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A oficina do comissário Maigret

A Companhia das Letras começou a lançar toda a obra de Georges Simenon. Espero que seja pra valer, porque mesmo a Nova Fronteira e …

A Companhia das Letras começou a lançar toda a obra de Georges Simenon. Espero que seja pra valer, porque mesmo a Nova Fronteira e a L&PM, que foram mais sistemáticas, se mixaram depois de um tempo, sem falar que publicaram os livros meio ao sabor do acaso. Espero principalmente pelos chamados romances duros, onde Simenon dá uma sova em muito escritor consagrado.

Aí, claro, pipocaram artigos e mais artigos sobre Simenon. Não vi nada realmente interessante, mas muita repetição do que sabemos de cor e os chutes de sempre. Mesmo um cara bem informado e inteligente como Julian Barnes, na hora de explicar o fascínio dos escritores por Simenon, não só não explica grande coisa como parece deglutindo um cururu ainda atravessado no gogó. Manjo. Escritor de gênero ensinando a gente a fazer o dever de casa não é mole, não.

Como eu já tinha metido minha colher, mais de uma vez, por sinal, no caso Simenon, recupero aqui um texto escrito para a revista Vox em sua primeira encarnação. Mais um palpite furado não faz mal. Depois, me dou por satisfeito se com ele eu conseguir interessar algum leitor pelo Simenon.

***

A gente sabe que André Gide interrogou Georges Simenon como Jules Maigret jamais interrogou um suspeito e que lia as novelas dele com um lápis em punho, fazendo dezenas de anotações nas margens. Segundo o próprio Simenon, o interesse do Gide era porque Simenon era um criador puro, não um intelectual que escrevia ficção como Gide. Isso parece simples demais, mas se saiu pela linha de fundo, antes pegou na trave.

Veja, Simenon tinha um faro infalível para o drama, para seguir o rastro de um personagem, tanto que era capaz de escrever obras-primas em dias, como O gato ou Os fantasmas do chapeleiro, sem falarmos na assombrosa A neve está suja (apelidada no Brasil, com a idiotia característica, de Sangue na neve). Mas precisava mais de um mês para preparar uma conferenciazinha sobre literatura. É, se tinha de mexer com ideias, de racionalizar, ficava mais enrolado do que a pista de dinheiro público em paraíso fiscal. Gide, sem chegar a ser o contraponto total, também não vê muito bem em Gaza, como Aldous.

Não sei se Gide conseguiu decifrar o método do Simenon, se podemos chamar de método seguir o rumo do nariz. Ao menos, o longo ensaio prometido jamais foi escrito. Mas deve ter notado que a melhor ilustração do dito método foi dada adivinha por quem? Agora, será que o próprio Simenon se deu conta de que as investigações do comissário Maigret são um manual prático do escritor? Acho que sim, mesmo com Simenon tendo levado a sério as virtudes detetivescas do comissário no caso Stavisky, quando bancou Maigret para um jornal. Foi patético.

Várias vezes, nas novelas do Maigret, se menciona a curiosidade pelos métodos do comissário, que sempre afirma não ter método nenhum. Em Meu amigo Maigret, por exemplo, Mr. Pyke, da Scotland Yard, segue nosso herói por todo lado, registrando tudo de modo exasperante. Mas, como consta na orelha do volume na edição da Nova Fronteira: “O que mostrar ao inglês? Como traduzir em fórmulas teóricas o que se passa no interior de um homem que nunca sabe como iniciar uma investigação, senão pela penetração quase afetiva do ambiente e dos personagens do drama que o convoca?”. Cá entre nós, isso não parece um escritor no começo de um livro? Simenon, através dos olhos do Maigret, examina o cenário, tenta se sentir à vontade nele e busca se tornar íntimo das pessoas que circulam por ali.

Quase sempre Maigret tem a postura de um bom escritor: não se mete, não interfere — não pensa nada, não tem teorias para provar, não julga. O negócio dele é compreender. Mas compreender de um modo profundo, praticamente vivendo as emoções dos outros. Os interrogatórios não são para que o suspeito apenas confesse um crime, mas sim para que se confesse, para que diga quem é, afinal.

Maigret é uma lição mesmo quando erra. Como disse, ele é praticamente neutro, nem por sexo se interessa, mas tem simpatias e antipatias, claro. Às vezes deixa se levar por elas e aí começam as concessões, aí começa o fracasso, porque o enredo precisa ser alterado para que os bonzinhos escapem e os maus entrem em cana, culpados ou não, como em O cão amarelo, se a memória não brinca comigo. Um caso de isenção implacável, de total apego à lógica interna do drama, é Maigret na escola: terror e piedade.

Na real Maigret não indiciaria ninguém. Não entende patavina de investigação policial. Frente ao desprezo do Simenon pelos procedimentos mais óbvios, policiais franceses que gostavam dos livros dele deram dicas, mas não adiantou muito, não. Porque Maigret nada mais é do que uma projeção do escritor, a sombra dele entre suas criaturas. Basta ver como se resolvem os crimes. O policial nota o detalhe revelador? Faz uma dedução brilhante? Não, lá pelas tantas simplesmente se dá conta do que ocorreu. Quer dizer, se dá conta quando Simenon se deu conta do que tinha que escrever, porque ele nunca planejava antes, apenas tratava de desvendar uma intuição inicial. É isso. Se na rua o clone do Maigret quebrou a cara, na literatura fez chover.

Autor

Ernani Ssó

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