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Folguedos acadêmicos

Academia Porto-alegrense Feminina de Letras? Por quê? A dos homens não permite a entrada de moças? Bem feito pra eles. Sei que não me …

Por anos anotei observações acadêmicas em que a língua e nosso bom senso são tratados sem respeito nenhum. Abaixo, algumas delas. Por favor, tirem as crianças da sala e depois da leitura tomem um sal de frutas.

“A linguística textual estabelece certas sequências prototípicas, caracterizadas pela intencionalidade que as preside assim como pelo peso específico de determinadas estratégias.” Santo deus, como sobrevivi mais de 50 anos sem saber disso?

Um ensaio de duas professoras espanholas, do Departamento de Psicologia Evolutiva e da Educação da Universidade de Barcelona, sobre como escrever textos científicos começa com uma terrível revelação: a escrita de textos científicos no contexto universitário implica atividades de escrita. Ignorante dessa verdade, desperdicei uma carreira científica certamente brilhante e rendosa. É, eu pensava que a escrita de textos científicos no contexto universitário implicava apenas no recebimento das tábuas de Deus com os segredos da natureza listados tim-tim por tim-tim. Essas mesmas mestras afirmam, com a mesma contundência, que a gente lê e escreve lendo e escrevendo. Fascinante, como diria Mister Spock.

Essas mesmas mestras dizem que se nos chateamos com um texto acadêmico talvez seja porque não sabemos por que o lemos, ou estejamos compreendendo superficialmente, ou o texto seja muito difícil, ou estamos preocupados com outras coisas. Sim, claro, mas como elas não pensaram na hipótese mais evidente: nos chateamos porque o texto é chato?

Quase todos os escritores culpam os leitores. Os escritores acadêmicos mais ainda. Mas, cá pra nós, uma boa campanha de incentivo à leitura devia começar com a eliminação de muitos dos escritores.

Segundo A. Cros, a retórica considera o preâmbulo como a parte inicial e de capital importância de um discurso retórico. Esses acadêmicos não são de nada. Eu, com a coragem que me caracteriza, considero o início a parte do começo. É pouco? Vou mais longe ainda: eu o considero de capital importância não apenas no discurso retórico, mas em tudo, até na hora de fritar um ovo, porque sem iniciar não dá pra começar. Tenho dito, se é que não me enrolei em minhas próprias palavras.

Joan Bonals Picas — Picas? Sim, senhor, Picas —, num ensaio sobre trabalhos em grupo, garante: “Um membro ocupa a posição de ausente quando fisicamente não está no lugar onde a equipe está reunida. Nesta posição estaria, por exemplo, o integrante que está doente, o que chega tarde ou abandona momentaneamente ou permanentemente a reunião”. Imagino que não há problema com os membros que estiverem espiritualmente presentes, mesmo estando em motéis com as mulheres de outros membros, na hora da reunião. Imagino também que os membros que abandonaram a reunião permanentemente devem ter morrido, por não conseguirem acompanhar a sutileza desses raciocínios.

Se se pode chamar o planejamento de uma aula de “design instrucional”, está liberado: podemos chamar uma cantada de “design coital” e certas candidaturas de “design larapial”. Agora, convenhamos, pra falar ou escrever assim é preciso adotar um “design bestial”.

Você já “efetuou um processo de matriculação”? Deve ser extremamente doloroso — há algo na expressão que lembra corredor polonês ou uma máquina de moer carne, não? Ainda bem que, nos meus tempos, eu apenas me matriculei.

Não sou apenas eu que implico com acadêmicos, não. Com a palavra o bom Braulio Tavares: “Recebi um convite para um evento cuja justificativa dizia: ‘O objetivo precípuo deste conclave é questionar o fazer literário, dissecar seus processos, balizar seu desenvolvimento e estabelecer metas para a construção de um discurso literário brasileiro nesta época de diluição globalizada e de hegemonia dos discursos popularescos e dos gêneros comerciais’. Pensei: ‘O cara escreve assim para mostrar que domina a linguagem’. Depois pensei: ‘O cara capaz de escrever assim a sério provavelmente só consegue escrever assim. Ele não domina a linguagem. Ele aprendeu a duras penas uma linguagem — chamemo-la burocratês ou academês — e no final deixou-se dominar por ela, a ponto de ser-lhe impossível utilizar outra’.”

“O enquadramento sistêmico focaliza seu olhar na conectividade relacional.” Quando digo que as palavras são uma cachaça braba, que seu vício é mais nocivo que o do crack, tem gente que acha que exagero. O acadêmico que escreveu essa frase aí teve os mesmos orgasmos que José de Alencar ao escrever Iracema. Não, os mesmos não. “Conectividade relacional” dá um orgasmo de tipo científico. “Verdes mares, que brilhais como líquida esmeralda”, um de tipo poético. Isso se examinarmos a questão de dentro. Porque de fora o tremelique parece um só.

Lendo o segundo volume de Os dez anos de Calvin e Haroldo, do Bill Wtterson, topei com esta tira: “Eu costumava detestar redações, mas agora gosto delas. Eu percebi que a finalidade de escrever é inflar ideias fracas, obscurecer raciocínio pobre e inibir a clareza. Com um pouco de prática, escrever pode ser uma névoa intimidadora e impenetrável! Quer ler meu relatório de leitura? ‘A dinâmica interpessoal e imperativos monológicos em Dick e Jane: um estudo de modos psíquicos transrelacionados de gênero’. Academia, aí vou eu!”

Autor

Ernani Ssó

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