Há poucos ponteiros, hoje em dia. Ponteiros de relógio. Ponteiros de futebol então, nem se fala. Na realidade, há cada vez menos gente usando relógio, pois a hora está disponível no celular, no tablet, no computador, nos relógios de rua, nos painéis do carro, no GPS, enfim, numa infinidade de lugares.
Mas de um tempo para cá, os relógios em sua maioria são digitais. Então, os ponteiros dançaram. Mas noutro dia estive por um bom tempo em um local em que era possível ver as horas passando, nos ponteiros.
As horas que passam em ponteiros são diferentes daquelas que passam nos números dos relógios digitais. As dos ponteiros têm todo um charme, uma altivez, além de brincarem de passar ora rápido, ora devagar. Na verdade, passam mais devagar do que rápido, mas às vezes(quando não estamos olhando) elas apuram e nos pegam de surpresa, meia hora depois. Já as horas dos relógios digitais são tão apressadas… Não têm tempo pra nada, a não ser pra passar. E rápido!
Lembro ainda do século passado, quando aprendi a ver as horas, em um relógio feito de papel na escola, o ponteiro grande passando por sobre o pequeno, dando mais voltas para tentar convencer o ponteiro pequeno de que ele precisava se mexer mais rápido. Talvez seja esta uma frustração do ponteiro grande, o “ponteiro dos minutos”. Ou talvez ele tenha uma enorme inveja do pequeno, que é mais descansado e tem mais tempo para as coisas. Vai saber.
O fato é que o aproveitamento do tempo, a ansiedade das horas, a falta de horas no dia são coisas recorrentes a quase todo mundo. Então, lembro do Mário Quintana, sempre encanzinado(esta eu fiz de propósito para a turma de leitores mais nova ter que procurar no dicionário o que significa encanzinado) com o passar das horas e com os relógios. Dizia ele:
Relógio
O mais feroz dos animais domésticos
é o relógio de parede:
conheço um que já devorou
três gerações da minha família.

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial