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Kafka e as cracas

Li em algum jornal que A metamorfose, do Kafka, faz cem anos. Não presto atenção a coisas assim, mas pensei: já? Parece que foi …

Li em algum jornal que A metamorfose, do Kafka, faz cem anos. Não presto atenção a coisas assim, mas pensei: já? Parece que foi ontem, não parece? Se você ler Kafka por conta própria, parece.

Numa coluna recente, ao falar do Joyce, Luis Fernando Verissimo disse: “Certas obras literárias são como velhos navios: críticas, análises, exegeses etc. grudam no seu casco como craca; o navio e a craca passam a ser uma coisa só. Com o tempo, a craca quase dispensa o navio”.

É o que acontece com Kafka, talvez mais até do que com Joyce. Com Joyce a maioria usa babeiro por causa da linguagem, e muito dos seus enigmas são jogos de erudição, coisa que deixa frio um bruto como eu. Kafka nos dá um universo de sombra – não dá pra ver direito, muito menos pegar. Daí, como qualquer criança medrosa, enxergamos bruxas, ogros, fantasmas, monstros. Acho isso interessante: uma espécie de espelho que mostra mais justamente por ser embaçado. Imagina as caraminholas que isso poria na cabeça do pessoal do romance naturalista ou no do realismo socialista.

Quando era adolescente, li muita coisa sobre Kafka, mas logo perdi a paciência – raramente os críticos concordavam e, quando concordavam, estavam copiando uns aos outros. Mas o pior era que na maioria das vezes eu não conseguia ver no Kafka o que eles diziam. Sim, claro, nossos olhos se enganam de modos diferentes. Lembro, por exemplo, de um artigo sobre A metamorfose: tudo não passava de opressão capitalista. Se não me engano, o título era algo como “A honra de ser inseto”. Pra falar a verdade, até hoje, com olhos mais escolados, não consigo ver a dita honra.

Não gosto de falar do Kafka, a não ser em botecos, com amigos. Por que acrescentar mais uma ou duas cracas no casco desse velho navio? Nessas alturas da navegação, não há mais navio, apenas cracas e mais cracas. Então pra que grudar outra craca nas cracas?

Eu jamais teria coragem de escrever um ensaio sobre Kafka, no caso, remoto, de que fosse capaz de escrevê-lo. Mas gosto de dar palpite. Ou de fazer perguntas incômodas.

Não sei, depois de ler meia dúzia de exegetas, penso que com Kafka faz mal pensar demais. Ele é do tipo de escritor que parece botar o crítico contra a parede: me decifre ou te devoro. Daí o cara quer nos provar que Kafka não o enganou – e quanto mais engenhosas forem suas explicações, melhor ele sai na foto. Também tem os que repetem o que já foi dito sem perder a pose de sabichão, como Harold Bloom. Me perdoem os admiradores do Bloom, mas não consigo levar ele a sério. Alguém que considera Meridiano de sangue, do Cormac McCarthy, uma obra-prima que só pode ser comparada a Melville e Faulkner merece meu mais profundo desprezo. Ou piedade.

Talvez por eu não pensar direito, ou pensar com muita dificuldade, acho que a melhor estratégia pra se ler Kafka é como uma criança que ouve um conto de fadas ou o botocudo que, diante da fogueira, ouve os mitos da tribo. Primeiro a emoção, o encanto – raciocine só na semana que vem, porque o inconsciente precisa de tempo pra trabalhar. Há coisas, como os sonhos, que se estragam com as palavras e as opiniões. Numa civilização tão tagarela como a nossa, devíamos fazer um esforço a favor do silêncio.

Por falar em contos de fadas, me pergunto se Kafka os leu, se gostava deles. Veja, num conto de fadas o autor não diz a princesa estava triste, mas a princesa chorou. Não diz o príncipe se sentia um canalha, um verdadeiro animal, mas o príncipe foi enfeitiçado e se transformou numa fera. O conto de fadas pensa por imagens, como se sabe. Pensa? Digamos. Uma boa imagem é sempre misteriosa, sem falar na variação de ângulos com que pode ser olhada e na variação de olhos e de tempos que pode alterar a percepção. Percebe o motivo da minha curiosidade?

