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Nosso amigo Stevenson

Há anos, eu e meu filho, Lúcio Hoppe da Rosa, nos dedicamos a uma dor de cabeça prazerosa, traduzir A flecha negra, de Robert …

Há anos, eu e meu filho, Lúcio Hoppe da Rosa, nos dedicamos a uma dor de cabeça prazerosa, traduzir A flecha negra, de Robert Louis Stevenson. Se por acaso algum editor me lê, pense um pouquinho, porque a publicação de Stevenson não só faria bem aos leitores de todas as idades: faria um bem danado aos jovens escritores, já que os velhos não têm mais remédio. Isso mesmo: ao traduzir Stevenson ficaram mais claras ainda, pra mim, a incrível precisão e versatilidade desse homem. Abaixo, minhas impressões, que escrevi como prefácio pr’A flecha negra.

            “Escrevia com felicidade, pensava com precisão e imaginava com lucidez.”

                                                           Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares

            “Ler Stevenson é uma aventura intelectual, um encontro com uma mente clara e despretensiosamente inteligente; mas, acima de tudo, é um ato de amizade, pois quem abre um de seus livros (a menos que tenha o espírito insensível e a cabeça embotada) ganha um amigo generoso e honesto para o resto da vida.”

                                                             Alberto Manguel, em Sob as palmeiras

Robert Louis Stevenson, amado por Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares, Bertolt Brecht e Vladimir Nabokov, Graham Greene e Italo Calvino, entre muitos outros, não emplacou com os críticos. Ter escrito para crianças talvez tenha prejudicado a fama literária dele, disse Borges. É uma boa hipótese, que, além do mais, dá uma estocada num preconceito bastante ativo apesar do mofo. Mas Lewis Carroll não escreveu para crianças e ganhou fama e respeito por isso? Acontece que Carroll brincava com a linguagem e ostentava sua inteligência a cada linha, coisas que, se nem sempre amolecem o coração dos intelectuais, sempre amolecem o coração dos pseudos, que são legião. A mente clara e despretensiosamente inteligente de Stevenson, lembrada por Alberto Manguel, pode, quem sabe, explicar melhor a esnobada acadêmica e o amor de tantos escritores sofisticados.

Stevenson escreveu uma porção de bons livros, mas bastaria um, O morgado de Ballantrae, para garantir um lugar entre os grandes. Na maioria dos livros, os personagens são estáticos: o autor nos diz que fulano é assim ou assado e a ação apenas confirma isso, nos melhores casos, por mais complexo que o dito cujo seja. N’O morgado, Stevenson consegue uma proeza: mostra os personagens mudando ao longo do tempo e dos acontecimentos. Mais, faz nossa simpatia por eles balançar, mudando também, como acontece aqui do lado de fora das páginas dos romances com qualquer pessoa comum com seus conhecidos. Mais ainda: Stevenson desce aos nossos mais baixos impulsos e os anota com precisão e energia tremendas. Como ele mesmo disse num ensaio, o escritor tem duas obrigações: fidelidade aos fatos e vigor no tratamento. Quer dizer, ele tinha consciência do que fazia.

Isso é pouco? Stevenson é divertido. Claro, ser divertido é outra coisa suspeita. Lembrem Mário Quintana, que disse que o crime que não perdoaram a Oscar Wilde é que ele era profundo sem ser chato. Um dos credos de Stevenson era que a arte tem de ser prazerosa, porque, sem isso, o resto se perde ou fica muito mais difícil.

Stevenson é lembrado quase sempre por A ilha do tesouro e O estranho caso de dr. Jekyll e mr. Hyde, este mais conhecido no Brasil como O médico e o monstro. A ilha do tesouro pode, ainda hoje, ser usado como modelo de romance de aventuras: tem ação, tem perigos, tem reviravoltas, mas jamais perde a verossimilhança ou o peso humano. Stevenson não nos dá os devaneios adolescentes em estado bruto, apenas os leva em conta e brinca com eles dentro das fronteiras do possível, digamos, porque ele não estava nem aí para o que se chama realismo. Henry James já tinha visto tudo isso. Num longo ensaio (vide O clube do suicídio, Cosac Naify, 2011), ao falar d’A ilha do tesouro, ele afirmou que o que torna Stevenson uma joia rara “é a maturidade singular da expressão que ele deu a sentimentos juvenis: ele os julga, os mede, os vê de fora, assim como os entretém. Ele descreve a credulidade com todos os recursos da experiência”. Falta dizer que o olhar do autor é sempre irônico e bem-humorado. Deve ser por isso que Stevenson não tem contraindicação para adultos.

