Curioso é quando a vida nos empurra no sentido oposto. Seja oposto a tudo o que acreditamos, seja oposto ao que queríamos, seja oposto ao tempo das coisas. Normalmente, a oposição se dá de uma agenda corrida, quase enlouquecida, para uma pausa, muitas vezes longa até. Pode ser por férias, pode ser por um problema de saúde, pode ser por uma gestação, pode ser por vontade própria(afinal, a vontade própria faz parte da vida): de uma hora para outra, rompemos com o tempo. Ele deixa de ser uma presença a nos empurrar para a frente e senta-se ao nosso lado.
Companhia curiosa, o tempo. Ele pode ser para os mais ansiosos uma incômoda parceria. Porque eles gostariam de estar fazendo qualquer coisa, menos estarem lado a lado com o tempo. A companhia dele, olhando para o horizonte e refletindo, torna-se uma tortura para os mais ansiosos. Para eles, só existe um tempo: o rápido.
Já aqueles que não sofrem de uma ansiedade aguda conseguem dialogar com o tempo. Trocar impressões da vida, já que ele está há tantos milênios por aqui. Temos tão pouco tempo de vida perto do tempo, não é mesmo? Depois que formos “poeira ou folha levada”, ele ainda ali estará, passando. Gastando, apressando ou lento, mas sempre tempo.
O melhor do tempo é o tempo que conseguimos aproveitar. Seja na tarde de inverno vendo um filme ou lendo um livro, seja jogando conversa fora noite adentro com os amigos. Seja namorando em tardes de sol ou de chuva, seja tentando explicar aos filhos que, afinal de contas, temos mais tempo de vida e sabemos um pouco mais, ou que queremos aprender com eles. Ou ainda reviver tempos, de quando tínhamos as suas idades e as coisas pareciam diferentes.
O tempo, depois de tantas primaveras, invernos, outonos e verões, ensina que não devemos perdê-lo. Nem apressá-lo. Que ele virá, junto com as verdades, que adoram passear com o tempo. Mas para enxerga-las, precisamos estar atentos. Senão, o tempo passa, de mãos dadas com as verdades da vida e não conseguimos vê-las. Tempo.
A AUTOESTRADA DO SUL & OUTRAS HISTÓRIAS

Talvez o tema da coluna tenha vindo porque o pessoal da L&PM tenha me presenteado com mais uma obra, desta vez de Julio Cortázar, o homem que falava das fraturas do tempo. Estamos no ano do centenário do autor, além dos 50 anos da publicação de uma de suas maiores obras, O Jogo da Amarelinha. Obras de Cortázar dispensam comentários, então posso dizer somente que a obra reúne oito histórias do gênio do conto, agora em uma nova tradução. Ler Cortázar é entender como o tempo é eterno para os gênios, que deixam uma obra para todos os tempos. Desnecessário, mas vamos lá: recomendo! Além disto, vale sempre a visita para conhecer os inúmeros títulos da L&PM: http://www.lpm.com.br/site/default.asp

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