Sim, literalmente. Falo de enlatar mesmo, não do discurso bonitinho de artistas, críticos, marchands e curadores de museu que envolve qualquer pedaço de trapo ou urubu empalhado pra nos convencer de que se trata de uma crítica devastadora à sociedade de hoje. Falo de merda mesmo, aquele negócio que em geral se despacha trancado no banheiro. Vocês sabem que estou falando do artista – palavra só menos maltratada que a palavra gênio – Piero Manzoni, que tem uma mostra no MAM. Além de enlatar merda, Manzoni também é autor de telas em branco. Como se vê, não há nada mais instigante.
Deu na Folha de São Paulo: “Todos os artistas deveriam vender suas impressões digitais ou sua própria merda em latinhas”, disse Piero Manzoni numa carta de 1961. “Se o colecionador quer algo íntimo e pessoal, que seja mesmo do artista, ele pode comprar a sua merda.”
Como a matéria começa justamente com esse parágrafo, como não há uma linha de questionamento, imagino que o jornalista Silas Martí considera a tirada do cagão uma grande sacada. Mas será? Vejamos primeiro a forma: o cagão faz uma afirmativa e depois pensa que a justifica com outra afirmativa. Mas é óbvio que uma afirmativa não pode corroborar outra. Afirmativa nenhuma é argumento ou prova.
Mas vamos ver se o cagão tem razão. Por que todo artista deveria vender suas impressões digitais ou sua merda em latinhas? Que interesse suas impressões digitais têm fora dos documentos e de uma suposta cena de crime ou sua merda como adubo na horta? O que elas dizem a você? O que revelam do mundo? Ou, pelo menos, o que revelam do próprio artista que possa relevar algo de você mesmo?
As digitais poderiam ser uma metáfora: o pensamento, a percepção do artista como coisa única. Mas não é uma metáfora. O cagão não quer vender sua visão de mundo, quer vender a impressão digital de verdade. Ou sua merda em latinhas. Se se trata de uma metáfora, é a metáfora do seu fracasso acachapante, a mostra de que não tem nada a dizer ou a mostrar. Nesse caso, o silêncio seria mais digno, não?
Antes que me passem o papel higiênico, mais uma pergunta: por que em latinhas? Já que se trata de merda de verdade, por que não de forma mais direta e aromática? Por que o súbito pudor higiênico? Por que não despejar logo o penico na cabeça do público? O cara é um cagão no sentido figurado também.
Bom, talvez o cagão quisesse preservar sua obra. Enlatar é um modo de imortalizar, apesar da ameaça da ferrugem. Tudo bem. Homero empacotou Ulisses em palavras, Cervantes empacotou Quixote, Shakespeare empacotou MacBeth e vários outros assassinos e apaixonados. Brueghel, Da Vinci, Goya, Velásquez e tantos outros empacotaram suas visões em cores. Eles têm uma coisa em comum que a mim, um chato de galochas, parece importante: eles tentaram traçar o mapa do mundo e nos localizar nele. O cagão, sem ter o que dizer ou mostrar, ficou reduzido ao produto que lhe dá nome.
Sim, sim, meu bem, trata-se de uma provocação do bravo e descomposto Piero Manzoni. Mas provocação ao quê mesmo? Quando Marcel Duchamp expôs um penico como escultura, em 1917, estava gozando os museus, a solenidade com que artistas e público fazem e consomem arte e o que muita gente chama de arte, pondo em xeque as fronteiras da arte e do artesanato. Palmas pra ele. Enlatar merda, várias décadas depois, não é provocação nenhuma. É botar a fruteira da Carmen Miranda na cabeça e sair por aí.
Deu certo – deu o que falar e hoje está no MAM, pois não? Mais: o cagão realizou o sonho de toda essa gentalha que não tem o que dizer ou mostrar. Fazer cocô numa lata não exige esforço nenhum, apenas um lanche. Qualquer imbecil pode fazer cocô numa lata.
Era de se esperar que a merda enlatada encerrasse um ciclo. Depois da merda enlatada, resta o quê? O apocalipse, me parece. Mas não. A gentalha seguiu em frente, acumulando trapos, lixo, empalhando urubu, expondo carne podre. A gentalha se esforça, mas não adianta, a merda enlatada é o fim da linha. A merda enlatada é a obra-prima de toda uma tendência estética. No máximo pode variar na dieta. Sugiro um caso extremo: o artista deve arrancar o próprio fígado, comê-lo e depois defecá-lo na lata. Também pode meter o dedo na merda pra imprimir a digital no rótulo.
Note-se a ironia: o que era pra ser uma provocação foi encampado pelos críticos e curadores, foi levado a sério, merece exposição até hoje e discursos com o jargão impenetrável de sempre. Os museus expõem e os marchands vendem qualquer merda, até merda mesmo – eis o capítulo final da história da arte. Quer dizer, o que eu digo como sátira, eles fazem de verdade, com a consciência leve.
O pessoal da grana descobriu que investir em arte é mais seguro e menos oneroso (vide o fisco) que investir em imóveis, por exemplo. Os marchands se aproveitam disso pra inventar artistas fabulosos com obras que custam milhões. Duvido que o pessoal da grana acredite na papagaiada, mas é preciso dizer que sim, porque é preciso comprar a dita obra, deixar valorizar e vender de novo. Todos ficam satisfeitos.
O cagão diz ainda que se o colecionador quer algo íntimo do artista, algo realmente dele, pode comprar sua merda. Assim sendo, acho que o colecionador deve pedir um exame de DNA, porque em vez da merda do artista, pode estar comprando a merda de qualquer operário anônimo sem talento artístico nenhum. Seria chocante ser enganado assim.
Mas por que alguém pode desejar ter algo íntimo do artista? Eu sei, tem gente capaz de pagar fortunas por uma lata de brilhantina usada pelo Elvis Presley ou por um absorvente devidamente usado da Marilyn Monroe. Mas fora gente com evidente perturbação mental, quem teria interesse por coisas assim? Eu, por exemplo, mesmo sendo perturbado, fico satisfeito ao ouvir os discos da Elis Regina. Não quero um chinelo velho dela ou um fio de cabelo. Ela era cantora – desejo apenas o produto do seu talento. Todas as emoções dela – seus segredos, dores e prazeres – fizeram sua voz, deram a forma como as palavras são ditas, o tom do desespero ou da raiva ou da felicidade. O que pode haver de mais íntimo que isso?
Mas, pelo visto, tem quem goste de merda em lata. Só posso dizer uma coisa: bom proveito.

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