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As lendas urbanas da morte

CORVO DO POE – Então você está publicando mais um livro sobre a Morte, agora pela editora Alfaguara? ERNANI SSÓ – Mais um? Dito …

CORVO DO POE – Então você está publicando mais um livro sobre a Morte, agora pela editora Alfaguara?

ERNANI SSÓ – Mais um? Dito assim parece que tenho uns dez. Mas As lendas urbanas da Morte é o segundo.

LENDAS DA MORTECP – Cá pra nós, o assunto não ajuda, mas Contos de morte morrida (Companhia das Letrinhas, 2007. Puxa, como tempo passa) é teu livro mais vendido. Qual é a mágica?

ES – Ora, mágica. O assunto nunca é problema pra literatura. O problema eterno é o tratamento. Até os caras da Academia Brasileira de Letras sabem disso.

CP – Touché.

ES – Na verdade, o assunto ajudou. Todos temos curiosidade sobre a morte e há poucos livros, principalmente pra crianças.

CP – Você não falou do tratamento.

ES – As histórias do Contos de morte morrida são velhos contos de fadas. Você sabe, os contos de fadas descobriram um jeito indireto de falar, com leveza e humor, das coisas mais horrorosas.

CP– Há diferença entre Os contos de morte morrida e As lendas urbanas da Morte?

ES – Os contos são histórias do folclore. Menos um, que é todo meu, mas escrito como se não fosse, com todos os macetes do gênero. Não, não digo qual, na esperança de que entre pro folclore sem que o porteiro se dê conta. Bom, as histórias d”As lendas são todas minhas.

CP – São tuas por quê? Não há nenhuma lenda urbana?

ES – Achei apenas uma. É cubana. O que tem de interessante é que a Morte esconde a mão amarela no bolso e a trança embaixo do chapéu pra não ser identificada. E parece um oficial da polícia, ou coletor de impostos, preocupado em não perder o trem de volta. O resto é uma balela sobre a importância do trabalho.

CP – Taí, gostei do jeitão contemporâneo dessa Morte. Mas você continuou com aquele esqueleto com capa preta e gadanha. Por quê?

ES – Gosto desse modelito medieval, e as crianças também. O importante numa imagem dessas, com mão amarela ou gadanha, é que torna a Morte apenas mais um personagem no grande elenco da literatura infantil, entre ogros, bruxas e princesas. Se apresentarmos a Morte como ela é, quer dizer, sem cara, sem endereço, nem mesmo sombra, fica apavorante, e eu não quero apavorar criança nenhuma. Acho que as histórias têm de instalar um universo paralelo, como o brinquedo, onde você pode experimentar teus medos e desejos, onde você pode fazer de conta que vive o futuro ou o horror. Negar às crianças histórias que proporcionem isso devia ser um crime previsto por lei, devia estar no estatuto da criança e do adolescente.

CP – Então, sem encontrar nada, você inventou tudo.

ES – Nunca invento, eu acho. Procurei por aí, embaixo das camas, atrás das portas. Espiei pelos buracos das fechaduras, ouvi através das paredes. Enfim, o trabalho normal de qualquer escritor ou detetive.

CP – Se a gente pensa num cenário medieval, fica fácil ver a Morte em ação. Mas hoje, numa grande cidade… Ainda acho que preferia a Morte da mão amarela.

ES – Realmente é mais fácil ver a Morte a cavalo que pegando um táxi. Acabei usando esse anacronismo como parte da brincadeira. Há até uma história em que a Morte joga futebol.

CP – Epa! Como é isso?

ES – Uns meninos jogam bola, um se machuca, a Morte preenche a vaga. É só uma diversão pra, digamos, marcar o caráter da Morte.

CP – Bom, além do cenário novo, o que mudou nesses contos?

ES – Pra começo de conversa, os enredos não têm as estruturas dos contos de fadas, ninguém mais faz um trato com a Morte e tal. Agora é toma lá, dá cá, em flagrantes do cotidiano. Mantêm-se apenas a leveza e o humor. Também brinco, de vários ângulos, com a fatalidade. Será que há mesmo a hora certa pra cada pessoa ou um acaso pode alterar tudo? Como fica o trabalho da vidente? A Morte faz diferença entre nós e uma mosca, por exemplo? Coisas assim. Tem mais, claro, mas vamos deixar pros leitores espertos.

CP – São treze histórias. Isso foi premeditado?

ES – Não, mas ficou bonitinho, né? Também acho legal que a orelha do livro tenha sido escrita pela Morte e que as caricaturas do ilustrador, o grande Rodrigo Rosa, e a minha, sejam nossas caveiras. Sim, caveiras barbudas e de óculos, pra distinguir, já que depois de mortos ficamos todos muito parecidos.

CP – Você vai acabar um especialista na Morte.

ES – Não, porque as histórias não são sobre a Morte, são sobre pessoas diante dela, reagindo e pensando cada uma à sua maneira. Há uma diferença aí, não? Eu não sei absolutamente nada sobre a Morte – aliás, meu caro Corvo, como você ou o resto da humanidade. Mas, enfim, isso me lembra uma historinha.

CP – Você me falou, o curta-metragem do Javier Recio Garcia.

ES – Sim, La dama y la muerte. Bom, numa escola, uma professora descobriu na internet o desenho e acessou pros alunos. Eles ficaram muito contentes não só porque gostaram da história, mas porque era sensacional que eu tivesse ganhado o prêmio Goya de 2009 e tivesse sido indicado ao Oscar. A professora disse que o filme não era meu. Foi um escândalo. Como não é dele? Se o negócio é a Morte, só pode ser dele. A Morte é o latifúndio do Ernani Ssó.

CP – Você teve de dizer que a Morte é de quem pegar?

ES – Tive. Acho que a admiração deles baixou uns graus.

CP – De onde saiu a ideia pro livro?

ES – Foi assim: numa tarde estival, com céu de anil e uma brisa amena balançando os ramos do manacá, topei com o título: As lendas urbanas da Morte. O resto foi a maior moleza – estava tudo embutido aí.

Autor

Ernani Ssó

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