido fácil, talvez fácil demais, que essa mulher fosse como a perdida Leonor de Poe. Mas não decidi mostrar essa mulher de um modo satírico, mostrar o amor de quem não esquecerá a moeda de vinte centavos como uma coisa um tanto ridícula – todos os amores o são para quem os vê de fora.

Então, em vez de falar da beleza do love splendor, eu a transformei numa mulher bastante trivial, um pouco ridícula, empobrecida, também não muito bonita. Imaginei essa situação que acontece muitas vezes: um homem apaixonado por uma mulher e que sabe, por um lado, que não pode viver sem ela e ao mesmo tempo sabe que essa mulher não é especialmente interessante, digamos, para sua mãe, para suas primas, para a empregada, para a costureira, para as amigas. No entanto, para ele, essa pessoa é única.

Isso me leva a outra ideia, a ideia de que talvez toda pessoa seja única, e que nós não vejamos o que é único dessa pessoa que fala em favor dela. Uma vez pensei que isto acontece com tudo, se não, prestemos atenção que na Natureza, ou em Deus (Deus serve Natura, dizia Spinoza), o importante é a quantidade e não a qualidade. Por que não supor então que há algo, não só em cada ser humano como em cada folha, em cada formiga, único, que por isso Deus ou a Natureza cria milhões de formigas, embora dizer milhões de formigas seja falso, não há milhões de formigas, há milhões de seres muito diferentes, mas a diferença é tão sutil que nós os vemos como iguais.

Então, o que é estar apaixonado? Estar apaixonado é perceber o que há de único em cada pessoa, esse único que não pode se comunicar exceto por meio de hipérboles ou de metáforas. Então por que não supor que essa mulher, um pouco ridícula para todos, pouco ridícula para quem está apaixonado  por ela, morre. E daí temos o velório. Eu escolhi o lugar do velório, escolhi a esquina, pensei na Igreja de La Concepción, uma igreja não muito famosa nem muito patética, e logo o homem que depois do velório vai tomar um licor num boteco. Paga e recebe de troco uma moeda em que nota em seguida que há algo – fiz com que fosse riscada para distingui-la das outras. Ele vê a moeda, está muito emocionado pela morte da mulher, mas ao ver a moeda já começa a esquecer a mulher, começa a pensar na moeda.

Já temos o objeto mágico para o conto.

Logo vêm os subterfúgios do narrador para se livrar dessa que ele sabe que é uma obsessão. Há diversos subterfúgios: um deles é perder a moeda. Então ele a leva a outro boteco que fica um pouco mais longe, entrega-a no troco, trata de não dar atenção em que esquina está o boteco, mas isso não serve para nada porque ele continua pensando na moeda.

Logo chega a extremos um pouco absurdos. Por exemplo, compra uma libra esterlina com São Jorge e o dragão, examina-a com uma lupa, trata de pensar nela e esquecer a moeda de vinte centavos já perdida para sempre, mas não consegue fazê-lo. Pelo final do conto o homem vai enlouquecendo, mas pensa que essa mesma obsessão pode salvá-lo. Quer dizer, haverá um momento em que o universo terá desaparecido, o universo será essa moeda de vinte centavos. Então ele – aqui produzi um pequeno efeito literário – sim, ele, Borges, estará louco, não saberá que é Borges. Já não será outra coisa que o espectador dessa inesquecível moeda perdida. E concluí com esta frase devidamente literária, quer dizer, falsa: “Talvez por trás da moeda esteja Deus”. Enfim, se a gente vê uma só coisa, essa coisa única é absoluta. Há outros episódios que esqueci; talvez um de vocês se lembre. No final, ele não pode dormir, sonha com a moeda, não pode ler, a moeda se interpõe entre o texto, e ele quase não pode falar a não ser de um modo mecânico, porque realmente está pensando na moeda. O conto termina assim.

Autor

Ernani Ssó

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