Quando vou comentar um tema mais delicado e ainda por cima, importante como reestruturações empresariais que envolvem enxugamento, demissões e readequações, procuro avaliar os dois lados. E faço essa observação não porque tenha sido patrão, empresário, dono de negócio ou até mesmo sócio minoritário. Muitas vezes fui convidado a fazer parte de uma equipe e em várias outras levei um pontapé na bunda. Fui, sim, um demitido e com família para sustentar. Também uma vítima circunstancial de um processo que leva muito em conta a redução de custos à custa dos mais fracos, dos donos dos salários menores.
Em uma ocasião talvez eu tenha sido uma exceção quando era diretor de O Sul e havia conquistado o que chamo de um salário digno para o cargo, compatível com a função e, de certa forma, no padrão de outros editores de jornais do mesmo porte na ocasião, o Correio do Povo e o Jornal do Comércio. Não ZH porque Marcelo Rech tinha um salário que era quase a folha de toda a redação de O Sul. Mas o simpático e batalhador Titio Gadret me chamou no último dia de férias para me demitir. “Preciso reduzir gastos e vou começar pelos meus marajás”. Nunca me senti tão honrado por ter sido chamado de “marajá”, talvez o único da Rede Pampa, pois não soube de demissão de nenhum outro executivo com cargo que tivesse um salário semelhante ou maior. Bem, coisas do ofício.
Mas não odiei e nem odeio o Titio Gadret. Ao contrátio, sou um dos maiores defensores de O Sul. O Titio Gradet devia ter suas razões e não as contesto. Pagou o que me devia e fui para o mercado pagar, talvez, os pecados que nunca tive profissionalmente. Currículo aqui, outro ali, contato acolá para uma difícil e demorada volta ao mercado. Só não passei mal porque sou um pouco previdente, tinha algumas economias guardadas e a rescisão garantiu mais um pouco. Mas tive outras demissões, foi assim no Correio do Povo, onde mesmo com o reconhecimento e toda a competência que tinha como repórter, redador, editor e ganhando a merreca do piso de jornalista, ainda assim fui demitido para que um ex-jovem promissor formado no próprio CP pudesse ter uma vaga para recomeçar. Se fiquei magoado com o Telmo? Claro que não! Ele devia ter suas razões e qualidade não deveria ser o foco principal. Coisas do ofício.
E lá vou eu de novo para o mercado. Eu já havia experimentado dois pontapés na bunda, um quando Olívio Dutra assumiu o Governo do Estado e eu estava no Gabinete do Governador Antônio Britto como CC a convite do Luiz Fernando Moraes. Nunca fui CC partidário e em todas as vezes que trabalhei no Estado foi por convite de colegas que sabiam que eu poderia desempenhar bem determinada função. Mas no Governo Olívio do antigo PT, só filiado e, de preferência, militante de carregar bandeira. Nem o fato de o coordenador do jornalismo ser meu primeiro chefe em ZH, o simpático e competente Antônio Oliveira, me ajudou. Fui penar no mercado. Coisa do ofício.
O mesmo aconteceu no Governo Rigotto, quando fui convidado pelo Flávio Dutra para realizar um trabalho específico. Desta vez foi mais rápido, talvez porque eu ocupava uma sala entre o Afonso Licks e o Pedro Macedo e próximo ao Flávio. Alguém certamente cobiçou aquela sala… e o cargo. Quando Flávio Dutra saiu e assumiu o Celito de Grandi, pensei: estou tranquilo, pois fui colega do Celito no antigo Diário de Notícias e estou fazendo um bom trabalho. Que nada! Outro pontapé na bunda. Coisas do ofício. Se fiquei com raiva do Celito? Claro que não, pois afinal, o Celito devia ter suas razões, o partido deve ter exigido uma vaga para um correligionário. E talvez pensaram que aquela função não exigia tanta qualidade.
Essa história parece que não termina! Anda logo, qual o foco? Bem, antes a história de outro pontapé na bunda. Desta vez, de novo quando o PT assumiu o Governo do Estado com Tarso Genro. Eu estava como Coordenador de Comunicação da Secretaria do Planejamento e tinha intenção de permanecer, senão no cargo, que é de confiança, mas na equipe. Que nada… Mais um pontapé (só não vou comprar um amaciante de bunda porque não serei mais demitido, eh eh eh). Não fiquei com raiva do João Mota, ou de quem assumiu a Secom. São ossos do ofício. Aprendi com o tempo que é preciso enfrentar as adversidades sem culpar A ou B.
No caso das demissões da RBS e do Terra, entendo que muitos colegas ficaram em situação difícil, mas antecipo que não é o fim do mundo, nem motivo para cortar os pulsos. É sair por ai com currículo debaixo do braço, ir a eventos e outros encontros, se mostrar, fazer relacionamentos e aceitar, num primeiro momento, o que aparecer. E aos poucos tentar se reconduzir no mercado. Claro que tanto a RBS quanto o Terra não demitiram funcionários de primeira linha. Um ou outro editor sim, mas que já tinham de 20 a 30 anos de casa e próximos da aposentadoria. E os mais jovens, vamos à luta. Ninguém é obrigado a trabalhar na RBS ou no Terra ou em qualquer outra empresa que não goste ou sabe que pode pintar algo desse tipo. Então, ou lute para conquistar um espaço mais nobre ou monte seu próprio negócio. No primeiro caso, nunca esqueça que patrão sempre será patrão e quase (eu disse quase) todos são iguais. E se você montar seu negócio próprio, também será um patrão e ai saberá onde o calo aperta. Ah! Sacode a poeira, dá a volta por cima e vá à luta!

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial