Ao ver este título do Anthony Burgess, Nada como o sol, não sosseguei mais. Se soubesse sobre o que era o romance, talvez não tivesse sonhado tanto. Intuí de um modo muito confuso algo sobre a felicidade, ou melhor, sobre sua busca, algo dionisíaco mas sutil, talvez a jornada de um inglês triste de neblina e gripes incuráveis até o sol que, como ninguém mais, queima os mofos e os fantasmas.
Levei anos procurando o livro em todos os sebos de Porto Alegre. Ano passado, como ia a Belo Horizonte, fui pra internet pesquisar. Não é que uma livraria que ficava a três quadras do hotel tinha um exemplar?
Claro que meu sonho durou pouco, talvez uma meia hora – hoje parece coisa de meses pela intensidade anormal. Enfim, uma mera espiada na internet me disse que o romance tratava da vida amorosa do Shakespeare, que o título era pedaço de verso do famoso soneto em que o poeta diz que sua amada não é branca como a neve e que seus olhos não são nada como o sol. Meu sonho se desfez, mas nasceu outro, porque gosto do Shakespeare. Sócrates disse que o poeta que é capaz de escrever uma tragédia é capaz de escrever uma comédia. Concordo plenamente, porém, contudo, todavia, onde andam esses poetas? Talvez apenas Shakespeare tenha realmente conseguido escrever tragédias e comédias com o mesmo talento, ou mais, foi capaz de misturar tragédia e comédia. Nem sempre acertou tudo, mas e daí? Nos momentos em que acertou é imbatível.
Infelizmente achei o livro bem chatinho. O texto do Burgess, cheio de referências eruditas e artimanhas de linguagem, pena na mão do tradutor. O que não deve ser fácil no original, simplesmente se torna obscuro em português. Mas li com interesse, mesmo que muitas vezes com impaciência. Burgess é audaz, abusado, lírico, irônico. É preciso alguém assim pra pegar Shakespeare, autor que vai da doçura à grosseria, do riso à sangueira, que comove os nobres emperiquitados e os bêbados das tavernas mais baixas. É preciso ainda alguém lúcido e com apego à verdade, porque mais um santo no altar não faz falta a ninguém.
Claro que a vida do Shakespeare não foi nada como o sol. Como ser, num tempo em que dominavam a pobreza, a sujeira, a ignorância e nem se sonhava com anticoncepcional ou penicilina? Seria necessária uma sorte monstruosa. Shakespeare foi tapeado por uma mulher casual e fogosa, escreveu poemas pra incentivar um nobre a se casar enquanto ia pra cama com ele. Escreveu sempre às pressas, muito de encomenda. Foi corneado pelo próprio irmão, perdeu o único filho homem ainda pequeno. Teve a amante roubada pelo antigo nobre amante, que lá pelas tantas se interessava por mulheres quando se cansava de meninos. Pegou gonorreia dela, que havia pegado do nobre. Calvície, dentes estragados, gordura, a cabeça falhando por causa da doença. Voltou rico pra casa, onde acabou de apodrecer. Pelo menos, parece ter tido noção do alcance da própria escrita.
O mais estranho é que, de certa forma, Nada como o sol é o livro que intuí, o daquela jornada de um inglês friorento em busca da felicidade. O mais perto que ele chegou do sol foi a amante negra que o contaminou. Foi um desbunde, enquanto durou. Em geral é assim.
Shakespeare e Cervantes
Talvez se possa dizer que Shakespeare deixou a comédia entrar na tragédia, enquanto Cervantes deixou a tragédia entrar na comédia. Questão de dose de um lado e outro.
Crédito
Dia desses falei de um espaço pro “egossauro ronronar e abanar o rabinho”. Acho essa tirada ótima, mas não lembrava quem era o autor. Sérgio Fantini me lembrou: o escritor Luiz Roberto Guedes. Imperdoável, gosto muito dele.
O fim está próximo
Deu no jornal: “Velozes e furiosos 7 arrecada US$ 1 bilhão em 17 dias e bate recorde”. Alguém ainda precisa de uma prova de que a humanidade não tem jeito?
“Não posso viver sem escrever”
Ebe Uhart, no Clarín: “Sim, os atores também têm isso, não posso viver sem atuar, minha vida são os palcos. A gente pode ser feliz criando coelhos. Não acredito nisso. Mas, mesmo que fosse verdade, é pouco elegante dizer”.
Deu na BBC
“Uma tendência a confiar mais nos instintos do que no pensamento racional pode explicar por que um número surpreendente de membros da associação britânica de superdotados Mensa acredita em atividades paranormais. Ou por que alguém com um QI de 140 tem duas vezes mais chances de estourar seu cartão de crédito.” Eu não disse? Os testes de QI não medem bom senso, mas deviam começar por ele.
QI
Medir apenas inteligência lógico-matemática e achar que foi feito o carreto é mais ou menos como tomar as medidas de um anão pra fazer a roupa de um gigante.

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