Li, dia desses, que vão fazer uma continuação de Blade runner. Pobre Philip K. Dick. Ao contrário do resto da humanidade, não caí na conversa do Ridley Scott, tanto que escrevi o texto abaixo no auge da badalação, a pedido do escritor Paulo Ribeiro, que editava um caderno de cultura. O engraçado é que os admiradores do filme não contestaram nenhuma das questões que levanto. Sei que é mais chato argumentar que enfileirar adjetivos exclamados, mas, cá pra nos, não pega bem.
Blade runner — A versão love story de Frankenstein
“Blade Runner, dir. de Ridley Scott — Traição ao esplêndido livro do Philip K. Dick. O gênero “Marlowe no Século XXI” não chega a engatar. Scott adora botar todo mundo com a luz atrás. É, fica bonito, mas — e daí? Manja de clima paca. Um horror o futuro. Gente que não acaba mais, barulheira danada em Dolby, sujeira, decadência, fog e chuva. Um momento lindo quando o replicant veste o paletó de aço cromado. Muita entranha voando pelos ares. SR/SM. E nunca é demais lembrar: o pior filme estrangeiro é melhor que o melhor filme brasileiro.”
Ivan Lessa, em JET (Jornal do Edélsio Tavares), Pasquim.
Bate-papo de adolescentes:
— Já viu Blade Runner? Quantas vezes?
— Catorze.
— Ué, não gostou?!
Estou frito com gente assim: acho Blade Runner, de Ridley Scott, a versão love story do Frankenstein. As imagens e a trilha sonora são muito bonitas, muito mesmo, mas — como disse Ivan Lessa — e daí? Um bom filme é antes de mais nada os personagens de que trata, a história que conta. A história de Blade é vulgar, babosa e trapaceira. Sei, não adianta pedir calma, mas seria bom lerem meus argumentos antes do linchamento.
Não é uma questão de não gostar do filme por causa do livro. O filme é ruim por conta própria, logo veremos. Não faço o negativo do gênero Cabrera Infante, que prefere o filme porque o livro não tem Harrison Ford. Como livro nenhum tem ator, faria mais sentido reclamar de que o filme não tem Philip K. Dick, já que se alega que o filme foi baseado em Do Androids Dream of Electric Sheep? (O Caçador de Andróides, Francisco Alves). Mas prefiro julgar filme e livro em separado, cada um dentro dos seus limites e virtudes. Depois, tenho inúmeros exemplos que livram minha cara, como O cônsul honorário, O falcão maltês ou O tesouro de Sierra Madre. Gostei d”O cônsul, filme, mesmo depois de ter lido e amado o livro de Graham Greene. Gostei mais d”O falcão de John Huston do que o de Hammett. O tesouro nem se fala. Jamais consegui ler o livro de B. Traven.
Como eu disse que o filme não tem Philp K. Dick, me deixe apresentar as provas antes de sairmos no braço. Não tem nenhuma cena do livro no filme. No máximo algumas perguntas do teste. Só. Para se ter uma ideia da distância que separa um do outro, vejamos um episódio. No filme Rick Deckard aposenta (mata) uma dançarina de cabaré toda musculosa que trabalha com uma cobra. A androide corre pela rua, aos saltos mortais. No livro, Deckard tem de aposentar com discrição uma cantora de ópera de voz linda. Ele é um apreciador de ópera. Mais: no entrevero, é acusado de ser androide, de sua missão não passar de uma memória falsa implantada. Isso pode ser verdade. Deckard balança. Mais ainda: é acompanhado por outro caçador, um tipo repelente. É isso: sente empatia pela androide que tem de matar mas não pelo homem — e empatia é o traço principal de distinção entre androides e homens. Philip K. Dick nos dá cenas alucinantes em cima dessa ambiguidade.
Simplificando: o livro é sobre coisas que simulam humanidade e sobre humanos desumanizados, ou que alcançam algum contato humano através da máquina de fusão de Mercer, num mundo em que a vida está por um fio e ter um animal não é apenas uma questão de status, mas de sanidade. O filme é sobre humanos malvados que criam bonecos com sentimentos e depois os exploram até a morte. O livro é um belo exercício de humor-negro. O filme é um exemplo de como jogar pás de açúcar no melado.
Mas vamos subir ao ringue.
1o Round. A receita do doutor Frankenstein para criar a vida: violam-se alguns túmulos, remendam-se pedaços aproveitáveis de cadáveres e aí se dá um choque elétrico neles. Problema: a criatura, depois de sofrer horrores, volta-se contra seu criador. Moral: melhor não brincar de Deus.
Esse enredo foi reescrito e refilmado quantas vezes? É um dos piores lugares-comuns da ficção científica. Continua sucesso porque no fundo todos sonhamos, por um lado, ser o Criador e por outro chamar o dito cujo às falas e cobrar os desastres da vida, como calvície, mau hálito, espinhela caída, a Michelle Pfeiffer casada com outro.
A inovação de Ridley Scott foi tirar o parafuso do pescoço da criatura. Uma inovação fundamental, a meu ver. Porque assim se evitou que Harrison Ford esfolasse o queixo na hora de fazer amor ou que, em vez de se agarrar nos ombros da dona, se agarrasse no parafuso. Isso na certa baixaria o nível de romantismo do filme.
Vocês eu não sei, mas eu, em matéria de romantismo, sou mais a criatura de Mel Brooks em O jovem Frankenstein. Ela transa com a noiva do doutor, fuma um cigarrinho e se vai, rosnando. A noiva diz:
— Os homens são todos iguais. Dão sete e vão embora.