Kafka não diz nada semelhante a Gregor Sansa se sentia uma barata leprosa com caspa na sobrancelha no seio de sua linda família, como o próprio Kafka se sentia na dele. Não, ele o transforma em inseto depois de uma noite de sonhos agitados. O desenvolvimento da história vai situando papai, mamãe, irmãzinha, a empregada – além disso, nos revela as relações entre essas pessoas e seus anseios. Se você não dormir na guarda, pode intuir a sociedade em que vivem. Talvez isso tudo justifique pra você a transformação do Gregor, ou pelo menos a situe, já que o segredo de Gregor pode ser mais esquivo e profundo. Ou não, talvez você ache tudo muito normal e fique mais intrigado ainda ao ver um inseto monstruoso quebrando a felicidade e a harmonia. Talvez até ache esse inseto ofensivo, pois considera o mundo bem razoável e se sinta nele com a pachorra de um boi ruminando.

Muitos sonhos lindos, depois de explicados pelo psicanalista, parecem bobos. Daí meu esforço, com os sonhos e os livros, pra não deixar as explicações estragarem o que senti de deslumbrante neles. As longas tranças de Rapunzel jogadas do alto da torre podem ser apenas a metáfora exagerada e irônica da tesão do casalzinho, mas como negar a beleza inefável – puxa, pensei que jamais ia conseguir escrever essa palavra – dessa imagem? Essa imagem está gravada em nós como tatuagem nenhuma conseguiria. Essa imagem faz parte de nossa biografia. O poder poético do camarada que a inventou é uma coisa assombrosa, pois nem a mais reles tradução tem como estragá-la – ela existe além das palavras. Coisa que podemos muito bem dizer sobre a transformação do Gregor Sansa, com a diferença, claro, de que a transformação é de beleza tenebrosa.

Perder de vista o impacto esmagador da imagem que Kafka nos deu é ignorar a novela toda. A novela é, antes de qualquer coisa, essa imagem que assombra até gente que nem leu Kafka. É a ilustração alucinante de uma emoção inconfessável – emoção que pode se tornar banal se posta em palavras, como disse antes.

A primeira linha da novela está no topo dos melhores começos da literatura ocidental. Essa linha tratoriza o leitor – e o resto é o trator indo e vindo sobre ele. O leitor sai do texto todo moído, meio como se ele também tivesse se transformado num inseto – e, em sua nova vida de inseto, anda completamente desorientado. A metamorfose não diz, é. Estamos falando de um objeto, uma pedra, um pedaço de pau, não de literatura.

Vai me dizer que você nunca amanheceu transformado num inseto miserável por muitos motivos, óbvios ou obscuros, vergonhosos ou não, ou se sentiu esse inseto miserável em várias situações no dia a dia? Eu acho mais preciosa essa emoção causada pelo texto que qualquer elucubração intelectual. Ou não levo em conta elucubração nenhuma que não leve em conta, antes, essa emoção, ou a considere um efeito colateral incômodo ou perigoso, tipo você toma um sedativo pra alguma dor e tem tontura, náusea e insônia. A surra e desconcerto aplicados por Kafka no leitor é a primeira e essencial mensagem da novela. O resto é lambujem.

Se uma fábula pode ser reduzida à sua moral, ela não presta pra nada. Uma fábula, se for realmente boa, fará o leitor viver – devia grifar a palavra – o terror e a maravilha que narra. Literatura é experiência, não discurso, mensagem, frase pra sublinhar. Se você reage apenas intelectualmente a um livro, das duas uma: ou há algo errado com você ou com o livro.

Qualquer leitura que ignora o embate, quase disse físico, entre o leitor e um livro – a surpresa, o medo, a raiva, o sufoco, a esperança, a alegria, o riso – não me interessa. Deve ser por isso que a crítica acadêmica em geral me pareça uma espécie de autópsia, no melhor dos casos, ou um trabalho de taxidermista, nos piores. Daí eu preferir gente como Edmund Wilson falando de livros, em vez dos Lukács da vida. É que então tenho um sujeito, muito vivo, falando de coisas vivas. Quando duas coisas vivas se encontram, sai faísca. Prefiro esse corpo a corpo, para o bem e para o mal, que uma leitura com corrimão, ou lá do alto do púlpito.

Reli A metamorfose muitas vezes e meu assombro permanece intacto. A cada releitura, penso a mesma coisa: como gostaria de escrever um livro avassalador assim. Eu daria qualquer coisa – menos ter de ser Kafka. Se esse é o preço de uma obra-prima, estou fora, meu amigo. Me deixe quieto com meus sentimentos em miniatura.

Autor

Ernani Ssó

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