A moça aquela que se esgoelou chamando o goleiro de macaco foi ameaçada de morte e estupro. Pra coroar, um justiceiro, bêbado e em liberdade condicional, tentou botar fogo na casa dela. Nenhum dos internautas que pregou ou desejou morte e estupro foi punido, nem será, mas o que eles fizeram é muito parecido com o que faz uma torcida enlouquecida num campo de futebol. No anonimato de uma multidão ou no anonimato da rede qualquer um pode exibir a valentia que não tem e a canalhice que tem de sobra, ou apontar sua violência, frustração e burrice pra não importa que alvo. Pior, ainda se sentindo virtuoso, o animal.
Muito bem, cansei de ver a cara dessa moça na internet em duas fotos, uma aos berros, outra em lágrimas. Mas até hoje não conheço a cara dos outros torcedores que também gritaram e, mais estranho e assustador, vi apenas no Sul21 a cara do vereador do PMDB Wilson B. Duarte da Silva. Sim, aquele nobre parlamentar (cof, cof, cof!) que disse, numa discussão na Câmara de Rio Grande (RS), que “os negros querem se favorecer (da reserva de 20% de vagas do serviço público para pessoas que se declaram negras ou pardas). Isso que é racismo, afinal os negros já estão quase brancos, estão saindo com loira, polaca, estão comendo em restaurantes”. Por quê? Pegaram a moça pra expiar nossos pecados só porque apareceu na televisão? Não gostaria de concluir que foi porque ela é mulher ou porque os ânimos futebolísticos falam mais alto que uma discussão política. Mas se foi exatamente por isso, como é que fica?
Veja, o Grêmio foi punido pelo que parte da sua torcida fez. Teve o troco quase que imediatamente. O que a prefeitura de Rio Grande fez pra punir Wilson B. Duarte da Silva? A Câmara ainda não o cassou? O que estão esperando? A moça disse que gritou no embalo. Até pode ser – gente menos tola que ela já participou de linchamentos. Agora, o vereador Wilson com certeza não gritou no embalo. Ele fez um discurso. Ele inclusive pensa que argumentou, que demonstrou de modo claro o branqueamento e o racismo dos negros.
Não tenho notícia de que o povinho internáutico tenha ameaçado o vereador de estupro, morte e incêndio. Se houve ameaças, não foi o tsunami que arrastou a fulana. Por quê? A raiva do povinho já tinha se esgotado, tipo chega de racismo neste mês? Ou de novo devo considerar que, como não houve torcidas nem tevê na jogada, a repercussão foi menor? Ou a imprensa não sentiu o poder sensacionalista da notícia e deixou pra lá? Olha, me parece muito mais chamativo, do ponto de vista jornalístico, um sujeito dizer que os negros estão mais brancos porque já frequentam restaurantes do que uma torcedora gritando macaco. Um grito, por mais infame que seja, pode ser atribuído à raiva, basta ver as coisas cabeludas que saem em briga de casal que se amava loucamente até ontem. Já a frase do vereador é sustentada por toda uma visão de mundo, se podemos aplicar a expressão a tamanha miopia.
Enfim, o que o vereador Wilson disse me parece mais grave e mais ofensivo. Além da barbaridade em si, ele é um homem público e falou num local que é pago por todos nós, o que no mínimo triplica o peso das palavras. Ele não tem a desculpa da cabeça oca e quente da manada de torcedores. A cretinice dele foi eleita pelo voto. Talvez ele represente um bom número de cretinos do mesmo naipe.
Segundo Lasier Martins, “Quantos índios no Brasil e particularmente no Rio Grande do Sul deixaram de ser índios e são hoje profissionais respeitados e qualificados?” Também não vi este preconceito e idiotia – ou não é preconceito e idiotia, se podemos separar preconceito de idiotia, pensar que se elimina uma etnia com empregos bem pagos? – causar um terço do furor motivado pela moça. A troco? Não há índios com acesso à internet? Por que sites e jornais e tevês não expuseram o Lasier Martins à execração pública? Alguém capaz de dizer uma coisa dessas não poderia ser candidato a um cargo público – claro, numa terra ideal. Pela matéria com que as pessoas são feitas, dá pra pensar que talvez se elejam exatamente por coisas assim.
Vocês notaram? A lógica do pensamento do Wilson B. Duarte da Silva é a mesma do pensamento do Lasier Martins. Um afirma que os negros estão mais brancos porque andam com loiras e comem em restaurante. O outro afirma que os índios deixam de ser índios se arrumam bons empregos como qualquer cidadão que se preza. Quer dizer, com algum empenho, os índios até podem andar com loiras e comer em restaurantes, branqueando mais rapidamente que Michael Jackson, coisa que me parece estranha num país em que, mal desponta o sol do verão, todo mundo quer se bronzear porque acha que o branco tipo leite tem algo de doentio.
Uma última coisa: por que o vereador falou em loiras? Por que, entre todo tipo de mulheres brancas, ele falou em loiras? Ele acha que as loiras são mais brancas ou têm uma brancura mais confiável? Ele acha que um negro que namore uma morena ainda não branqueou o suficiente? Pra quem se chama Silva, convenhamos, é estranho escolher as loiras como fator de branqueamento.
Os racistas e a ciência
A ciência atropelou os racistas, todos sabem, menos os racistas. Somos todos primos dos macacos. Por uma diferença mínima no DNA não somos chimpanzés. É pouco? Somos todos descendentes de uma meia dúzia de cro-magnons que saíram da África, quer dizer, somos todos afrodescendentes. É pouco? Os cro-magnons que saíram da África e se espalharam pela Europa e Ásia e vieram pras Américas se misturaram com os neandertais, parentes pelo visto mais burrinhos e com uma aparência mais distante ainda do padrão de beleza fixado pelas esculturas gregas. O que isso quer dizer? Que os africanos são os únicos que não têm sangue neandertal. Nós, brancos, amarelos e vermelhos somos os mestiços. É o que demonstram as pesquisas. Mas se você precisa dessas informações pra conhecer o tamanho de tua idiotice, eu suspeito que elas não vão servir pra absolutamente nada.

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