Dizem que Franz Kafka implorou ao editor que não retratasse Gregor Samsa transformado no inseto monstruoso. Kafka sabia das coisas. Stevenson também, basta vermos sua recusa à apelação e à vulgaridade, coisa evidente em qualquer livro seu, mas mais ainda em O estranho caso de dr. Jekyll e mr. Hyde.

Onde Stevenson, com astúcia minuciosa, insinuou o horror, as adaptações cinematográficas o escancararam, demonstrando não o poder de uma grande história, mas o poder dos efeitos especiais. Como disse Borges, entrever um monstro é mais eficaz que vê-lo. Mas, nesse estranho caso, baratearam de vez: em Stevenson o mal é o sadismo e no cinema, o sexo. É uma pena.

De novo Stevenson nos dá um modelo. Como ele torna crível o incrível? Nabokov, em uma de suas aulas na universidade de Cornell (texto publicado no livro citado antes): “Stevenson lança mão de todos os recursos possíveis — imagens, entonações, sequências de palavras e também falsas pistas — para construir gradualmente um mundo em que a estranha transformação a ser descrita nas próprias palavras de Jekyll terá sobre o leitor o impacto de uma realidade aceitável e artística. Em outras palavras, conduzirá o leitor a um estado de espírito em que ele não se perguntará se aquela transformação é ou não possível. Resultado similar é obtido por Dickens em Bleak House [Casa sombria], onde, num milagre de abordagem sutil e prosa variada, ele consegue tornar crível o caso do velho encharcado de gim que literalmente pega fogo por dentro e se transforma em cinzas”. Sim, o modo como conta é exemplar, mas se o que conta não mexesse com algo verdadeiro — esses demônios que se agitam no sangue da gente —, o livro seria inócuo.

Tenho meus motivos para falar desses romances. A ilha do tesouro, antes de sair em livro, saiu como folhetim num magazine. Segundo Stevenson, foi um fracasso como folhetim e um sucesso como livro. Eram públicos diferentes. Com A flecha negra parece ter acontecido o contrário.

Stevenson não gostava d’A flecha negra, como também não gostava d’O estranho caso de dr. Jekyll e mr. Hyde. Vai ver, Stevenson se ressentia com a fama do seu médico e do seu monstro, com que ganhou respeito literário e independência econômica, pois de certa forma abafaram seus outros livros. Com A flecha negra a coisa parece mais simples. Escreveu-a para levantar uma grana rápida e falava dela como uma história cheia de “tushery”, como ele se referia aos diálogos em inglês arcaico, em que imitou as baladas medievais sobre cavaleiros. Em nossa tradução, o arcaísmo desses diálogos aparece bastante atenuado, em nome da legibilidade.

O menosprezo dele parece verdadeiro, não uma pose de literato. Stevenson não deu o texto para sua mulher, Fanny Osborne, ler e fazer as sugestões de costume. Mais, assinou-o com pseudônimo, Capitão George North, quando foi publicado por Young Folks – A Boys’ and Girls’ Paper of Instructive and Entertaining Literature, vol. XXII, n0 656 (o folhetim começou no sábado, 30 de junho, e terminou na edição de outro sábado, 20 outubro de 1883). Mas esse menosprezo não foi grande o suficiente para impedir que A flecha negra saísse depois em livro, em 1888. Ainda bem.

Como se sabe, a opinião de um autor sobre seus próprios livros nem sempre é a melhor, mesmo quando o desconfiômetro funciona direitinho. A proximidade do autor com seu livro atrapalha a visão, sem falarmos que os espelhos não são fiéis, em geral devolvem a imagem de um gênio, coisa que desata a produção de serotonina em escala industrial. Mas, sendo as pessoas o que são — nem só os brasileiros têm complexo de vira-lata —, às vezes o espelho devolve a imagem de um idiota. Ou, no caso de Stevenson, uma face mais pra Hyde que pra Jekyll. Assim, me disponho a contrariar Stevenson, que escreveu com lucidez ensaios sobre escrever.

