Segundo uma velha piada, o cafezinho quente é prejudicial ao sexo, porque queima as pontas dos dedos e da língua. Não sei se é verdade – não tomo cafezinho –, mas fico matutando: essa piada revela um costume realmente popular ou não passa de uma ironia barata? Se levarmos em conta as reclamações de muitas mulheres na rede, os dedos têm um uso inepto e a língua é usada mais no telessexo. Mais ainda: se os dados de pesquisas de terapeutas estão corretos, perto de 30% das mulheres sexualmente ativas só vivenciaram um orgasmo no cinema. Ainda bem que o orgasmo chegou às novelas na tevê – é quase a democratização do prazer.
Li dia desses uma terapeuta que diz que os homens adoram sexo oral, desde que as mulheres façam neles, e que um homem em cada três afirma ter nojo da, digamos, ursinha carinhosa. A terapeuta não dá detalhe nenhum sobre os outros dois, o que me parece uma falha grave. Quero os detalhes, minha senhora: os caras dão um trato na ursinha uma vez por ano ou por mês ou várias vezes por semana?
Antes de começarmos o sexo oral propriamente dito, gostaria de dizer duas palavrinhas sobre os homens que têm nojo da ursinha carinhosa, termo, esclareço, que um personagem meu usa num romance mais ou menos erótico que estou escrevendo. É que discordo da terapeuta, que atribui esse nojo ao medo de que as mulheres não tomem banho seguido ou a alguma experiência escabrosa. Me parece que há algo mais perigoso por trás disso – e me parece que eu não consultaria essa terapeuta nem pra tratar de unha encravada. Veja, se a gente lê um pouco de história, descobre rapidinho que os homens sempre temeram a capacidade de prazer das mulheres – com os outros, nos casos menos doentios, bem entendido. Claro que esse temor se manifesta dos modos mais variados, com meios tons de todas as cores, mas também se manifesta de modo caricatural, ou muitos homens não consideram as mulheres seres inferiores, mental e moralmente, ou mesmo fisicamente? Porque na hora em que muitos homens consideram o tão desejado sexo feminino algo nojento, a mulher está sendo rebaixada ao ponto mais ínfimo. O exemplo extremo desse temor é o costume, em muitas culturas, de cortar fora o clitóris das meninas.
Mas por que os homens gostam tanto de sexo oral? A boca de uma mulher dá mais prazer que a ursinha carinhosa? Se nos ativermos a evidências anatômicas, me parece que a ursinha tem todas as vantagens – milhões de anos de evolução não podem ter dado uma bola fora tão grande. Mas, sabe-se, sexo não está exatamente entre as pernas e sim entre uma orelha e outra, local onde fermentam as fantasias mais delirantes e as neuroses mais perigosas. Basta ouvir uma conversa de homens no boteco da esquina, ou assistir a meia dúzia de filmes com cenas de sexo, nem falo de filmes pornôs, pra se notar que pra maioria dos homens o que importa é sua sensação de poder. Nos casos em que o nível de idiotice é mais elevado, o cara pensa que transar com uma mulher é ao mesmo tempo castigá-la e humilhá-la.
Interessante, não vi nenhuma estatística sobre as mulheres que acham uma pica nojenta ou humilhante a ideia de chupá-la, ou ainda sobre o que essas mulheres pensam sobre os homens que consideram o máximo ejacular em suas caras. Mas há uma velha observação da Marilyn Monroe que dá o que pensar – veja, a Marilyn Monroe, o maior símbolo sexual de todos os tempos, não uma carola qualquer. Cansada do ofício, ela disse uma vez que dali pra frente só chuparia o Einstein.
E o outro lado da moeda, os homens que demonstram de modo prático e com assiduidade sua falta de nojo da ursinha carinhosa? Por que eles fazem isso se não são movidos por razões mercantis e o prazer físico deles não é grande, como qualquer marmanjo sabe ou pode deduzir? Como diz Evan Rachel Wood, atriz que tem sua personagem chupada emThe necessary death of Charlie Countryman, numa cena que cortaram em nome da moral e dos bons costumes – e até do bom gosto, dizem –, “aceitem que alguns homens gostam de dar prazer a uma mulher. Aceitem que uma mulher não precisa apenas ser fodida e dizer obrigada. Nós temos o direito e o dever de nos divertir”. Que coisa, seu! Esses homens descobriram a América: estão na cama com uma pessoa, não com uma boneca de vinil.
Na matéria que li com a dita terapeuta, uma leitora deixou um comentário: só tinha orgasmo quando o marido fazia sexo oral. Notava-se o entusiasmo dela, porque às vezes, frisou, tinha dois seguidos. Acho que a terapeuta devia avisar a leitora que ela pode ter não apenas dois seguidos, mas cinco ou seis, ou quantos a sensibilidade do seu clitóris aguentar, escore que só alcançaria num papai e mamãe se seu marido fosse o Superman. Se as mulheres, devido a uma benção biológica que talvez Darwin explique, podem ter tanto prazer, nós homens vamos ficar emburrados pelos cantos, com inveja ou com preguiça?

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial