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Existe imprensa imparcial, isenta e democrática?

Quatro décadas depois de passar por quase duas dezenas de jornais, uma cooperativa, revistas, assessorias e sociedade em duas empresas de comunicação, um dos …

Quatro décadas depois de passar por quase duas dezenas de jornais, uma cooperativa, revistas, assessorias e sociedade em duas empresas de comunicação, um dos pilares da estrutura da imprensa que aprendi a respeitar foi seriamente abalado pelo tratamento dispensado a dois episódios que sacudiram o Rio Grande do Sul (… e o mundo) nas últimas semanas, com ampla repercussão na mídia. Ambos envolvendo questões de juízo de valor, conceitos jurídicos e relações interpessoais e de costumes: o caso da injúria racial de uma torcedora gremista contra o goleiro Aranha do Santos, no jogo contra o Grêmio na Arena e a celeuma pseudo-homofóbica por conta de um casamento coletivo, incluindo um casal homossexual feminino em um Centro de Tradições Gaúchas – CTG (que conservou a caracterização mesmo descredenciado pelo MTG) em Santana do Livramento.

Aprendi, mesmo antes de cursar a faculdade, e muito depois, no convívio com grandes profissionais, que a imprensa (em todas as suas variantes) deve ser imparcial, isenta e democrática. Porém, percebi ao longo dos anos no exercício da profissão, que esses conceitos mudam conforme os interesses ou conveniências, mesmo nas grandes corporações e não apenas nos veículos que servem a determinadas categorias, partidos ou entidades. Sei que não é fácil a imprensa satisfazer a todos, mas esta é uma das mazelas da atividade. É difícil colher rosas sem ferir-se em algum dos espinhos.

No entanto, o que percebi ao acompanhar a cobertura que cada veículo dispensou aos fatos acima citados, foi adotar uma postura conveniente a seus interesses. No caso das ofensas da torcedora, todos foram unânimes em condená-la sumariamente, preservando o Grêmio, uma entidade fortíssima, cujo conselho é composto por pessoas de grande influência na sociedade, inclusive empresários da comunicação. No caso do casamento coletivo em Santana do Livramento, li e ouvi muitos defensores e até elogios a uma atitude no mínimo desastrada de uma juíza em busca de fama. Será que já estou fazendo juízo de valor? Talvez.

O que levou a excelentíssima juíza a escolher como cenário do casamento um CTG – mesmo descredenciado? Como bem colocou David Coimbra em uma das suas crônicas: um CTG é uma espécie de santuário de tradições, tem regras, normas e coloca uma série de restrições a seus participantes. A indignação dos tradicionalistas não foi a contestação ao casamento homossexual, mas o local escolhido. Porque ninguém perguntou à juíza porque ela não escolheu uma igreja católica, ou da Assembleia de Deus ou do Evangelho Quadrangular, ou mesmo da Universal para celebrar o casamento coletivo? Essa falha a reportagem está me devendo. Só ouvi perguntarem abobrinhas e ela responder que estava fazendo o que a lei permitia.

Nada justifica o incêndio criminoso do CTG descredenciado, ação extrema dos descontentes. Mas eu pergunto: e se o casamento fosse realizado não poderia ter ocorrido uma tragédia, alguma morte? Muitas reportagens e manifestações me soaram como falsidades, como um colunista que relatou até ter ido a uma boate gay e ter sido bem tratado. Não era esse o foco da questão. Enfim, como jornalista, acho que o jornalismo ‘escorregou’ nas coberturas destes fatos. Fiquei com a impressão de que não existe imprensa isenta, imparcial e democrática. E você, o que acha? Se discorda, acompanhe bem a cobertura das eleições… nas entrelinhas.

Autor

Julio Sortica

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