Com ironia, Stevenson disse que escreveu A flecha negra para desbancar Alfred R. Phillips, o folhetinista de maior sucesso na época. Mas não conseguiu. Acho que entendo por quê. Mesmo que A flecha negra lide com cavaleiros, com perigos constantes, com fugas sensacionais e amores irredutíveis, Stevenson não tem a visão em preto e branco típica dos folhetins, nem doura de romantismo a Idade Média. Há os grandes gestos de nobreza? Há grandes canalhices? Claro, mas não estão divididos entre as duas rosas, a branca e a vermelha. Tanto o partido de York como o partido de Lancaster têm sua cota de heroísmo e canalhice, às vezes as duas coisas na mesma pessoa. O protagonista, Dick Shelton, é de uma ingenuidade meio boboca em muitos momentos. O próprio Duque de Gloucester, futuro rei Richard III, pintado como um covarde por Shakespeare, em A flecha negra surge como um assassino impiedoso, cheio de ambição, sim, mas valente.

Me parece melhor ainda a visão que Stevenson nos dá da guerra: caos, crueldade, traições dentro de traições. Os grandes senhores têm um discurso bonito, mas, na hora das alianças, topam qualquer coisa. Eles lutam pelo poder, por mais terras, mais ouro. Quem se dana são os camponeses pobres e as mulheres. Tudo isso é mostrado sem ênfase, meio de passagem, como se Stevenson contasse com nosso conhecimento do mundo e não achasse muito viril ficar choramingando pelos cantos. Ele não prega, não defende uma causa, embora seja sarcástico. Ele, coisa rara, confia no que narra.

Um bom exemplo é a Irmandade da Flecha Negra. Muitos críticos a tratam como um clone de Robin Hood e seu alegre bando na floresta de Sherwood. Besteira. A única semelhança é que temos arqueiros vestidos de verde Lincoln. A Irmandade, ao contrário do bando de Robin, não é uma associação beneficente sem fins lucrativos. Vide a cena da cobrança de impostos. Vide o cerco a um inimigo solitário numa clareira na floresta. Stevenson nos dá a real, como se diz, sem esfregá-la em nosso nariz. Ele não apenas confia no que narra. Confia no leitor.

Pode-se dizer que a trama d’A flecha negra não traz grandes novidades, como O estranho caso, por exemplo. Borges dizia que os argumentos de Stevenson não são bons, porque qualquer um lhe servia. Não são bons para contar, como os de Chesterton. Quer dizer, não são engenhosos. Mas como então lemos com interesse? Como complementa Borges, com o bom senso e a sagacidade de sempre, não devemos julgar um escritor pelos seus argumentos. Se julgássemos, Tchékhov estava frito. Um argumento não é um fim em si mesmo, mas um meio para que possamos ver os personagens e nós mesmos através deles.

Para nos manter atentos e interessados, Stevenson usa um processo semelhante ao descrito por Nabokov para nos fazer acreditar no inacreditável. Em poucas linhas ou páginas, ele consegue nossa empatia com suas criaturas e consegue nos pôr dentro das cenas, com elas. Há um longo caminho até o final feliz — caminho cheio de idas e vindas, de pequenas revelações, de detalhes maravilhosos. Henry James observou que Stevenson pegou uma forma tradicional, nos moldes de Alexandre Dumas, elevando-a a um novo patamar, ao introduzir a psicologia. Isso pode assustar algum leitor preguiçoso, daí que é necessário avisar que em Stevenson a ação, os sentimentos, as paisagens e tudo o mais formam um todo indissociável. Ele tem a agilidade dos bons malabaristas. Sem pausas para respirar ou dar sermão.

É necessário ainda falar do texto d’A flecha negra. Muitos críticos notaram que Stevenson tinha um temperamento romântico, chegado a aventuras meio descabeladas, mas escrevia como um clássico. Contar coisas espantosas de modo simples sempre foi uma boa estratégia. Mas Stevenson ainda tem mais um ás ou dois na manga.

Borges confessou que escreveu o conto “O homem da esquina rosada” numa época em que lia muito Stevenson e ia muito ao cinema. As coisas estão ligadas, porque com Stevenson vemos as cenas com uma clareza espantosa, sem falar que ele recorta os detalhes e os ordena numa sequência que bem depois seria usada nos filmes, como notou Bertolt Brecht. Essas cenas são sempre muito plásticas. Ou, se são comuns, ele aponta um detalhe que as transforma, como se pode ver n’A flecha negra, quando uma borboleta esvoaça sobre um arqueiro dormindo no chão.