No livro não tem esse negócio com o criador, naturalmente.
2o Round. Um androide, a gente acostumou a pensar, é uma máquina com aparência humana ou um produto da parceria entre biologia e eletrônica. Philip K. Dick deu uma mexida nisso: seus androides são carne de laboratório. Dois problemas não foram resolvidos: a rápida deterioração deles e a incapacidade de empatia. É, os androides não têm afeto, são coisas, torturam, matam numa boa, sem razões de lógica ou sangue quente. Um traço inquietante: sob pressão, se tornam passivos.
Ridley Scott escamoteia isso para poder explorar melhor nossas baixas emoções. Continua maquilando o parafuso no pescoço, digamos. A gente vê aquela esplêndida Rachael e amolece, deseja que ela seja humana, ou melhor, nem pensa nisso, porque é humana, nada a distingue de uma mulher de verdade. Mesmo que ela berrasse que saiu do laboratório, não de uma maternidade, não faria diferença.
Máquinas com sentimentos é uma das idiotices mais recorrentes na ficção científica. Agora são bonecos com sentimentos. Todo o filme está apoiado nisso.
3o Round. O teste para saber se o sujeito é um androide é totalmente confuso. Você precisa adivinhar que a carteira de couro é crime porque os animais são preciosos naquele mundo. O androide do tipo Nexus 6 foi feito para ter reações que demonstrem a emoção que não sente. Mas a Ridley Scott interessa que pensemos que não é uma simulação. Quer que tenhamos peninha do androide que se diz escravo. Não é honesto. Depois não faz sentido, porque se para os androides os animais têm a mesma importância que têm para as pessoas, o teste é inútil.
No livro, os androides só são identificados pelo exame da medula óssea ou pelo Teste de Empatia Voigt-Kampff. As perguntas do teste envolvem animais transformados em carteira ou comida. Num mundo em que a maioria dos animais foi extinta, essas perguntas são de uma tremenda violência. Os humanos reagem na bucha. Os androides precisam de alguns décimos de segundo.
No livro, a cena da aranha que John Isidore encontra é reveladora. Os androides cortam perna após perna da aranha só pra ver com quantas ela ainda pode caminhar. Quando parece que a aranha entregou os pontos, é estimulada com fogo.
4o Round. Nas ruas tem gente pra chuchu. Mas os prédios, imensos, estão vazios. A cidade parece de um filme e a multidão de outro.
5o Round. As aposentadorias (mortes) dos androides são espetaculares. Sangue e ginástica. Não há o mínimo pudor, a menor sutileza. É briga de saloon, manja? É sempre assim: quando os personagens, quando a trama, não convencem por si sós, há que apelar. Saudades do duelo de Julien Sorel em O vermelho e o negro. Stendhal não precisou mais do que uma linha para descrevê-lo.
6o Round. O último androide morre na pose de Cristo, com cravo enfiado na mão e tudo. A pomba que ele segura sobre o peito levanta voo e todos os otários da plateia pensam em alma. Não sei, além de grotesco, me parece que é levar a empulhação longe demais.
Um detalhe: o androide acabou de matar o criador, certo? Quer dizer que a última tentação de Cristo era esmagar a cabeça de Deus? Não vi o Vaticano, sempre tão suscetível, pedir a incineração de Ridley Scott.
7o Round. Mais lugar-comum: o amor vence sempre, o amor não conhece fronteiras. O policial durão vira merengue e foge com a mulher de inflar para uma terra verde de esperança. Fico me perguntando: por que o resto da população prefere permanecer confinado no inferno de San Francisco como se toda a Terra fosse uma só sobra de guerra? Confesso que esses problemas de lógica de Ridley Scott me irritam.
A melosidade segue em frente: a boneca de inflar tem certificado de garantia por tempo indefinido. Não precisa ser trocada ao fim de quatro anos. Até uma feminista que eu conheço derramou uma Foz do Iguaçu de lágrimas. Me perdoem, mas sou obrigado a falar de novo no livro. Cada modelo de androide tem muitas réplicas. Deckard enfrenta duas Rachael. Transa com uma e aposenta outra. A transa foi para desestabilizá-lo. Mas mesmo na lona ele vai até o fim. A Rachael da transa então mata a cabra que ele comprou com a grana das recompensas pelas aposentadorias. A mulher de Deckard pergunta por que ela fez isso. Razões de androide, Deckard diz.
No filme, os androides são todos diferentes. Ridley Scott quer que pensemos que são indivíduos, não bonecos feitos em série, Barbies melhoradas, com uma memória falsa implantada. Mais uma vez se apagam todos os rastros do parafuso no pescoço. Nada deve perturbar o love story.
8o Round. Mesmo a beleza das imagens me parece suspeita. O fato de ter sido tão facilmente imitada pela publicidade dá o que pensar. Arte, quando vai fundo, meu nego, não dá moleza. Ou você vê Picasso vendendo sabão em pó, enlatado ou qualquer outra porcaria?
9o Round. Como disse o Lessa, o estilo Philip Marlowe do futuro não chega a engatar. Nem Harrison Ford é Humphrey Bogart. Embora Ford seja muito bom.
10o Round. Como não vou escapar com vida, me deixem ir até o amargo fim. Ridley Scott pegou um dos maiores livros da ficção científica e, em vez de fazer um grande filme, preferiu uma fotonovela tipo patrão casa com a empregadinha. Acho que há formas mais dignas de se ganhar dinheiro.

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