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Setorista é bom ou ruim para o jornalismo?

Exceto raras exceções, todo repórter quando começa a trabalhar em um veículo de comunicação – no caso, dedicado ao jornalismo – enfrentará uma rotina

Exceto raras exceções, todo repórter quando começa a trabalhar em um veículo de comunicação – no caso, dedicado ao jornalismo – enfrentará uma rotina que pode ser boa ou ruim, dependendo de como se avalia cada caso. Refiro-me ao repórter setorista, aquele que, como o próprio nome explica, dedica-se diariamente a fazer a cobertura de um determinado setor da sociedade.

Tomando como base o sistema de cobertura mais clássica desenvolvida no jornalismo gaúcho, os setores mais comuns são esporte, polícia, Prefeitura (e seus órgãos mais importantes/ativos), Governo Estadual (junto ao Palácio) e secretarias de Estado, Assembleia Legislativa, Câmara Municipal, entidades produtivas (Fiergs, Federasul, Farsul, Fecomércio e outras), Pronto Socorro, áreas culturais (cinema, teatro) etc.

Em grande parte da minha carreira pude desenvolver um bom trabalho como setorista esportivo, dividindo meu tempo em intermináveis manhãs-tarde-noites-viagens envolvendo a dupla Gre-Nal. A questão que me levou a abordar este assunto é discutir se, para o JORNALISMO é bom existir a figura do setorista, ou se a alternância de profissionais traz mais benefícios ao veículo, ao jornalista e aos leitores de uma forma geral. E como deve agir um setorista em situações adversas.

É um tema palpitante. Do ponto de vista de vantagens, sem dúvida, há muitas, do conhecimento das fontes mais fidedignas ao acesso a informações, digamos, “privilegiadas”, bem como possibilidades de fazer um planejamento mais efetivo de coberturas. Com o tempo, o repórter passa a saber da rotina do setor, das qualidades, defeitos, manias, hábitos dos principais interlocutores. No entanto, a proximidade é quase inevitável e, por vezes, pode se transformar em arriscada “cumplicidade”.

Ocorre que mesmo tendo a vantagem de uma informação em ‘off’, há sempre o risco de um comprometimento de não tocar em determinados assuntos, “fechar os olhos” para outros. Afinal, quem dá quer receber algo em troca e a contrapartida de uma boa informação pode ser o silêncio em relação a outros fatos, geralmente negativos. Lembro de um caso que ocorreu comigo quando fazia o setor de um clube. Na época, existia uma lei que obrigava os clubes de futebol a ter um jornalista na delegação que viajasse ao Exterior. Ficava a critério do clube convidar determinado repórter e o mesmo e a sua empresa aceitar. Não era ilegal, mas talvez não fosse ético.

Pois na ocasião na qual fui escolhido, um diretor me cumprimentou e disse, com um sorrisinho que considerei “suspeito”: “Vais jogar no nosso time?”, como dando a entender que eu deveria fazer a cobertura levando em conta apenas o que fosse bom para o clube. Respondi de pronto: “Ué, vamos ter joguinho de futebol para distrair?”, retribuindo com o mesmo tom debochado, mas deixando claro que havia entendido a “indireta”. Bem, para evitar qualquer constrangimento, na ocasião não houve “jogo” nem surpresas, apenas uma excursão normal.

Mas outros colegas contaram que, enquanto foram setoristas, tiveram o desprazer de sofrerem uma espécie de “assédio” para favorecer determinado dirigente, político ou servidor público em troca de informações. Alguns chegavam a oferecer de dinheiro mesmo. Recentemente, tivemos um caso que veio a público no esporte, quando o técnico Dunga fez um comentário sobre uma pergunta do repórter Rodrigo Oliveira, que questionava sobre a situação do meia Dátolo, então reserva no Inter. Sem reproduzir as palavras, mas o fato, Dunga deu a entender que o setorista estava recebendo algo em troca por se preocupar com a situação do jogador. Depois, o técnico desculpou-se e disse que era uma brincadeira… de mau gosto, eu diria.

Então, ser setorista não é fácil, pois muitas vezes o repórter se afeiçoa às pessoas, à própria entidade e corre o risco de conviver com uma espécie de autocensura. Porém, se for capaz de manter sua autoestima, sua dignidade profissional e souber separar amizade e relacionamento, poderá se beneficiar do profundo conhecimento que venha a ter do setor onde atua. Mas se vacilar, melhor é trocar de ares antes que seja tarde e venha a ser usado por pessoas sem escrúpulos.

Autor

Julio Sortica

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