0O0 Quem descobriu a América? Colombo ou García Márquez? Se penso em Cem anos de solidão, acho que foi o García.
0O0 Segundo Cabrera Infante, García Márquez podia e devia ter dispensado o folclore e o exotismo. Podia, sim. Mas a América é folclórica e exótica. Depois, o cerne dos personagens do García Márquez é da mesma têmpera que o de qualquer pessoa de qualquer lugar.
0O0 Dizem que García Márquez era muito vaidoso. Quem não é? Pelo que tenho visto, poucos escritores não são vaidosos demais. Será que depois de botar um ponto final em Cem anos de solidão o homem não tinha direito a inchar o peito? Eu pelo menos prefiro suportar a vaidade de um García Márquez que a de um Luiz de Miranda, que leva a sério sua candidatura ao Nobel (feita, tenho minhas suspeitas, por motivos satíricos).
0O0 Numa época em que muitos escritores tinham vergonha de narrar, aparece García Márquez pra chutar o balde, com uma inocência delirante ou com um descaro total. Lírico, engraçado, irônico, criativo, violento, Cem anos de solidão é a prova do poder das palavras, do poder de uma história. É a prova de que o problema não é a narrativa, mas a falta de narradores. O que um pouco de imaginação e vigor pode fazer, hein?
0O0 Ninguém vai me ver comparando Gabriel García Márquez a Jorge Luis Borges, a Julio Cortázar ou a Mario Vargas Llosa. Cada um na sua. São escritores muito diferentes, com propósitos muito diferentes. Se você os compara pra entender e curtir essas diferenças, avaliando o que o toca mais e por que o toca mais e quando o toca mais, me parece ótimo, mas pra concluir que fulano é melhor que beltrano? Os bons livros são feitos com tantos silêncios e sombras, e os bons leitores vão sentir esses silêncios e sombras de tantas maneiras, que não tem como você medir a coisa com uma régua. Relaxe, goze. Teu artigo nos cadernos de cultura vai enrolar o peixe amanhã, no mercado.
0O0 Abro aspas pro homem: “Como escritor me interessa o poder, porque ele resume toda a grandeza e a miséria do ser humano.” Isso não justifica, mas explica que García Márquez fosse amiguinho do Fidel, do Clinton, do rei da Espanha, entre outros. Isso foi duramente criticado, e com razão, me parece – mesmo que a maioria dos críticos fizesse a crítica não por motivos éticos, mas porque preferia lamber as botas de outros poderosos. Acho que devíamos criticar também os poderosos que têm fascínio por grandes escritores e os bajulam descaradamente.
Viagem no tempo
Nunca pensei a sério nas viagens no tempo, mas, se a coisa fosse possível, eu gostaria de tirar uma dúvida crucial: o que o pessoal fazia em Gomorra? Em Sodoma é de domínio público. Há quem pense que Gomorra é a versão feminina de Sodoma. Assim estaria explicado o silêncio bíblico.
Fernanda Montenegro
Uma materinha diz que as atrizes da Globo não gostam de fazer papel de avós nas novelas. Alegam, em geral, que não têm aparência certa pra idade das personagens. Aí o repórter dá uma pequena lista das exceções, atrizes que topam qualquer papel. Entre elas, Fernanda Montenegro. Batata: um dos primeiros comentários é de um sujeito insultando Fernanda Montenegro por se achar boa demais pra fazer papel de avó.
Se eu tivesse algum fiapo de esperança no gênero humano, as caixas de comentários na internet teriam acabado com ele.
Alemão batata
Segundo afirmou a promotora Melissa Juchem, os alemães são mais corretos, em matéria de justiça, que os açorianos. Eu só tenho uma pergunta: o nazismo foi um lapso?
Um sonho americano
Li o romance do Norman Mailer quando tinha uns dezenove anos. Não lembrava nada, fora que não tinha gostado. Então, dia desses, resolvi tirar a teima. Minha nossa, provavelmente achei pior que na primeira vez, tanto que mais pulei que li. Como esse cara foi levado a sério, me digam? Abaixo algumas frases que catei na edição da L&PM:
“Romeu soltou uma gargalhada com uma longa nota inexpressiva e surda de permeio, uma gargalhada profissional, a gargalhada profissional de um pugilista que vencera cem lutas e perdera quarenta, e dessas quarenta, doze tinham sido decisões injustas e seis combinadas, e em quatro ele perdera intencionalmente.”
“Surgiu, no entanto, nova preocupação no seu rosto, como se agora precisasse fazer cinco entregas e só tivesse três entregadores.”
“Havia uma tensão em mim que lembrava o gosto do freio na boca do cavalo que quer galopar.”
“Eu tinha o olhar objetivo de um promotor público que abriu mão de uma carreira em cirurgia.”
Não é só que sejam observações totalmente arbitrárias, inventadas. Elas são de mau gosto. Parecem escritas por um humorista satirizando literatices.

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