Como disse Borges e muitos outros escritores, as cenas de ação precisam ser descritas com rapidez. Isso, Stevenson faz com uma das mãos amarrada. Mas não é tudo, como observa Adolfo Bioy Casares: “Para fazer passar os episódios de muita ação (ação de certa forma gratuita para o autor) é preciso se redimir com alguma beleza visual ou de estilo. Exemplo feliz: Stevenson”.

Sabe-se, poucos autores resistem a uma releitura. Stevenson resiste. Resiste muito bem. Na verdade, parece melhor a cada releitura, porque, como ele é um escritor discreto, que escreve não por acréscimo mas por subtração, como diria Cortázar, precisamos de tempo para perceber os silêncios, para entender os silêncios, para saborear os silêncios.

Trecho de A flecha negra em que se descreve o final de uma emboscada:

            Durante todo esse tempo, nenhum dos atacantes se mostrou. Em vários lugares ao longo do caminho, homens e cavalos ainda vivos se remexiam em agonia; mas nenhum inimigo piedoso saiu do esconderijo para acabar com o sofrimento deles.

            O solitário sobrevivente permanecia desnorteado ao lado do seu cavalo caído. Ele chegara naquela grande clareira com a ilha de árvores apontada por Dick. Ele estava talvez a uns quinhentos metros de onde os rapazes estavam escondidos; eles podiam vê-lo claramente, olhando ao redor com mortal preocupação. Mas nada aconteceu; então o homem começou a recobrar a coragem, e de repente pegou a balestra e armou-a. Naquele instante, por algo familiar em seus movimentos, Dick reconheceu Selden.

            Diante de tal tentativa de resistência, ouviram-se risadas a sua volta na floresta. Vinte homens, pelo menos — ali se encontrava o grosso da emboscada —, uniram-se nessa diversão cruel e inoportuna. Então uma flecha voou por cima do ombro de Selden, que deu um salto e recuou um pouco. Outra flecha se cravou vibrando no chão perto do seu calcanhar. Ele procurou abrigo. Uma terceira flecha passou diante de seu rosto, indo cair na frente dele. As gargalhadas se repetiram, elevando-se e ecoando entre as árvores.

            Era óbvio que seus atacantes só o atormentavam, como naqueles dias o homem fazia com o pobre touro, ou como o gato brincava com o rato. A escaramuça havia terminado. Mais abaixo na estrada, um sujeito vestido de verde recolhia calmamente as flechas. Enquanto isso, os demais se divertiam com um prazer doentio, assistindo ao espetáculo que era a tortura do pobre pecador.

            Selden começou a entender; rugiu de raiva, apoiou no ombro a balestra e mandou uma flecha ao acaso entre as árvores. Teve sorte, pois ouviu um grito abafado em resposta. Então, jogando sua arma no chão, Selden correu pela clareira quase em linha reta para Dick e Matcham.

            O bando da Flecha Negra começou a atirar para valer. Mas já era tarde, tinham perdido a chance; a maioria deles agora tinha que atirar contra o sol, e Selden, enquanto corria, saltava de um lado para o outro para dificultar a pontaria. O melhor de tudo: indo para a parte alta da clareira ele tinha frustrado o plano deles; ali não havia mais atiradores postados além daquele que acabara de matar ou ferir. A confusão dos chefes se tornou evidente. Soaram três assobios, depois mais dois. Repetiram-se em outros lugares. Por todo lado se ouviam pessoas correndo entre os arbustos; um cervo assustado correu para a clareira, parou um instante sobre três patas, farejando o ar, e de novo se meteu na floresta.

            Selden continuava correndo e saltando, às vezes seguido por uma flecha, que sempre errava o alvo. Começava a parecer que ele ia escapar. Dick estava com a balestra armada, pronto para ajudar; até mesmo Matcham, esquecendo seus interesses, torcia pelo fugitivo. Os rapazes acompanhavam a cena tremendo de nervosos.

            Já se achava a uns cinquenta metros deles, quando uma flecha o acertou e ele caiu. Levantou-se num instante, mas agora corria cambaleando e, como um cego, perdeu o rumo.

            Dick se levantou de um salto e abanou para ele.

            — Aqui! Por aqui! Aqui está a ajuda! Corre, companheiro, corre!

            Mas justo naquele instante uma segunda flecha atingiu Selden no ombro, perfurando seu gibão por entre as placas da brigandina. Selden desabou como uma pedra.

Autor

Ernani Ssó

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