A internet, se me permitem ser antiguinho, tem mais braços que o gigante Briabréu. É difícil saber por qual agarrá-la ou por qual evitar ser agarrado. Para o bem e para o mal, a mão de cada um desses braços se ramifica em dedos inumeráveis. Pra completar, a fera tem astúcia: enquanto nos faz um carinho com umas três ou quatro mãos, com outras três ou quatro nos revista o bolso, espanca e desorienta. Três ou quatro? Talvez trezentas ou quatrocentas. A internet é sempre num plural inumerável.
Vamos começar pelas mãos que afagam. Você não sabe quem é o gigante Briabréu? Digite no Google e saberá, em alguns segundos. O mais incrível nisso, me parece, é que alguém se deu ao trabalho de postar a informação. Alguém? Dezenas de abnegados. Nesse caso, mitologia grega, ainda se pode dar um desconto, mas há outros assuntos mais improváveis. Quase dá pra dizer que se pode encontrar tudo na internet, desde fotos de mulher pelada até simulações dos Jardins Suspensos da Babilônia, de um dicionário com os erros de revisão da primeira edição do Quixote a um manual sobre rinha de galos, de dados sobre buracos negros ao uso correto da crase, de futricas entre beldades da tevê a ofertas de transformar as cinzas do seu ente querido numa joia ou peso para papéis. Enfim, sabendo procurar, você tem à disposição uma biblioteca de referência que necessitaria de prédios suficientes para construir várias cidades caso fosse física.
Sem que eu quisesse, entre as mãos benignas se insinuaram algumas não muito santas. É bem provável que a maior parte do que há na internet seja irrelevante ou tendenciosa, ou mesmo idiota. Como diz o humorista Guaraci Fraga, ou penso que diz, já que cito de cabeça, a forma mais fácil de acumular besteira e perder tempo é clicando em “saiba mais”. Chato tudo isso, mas não espantoso, dada a matéria com que somos feitos.
Sei, nunca foi fácil se defender da ignorância e da desinformação. Mas, se lidamos com um livro ou um jornal, temos um autor ou um órgão pra botar contra a parede. No anonimato da internet, estamos perdidos na biblioteca de Babel do Borges, onde pra uma linha razoável ou uma notícia correta há léguas de cacofonias insensatas, de despropósitos verbais e de incoerências.
Agora, vamos ao que me trouxe aqui: e os escritores nessa contradança? A internet é muito boa para os mortos. Ou para nós, que lemos os mortos. Peguemos o Cervantes de novo. O Quixote está na rede como você quiser, desde uma edição fac-similar da primeira edição até edições comentadas de todos os tipos, sem falar na quantidade de traduções. Mais: tem também todo tipo de ensaios, artigos, resenhas, teses, palestras. Mais ainda: tem inumeráveis ilustrações. Mas, cuidado, meu bem: o mesmo texto aparece com erros diferentes, que vão desde palavras trocadas até frases faltando ou acrescentadas.
É pouco? Textos inteiros não são de quem se diz ser. Mas, nesse caso, os escritores vivos também se ferram. As atribuições falsas na internet se parecem um pouco com a literatura psicografada. Ateus se tornam cristãos praticantes, humoristas ferozes se tornam manteigas derretidas, grandes estilistas passam a produzir um texto definido pelo Edmund Wilson como sopa de serragem, eruditos passam a dar conselhos encontrados no Almanaque Capivarol. Assim vai. Está pra surgir a atribuição falsa ou o livro psicografado que esteja no mesmo nível do suposto autor, nem digo mais inteligente e mais espirituoso.
Bem, continuemos na companhia dos vivos. A internet pode ser boa para eles. Para mim tem sido. Escritor pouco lido, militando mais em áreas consideradas de segunda classe — o humor e a literatura infantil —, tenho uma verdadeira enxurrada de publicidade gratuita na internet. O que fiz pra merecê-la? Nada. Editoras, livrarias, blogs e escolas, principalmente, tentam vender o meu peixe. Se eu tivesse jeito e menos preguiça, poderia me aproveitar disso.
