Como o Analista de Bagé se declara mais “ortodoxo do que cachimir Buquê”, uma abordagem acadêmica seria mais do que ideal, seria um imperativo. A fórmula, como se sabe, é simples: com a última moda crítica francesa em punho, explica-se tim-tim por tim-tim como se procederá, encerrando quando fica bem claro que estamos por dentro da última moda crítica francesa. Mas tive de desistir por motivos de força maior: não conheço a última moda crítica francesa nem, cá entre nós, a penúltima. Vai daí, fui obrigado a reler alguns livros de Luis Fernando Verissimo e puxar pelo bestunto, o que na certa explica — embora não justifique — a falta de obscuridade, a ausência de dezenas de notas ao pé da página e de citações de autores que parecem ter escrito para serem citados apenas, não lidos, fora outros macetes que dão aquele ar abissal de profundidade às teses.
Mas, antes que os bois durmam, vamos ao o que interessa. O Analista de Bagé foi um estouro. Luís Fernando era um escritor de sucesso, antes, para os padrões brasileiros. Vinha de muitas crônicas brilhantes, na verdade mais importantes do que o Analista, mas há uma tendência a se esquecer das crônicas e dos cronistas. Sabe-se, a crônica é o mais efêmero dos gêneros literários. Entre crônicas e cronistas, os que perduram são justamente os que forçam os seus limites, invadindo o conto, o ensaio, a crítica, a memória, a poesia, como um Rubem Braga, um Antônio Maria, um Ivan Lessa. Penso que Luis Fernando Verissimo já entrou nesse time principalmente com invasões nas áreas do ensaio e da poesia, em crônicas do tipo “O Gigolô das Palavras” e “Das 6 às 8”, para ficarmos apenas em dois exemplos irresistíveis.
Além do Analista, há outros personagens que marcaram, como Ed Mort e a Velhinha de Taubaté. Mas o Analista largou muito na frente. Mesmo o fator Bagé, ou fator índio velho, não atrapalhou. O regionalismo é puro molho. O Analista, como se sabe, é muito mais a gozação da psicanálise que do gaúcho. E de psicanálise todo mundo entende. Quer dizer, quase ninguém entende, mesmo entre psicanalistas, mas todos ouviram falar e se não têm uma ideia formada, têm firmes preconceitos.
Para o Analista angústia existencial é frescura e o complexo de Édipo, antes que uma tragédia, é uma pouca vergonha. A terapia do joelhaço não é a negação da metafísica, é uma simples escolha de lados: o índio velho está com a física.
Aí é que são elas. Muita gente pensa exatamente assim. Ou se não pensa, sente. Mesmo os mais espertinhos, que acham que a alma humana é mais complicada que declaração de imposto de renda, às vezes cansam de tanta complexidade e gostariam que o bom senso prevalecesse, como não sói acontecer. O Analista se alimenta desses sentimentos. Ele é uma espécie de desforra. Depois, há que reconhecer, tem horas que o caso da alma humana é de pura frescura mesmo e o certo é falar grosso.
Mas Luis Fernando, com um toque diabólico, consegue que as histórias sejam também a gozação do Analista e sua escolha. De quebra, a gozação do gaúcho. A grossura do gaúcho dá relevo aos exageros psicanalíticos e as sutilezas da psicanálise dão relevo à barbárie gaúcha. Esta ambiguidade, em termos de humor, é mais difícil de conseguir do que realização de promessa de campanha política.
Outra coisa: ao transplantar o imaginário da psicanálise — preciso tomar cuidado, começo a falar como os críticos — para o cenário gaúcho, Luis Fernando foi além da graça: tornou o gaúcho exótico para si mesmo. O pelego no divã, o Freud de imbuia, essas coisas, recortam a figurinha do gaúcho de uma forma mais nítida, talvez mais ridícula, em todo caso de uma forma nova, como se fôssemos vistos por estrangeiros. Vai ver, o Analista é um dos primeiros sinais de maturidade de um estado que parou aí pelos quinze anos, quando se bate o pé e se ameaça quebrar a cara de todo mundo.
Por falar em nitidez, o Analista é um dos personagens mais definidos que pisou estes pampas. Desde as primeiras linhas da primeira história, ele se impõe, nos ganha a simpatia e a imaginação. Parece que sempre existiu, o desgraçado. Até ficamos nos perguntando por que ninguém tinha pensado nele antes. Claro, não precisava ser gaúcho, podia ser cangaceiro, caubói, samurai. Esse ar de inevitabilidade parece diminuir o mérito de Luis Fernando, mas isso é o efeito colateral de todos os grandes personagens, ou você imagina o mundo sem Dom Quixote, sem Sherlock Holmes, sem Gargantua, sem Lady Macbeth, sem Lolita, sem Drácula, sem o homem invisível? Eles vivem independentes dos seus criadores. É a coisa mais difícil de se fazer em literatura. No caso específico do Analista deve ter sido mais fácil, claro, porque na certa o próprio cortou o cordão umbilical a facão.
Depois tem aquele negócio de piada de louco, que deve ter contribuído para o sucesso do Analista. Piadas de louco, por motivos que foram deslindados na seção de psicologia do Almanaque Capivarol, são muito apreciadas, talvez até mais do que piada de bicha e de sogra, ou fanho. Outra coisa ainda, são os ditados populares gaúchos, quase sempre muito engraçados. Quando não eram, ou simplesmente não existiam, Luis Fernando não se apertou: inventou alguns tão bons que é preciso um especialista para distingui-los dos verdadeiros.

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