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Sexo na cabeça

Mae West: “Você tem sexo na cabeça, rapaz. E aí, definitivamente, não é o lugar dele”. Ela manjava de sexo — pelo menos, como …

Mae West: “Você tem sexo na cabeça, rapaz. E aí, definitivamente, não é o lugar dele”. Ela manjava de sexo — pelo menos, como conta a lenda, traçou todo um time de futebol numa noitada. Aí é que está. Uma mulher capaz de deixar todo um time de futebol de língua de fora e os olhinhos virados não pode entender de sexo. Isso não é sexo, é maratona, é corrida com obstáculo. Isso está para o sexo como fazer cem apoios está para a dança ou rodízio de pizza está para a gastronomia. O sexo está, sim, na cabeça. O sexo? O mundo, o que se chama realidade, nos vem filtrado pelos sentidos, pela cultura, pelos preconceitos e, no melhor dos casos, pela inteligência: é, só temos uma versão e olhe lá, minha nega. Essa versão, se não é fantasia pura — mais ou menos verossímil —, está toda colorida por ela. Por isso vamos parar aí com esses realismos socialistas de todo tipo.

Falando em sexo na cabeça

Freud: “A experiência com a análise de sonhos já estabeleceu satisfatoriamente que o chapéu é um símbolo dos genitais, sobretudo dos masculinos. Mas não se pode afirmar que seja um símbolo claramente inteligível. Em fantasias e em numerosos sintomas, também a cabeça aparece como símbolo dos genitais masculinos (…)”.

Não seria mais lógico que o chapéu fosse o símbolo dos genitais femininos, ou do preservativo? E o que dizer do capacete, hem? É símbolo de priapismo ou de uma castidade defendida hasta la muerte? E a touca com pompom? Cruz credo, tenho até medo de pensar na touca com pompom.

Freud: “Mais de um analista terá observado que os seus pacientes que sofrem de obsessões manifestam, ante o castigo da decapitação, horror e indignação bem maiores do que ante qualquer outra espécie de morte, e terá tido ocasião de lhes explicar que lidam com a ideia de ser decapitado como um sucedâneo de ser castrado”.

Hummm. Me parece que ser enterrado vivo ganha de goleada. Nem a morte na fogueira e por esquartejamento ou torturas variadas me parecem mais horrorosas. Ou eu não sofro de uma boa obsessão ou sofro de falta de imaginação. Há também a possibilidade de que o Freud tenha viajado na maionese, como se diz, feito adolescente em ponto de bala, capaz de ver na luz vermelha do semáforo um anúncio de absorvente. Ou Freud foi vítima de seus inimigos, que mandavam para seu divã uma série de gozadores. Mas a possibilidade de que Freud esteja certo é a mais cômica e triste, outro indício de que o homem é um animal inviável.

Freud: “Várias vezes já foram analisados — e comunicados — sonhos de pessoas jovens, ou acontecidos na juventude, que tinham por tema a castração, e em que se mencionava uma bola que apenas podia ser interpretada como a cabeça do pai”.

Jura? Como se sabe que o tema do sonho era castração? Sei, sei, como num bom faroeste, o bandido deu um tiro que arrancou o chapéu do mocinho. Não quero dizer que nunca se saiba. Quero dizer que nem todos os psicanalistas sabem do que estão falando, como todos nós, a maior parte do tempo.

A bola só podia ser interpretada como a cabeça do pai? Talvez por eu ser brasileiro, a primeira coisa que uma bola me parece é uma bola mesmo. Depois tenho minhas dúvidas de que haja interpretações únicas — se nem na meteorologia pode-se confiar inteiramente, às vezes sendo melhor olhar pela janela antes de pegar o guarda-chuva, como lidar com a matéria ou antimatéria dos sonhos?

Confesso minha covardia: morro de medo das interpretações. Quanto mais complicadas, maior o meu medo. Os ruralistas, com a pose de guardiões do templo da verdade, dizem que não, mas se sabe que o olho do dono engorda o boi. Ou mais, engorda a vaca, a ovelha, a porca, enfim, uma lista interminável de bichos. Sem esquecermos que é preciso inspecionar a balança a todo momento.

Fantasia

A psicanálise talvez seja a mais estranha das fantasias eróticas. A mais rendosa certamente é.

Autor

Ernani Ssó

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