Muitos escritores se aproveitaram. O melhor exemplo que me ocorre é Eduardo Spohr, o blogueiro do Jovens Nerds. Ele publicou seu romance, A batalha do apocalipse — Da queda dos anjos ao crepúsculo do mundo, pela Nerstore, loja virtual do podcast Nerdcast. Vendeu mais de quatro mil exemplares. Então o grupo Record o publicou pelo selo Verus. Vendeu milhares de exemplares. Não preciso dizer que esse mesmo livro, se tivesse sido submetido à Record pelos canais competentes, não teria sido publicado. Se o livro presta ou não, não vem ao caso: interessa que Spohr, com custos mínimos, furou o bloqueio e encontrou seu público. Claro que para cada Spohr há dezenas e dezenas de fracassos.
Agora, acho curioso esse caso. A edição eletrônica, apesar de barata, pelo visto tinha esgotado o número de seus possíveis leitores. Ou Spohr topou a edição em papel por ser mais prestigiosa? O fato é que no papel vendeu muito mais. Talvez com os tabletes a preços mais acessíveis o caso fosse outro.
Uma espiada nos blogs pode explicar o fracasso de tantos autores. A maioria é ilegível ou apenas um espaço para o egossauro ronronar e abanar o rabinho, como disse não lembro quem, ou as duas coisas ao mesmo tempo. O diabo é que os jornais, online ou no papel, não publicam nada muito melhor, não. Até editoras com prestígio publicam montes de porcarias. Quer dizer, as publicações sem critério nenhum na internet não são muito piores que as publicações que passaram pelo filtro de editores profissionais. Mas são em maior volume, infinitamente maior: os medíocres, os idiotas, os dementes são legião. De modo que até bons autores correm o risco de não serem vistos jamais.
Vejamos agora um blog de sucesso, considerado por muitos como o melhor no ramo: o Todoprosa, do Sérgio Rodrigues. Ele teve visibilidade porque começou na revista NoMínimo, cheia de gente conhecida. Agora está na Veja. Outra coisa é que o Sérgio lida com informações, não com o próprio umbigo, o que amplia o interesse, confere? Parece lógico que os leitores do blog se interessem pela obra do Sérgio. Mas, espiando a caixa de comentários, comecei a suspeitar que eram leitores do blog, não dos livros dele e, em muitos casos, de quaisquer outros, a julgar pelos textos confusos e cheios de erros. Curioso, perguntei ao Sérgio e, surpresa, ele suspeitava a mesma coisa. Tanto que nenhum dos leitores do blog apareceu num dos lançamentos que foi anunciado ali.
Outra mão perigosa da internet é a mão leve, aquela que pirateia. Depois que me avisaram, fui dar uma olhada e descobri que muitos contos meus foram copiados dos livros e postados em blogs. Pelo menos dois livros foram digitalizados e estão lá, faceiros, acima da legenda: download free. Guaraci Fraga tem frases plagiadas todos os dias. Ele confrontou uma plagiadora. A moça respondeu que plagiava quando queria, o quanto queria, quem queria e fim de papo. Outro disse que se caiu na rede é cópia. Eu não sei bem onde vai parar esse descaramento, como também não sei quanto custa um advogado especialista em direitos autorais.
Pode ser que, quando o prejuízo financeiro for maior, se tome alguma atitude. Imagino que isso está para acontecer com o livro eletrônico. Falei com gente que manja de eletrônica pra saber se se pode dar um jeito de copiar um livro de um tablete pra outro. Claro, me responderam. Não existe código que não possa ser quebrado. É simples: se alguém fez, alguém desfaz. E uma cópia dessas não é exatamente o mesmo que emprestar um livro para um amigo. As cópias têm a tendência de se multiplicar, mais ainda se caírem na rede. Preparem-se. Barbarossa e sir Francis Drake eram um bebês.
Não se trata evidentemente de mesquinharia ou da ânsia sórdida de barrar a livre circulação de ideias e informações. Não, o buraco é mais embaixo: quem paga as contas do supermercado? Um escritor, como um eletricista, um advogado, um médico ou qualquer outro profissional, tem o desplante de querer viver do próprio trabalho. Ou pelo menos sobreviver. Um livro pode não ser produto de primeira necessidade, como pão e leite, mas seu roubo também é crime. Quer dizer, se o livro não é um gênero de primeira necessidade, o roubo dele é mais crime que o roubo de um pão ou de um litro de leite.
Agora, é inegável que o livro eletrônico tem suas vantagens, como economia de espaço, preço mais acessível, ser à prova de traças, possibilitar a busca de frases ou palavras. Enfim, tudo isso com que os computadores nos habituaram. Tudo? Logo que os computadores entraram na moda, Millôr Fernandes disse uma bela frase: livro não enguiça. Pois é. Agora já enguiça.

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