Todos nós, jornalistas, sabemos que uma empresa de comunicação lucra (ou sobrevive) com a receita da publicidade e de outras estratégias comerciais. Ninguém é ingênuo (ou ignorante) a ponto de imaginar que as vendas e assinaturas de jornais e revistas sejam suficientes para bancar custo de todo o processo e, no caso de rádio, TV e mídias digitais, mais complicado ainda. Nesta coluna quero me fixar especificamente nos jornais e revistas que produzem cadernos ou encartes especiais. Não sou contra, e, digamos, ao contrário, amplamente favorável a esta forma de jornalismo.
Mas – sempre há um más – é preciso fazer uma diferença entre os tipos de cadernos: há os jornalísticos, por segmento, bem feitos, com conteúdo elaborado, preparados com tempo, com pauta e muito cuidado. E que conseguem ótimo apoio publicitário. Ou ao menos um patrocinador fixo. Vou citar um exemplo regional: o caderno Vestibular, de Zero Hora. Tem informações, cases, serviço e mesmo com uma diagramação mais tradicional, cumpre seu papel.
No entanto, há outros que se perdem pelo caminho e na própria ZH existe um exemplo. Talvez nem a empresa saiba bem a que veio tal produto: Kzuka. É muito confuso, misto de jornal estudantil com coluna social. No inicio até tinha uma proposta interessante e conseguia bons anunciantes. Ultimamente sinto uma decadência e até mesmo um certo receio publicitário. Talvez seja apenas fase e mediante uma reestruturação volte a ser um caderno para jovens.
Os cadernos são importantes meios de tratar de temas segmentados com mais profundidade, mas não podem se perder nesse frenesi de buscar apenas o faturamento. A RBS tem até um departamento comercial focado apenas nisso e aí, meus amigos, danes-se o conteúdo, o jornalismo. Vale aplicar ao leitor qualquer abobrinha e rechear de anunciantes. São comuns os cadernos ou encartes de municípios, regiões, feiras, eventos ou simplesmente categorias profissionais, como um que vi recentemente sobre advogados. Nada aproveitável jornalisticamente. E o Direito tem tanta coisa boa para mostrar e apresentar que chegou a dar dó até dos escritórios que anunciaram. Mas se aceitaram é porque se contentam com lixo… Desculpe a rudeza da expressão, mas é isso mesmo, lixo jornalístico. Então é melhor fazer um catálogo de endereços.
O Jornal do Comércio tem outro padrão. Geralmente o nível dos encartes tem preocupação com a qualidade da informação, como é o caso do Caderno de Contabilidade, do Gestão e Negócios e de Logística. Não são apenas textos isolados jogados aqui e ali e algumas fotos para ilustrar. Parabéns ao JC pelo tratamento que tem dado aos seus cadernos.
Não procurei saber se nas faculdades também se ensina como fazer um bom jornalismo segmentado, que tenha conteúdo, que a leitura e o nível de informação agradem. Senão, não é jornalismo, é comércio de comunicação. Espero nos próximos meses ver muitos cadernos encartados nos nossos jornais, mas que respeitem a inteligência do leitor.

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