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A VIDA SEXUAL E AMOROSA DOS DETETIVES

Sexo, punhos e miolos Os detetives mais inteligentes são castos. Mas não por um motivo facilmente explicável, como no caso de Isidro Parodi. O …

Sexo, punhos e miolos

Os detetives mais inteligentes são castos. Mas não por um motivo facilmente explicável, como no caso de Isidro Parodi. O detetive de Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares está preso. Sherlock Holmes confessa não ser um grande admirador de mulheres. Nero Wolfe diz ter medo delas. Poirot admite que algumas podem ser ternas, mas nunca são boas. A vida sexual de Perry Mason se resume a um beijo na secretária.

Os detetives mulherengos são no máximo astutos, como Sam Spade. Um caso extremo é Burns Bannion: se declara burro. Seu negócio é karatê e mesmo aí vence mais devido à força bruta do que à técnica, o que muito desgosta seu mestre japonês. Talvez pudéssemos acrescentar que dá um bom perfil da cultura popular americana.

Os candidatos à normalidade, seja ela o que for, não poderiam deixar de ser homens comuns. Talvez porque a normalidade não seja pitoresca, talvez porque de normalidade baste a nossa, esses detetives são zero, ou quase, em nossa imaginação. Quem são Van der Valk, de Nicolas Freeling, Ben Helm, de Bruno Fischer, Nick Charles, de Hammett, ao lado de um Sherlock e um Poirot, conhecidos até de quem nunca leu um livro deles?

Faltam detetives homossexuais. Eu ao menos nunca vi. Mas proponho um candidato: Nero Wolfe. Sei que seu criador, Rex Stout, era solteirão, mas isso não é uma indicação segura. Agora as futricas que Archie Goodwin arma para cima do seu chefe, Wolfe, dão um arzinho um tanto esquisito às aventuras, e num livro de 1969, Death of a Dude (A Morte de um Janota, segundo os imbatíveis portugueses), Wolfe se mostra ciumento e claramente disputa Goodwin às mulheres. No fim volta atrás e tudo permanece platônico.

 

Gênios excêntricos

Como todo mundo sabe, Edgar Allan Poe inventou o gênero policial, em 1841. Inventou também o detetive cerebral, excêntrico e casto, o chevalier C. Auguste Dupin. Nada disso parece estranho, em se tratando de Poe. Poe tinha mania analítica — vide suas críticas. Seus personagens não vivem, têm um ar de museu de cera, como notou Cortázar. São todos anormais: sádicos, loucos, monomíacos, necrófilos. A vida amorosa de Poe foi intensa. Já a sexual é um mistério. Parece que não existiu. Suas paixões eram sempre impossíveis. Seu casamento com Virginia Clemm, uma menina de treze anos que sofria de algum retardo, parece ter sido apenas fachada, uma forma de Poe se defender de outras mulheres. Qual era o problema? Não tenho a menor ideia nem nos interessa aqui. Interessa que as esquisitices e a castidade de Dupin tinham motivos profundos. Mas e os outros? São meras cópias, meros cacoetes, ou há algo sério por baixo disso?

Os próximos detetives surgiram em folhetins, nos jornais. Lecoq, de Émile Babariau, é mais normal, digamos, do que Sherlock, mas não há nas histórias dele nenhuma intriga amorosa. Há quem atribua o problema à época vitoriana e eduardiana. Mas uma boa intriga amorosa era a coisa mais comum nos folhetins. O que é que os detetives têm ou não têm?

Sherlock foi copiado em boa parte de Dupin, de Lecoq e principalmente do doutor Bell, um médico professor e amigo de Conan Doyle. Bell, além de ser um grande observador com capacidade analítica, tinha atitudes bizarras, o que é uma coincidência alarmante como deve ser uma boa coincidência. Sobre a vida sexual de Bell, Doyle não diz nada.

Os detetives que vieram depois foram muito influenciados por Sherlock. Sexo de menos e excentricidades demais são a receita. Vejamos alguns: padre Brown, Poirot, Nero Wolfe, Ellery Queen, Gédéon Fell, Rouletabille, Perry Mason. Podíamos ainda incluir Miss Marple e Hildegarde Withers, velhas solteironas cheias de manias — as mulheres não alteraram o quadro nem como detetives nem como autoras.

Boileau-Narcejac, no ensaio O Romance Policial (Ática), afirmam que “não há meio de fazer de outro modo” esses personagens. Não explicam por quê. Talvez não expliquem porque é duro explicar que o cara, para ser inteligente, tem de ser esquisito e assexuado. Isso no fundo parece querer dizer que nós, comuns, temos uma sorte danada em não ser gênios.

 

A inteligência à beira do crime

Claro, pode haver razões profundas que levaram Conan Doyle e Rex Stout, por exemplo, a criar detetives excêntricos. Mas é preciso não esquecer que é muito mais fácil lidar com bonecos com manias cronometradas, do que lidar com pessoas de verdade, cheias de hesitações e impulsos obscuros. Depois, eles sabiam que essas excentricidades nos divertem, se fixam facilmente na memória e que, como as crianças, gostamos das repetições. A cada novo livro, esperamos que Nero Wolfe não saia de casa e se sair, tem de ser por motivos de força maior, como alguma reunião de gastrônomos.

Não nos perguntamos os motivos dessas excentricidades. É como se esses homens tivessem escolhido ser assim. A vida é incerta, mutável? Nero Wolfe não. Ele é uma rocha. Ele sempre bebe cerveja, ele nunca sai de casa. Como é gênio, como pode explicar tudo, seu cérebro é outro ponto de segurança no caos do mundo. Não gostaríamos todos de ser assim, simples e infalíveis? Se esses detetives tivessem uma psicologia minimamente humana, suas aventuras seriam mais tateantes, mais turvas. Em vez de nos sedarem, nos inquietariam.

Uma mulher na vida desses detetives seria um transtorno. Pra começo de conversa, os detetives teriam de abrir mão de algumas manias em nome da paz doméstica. Eles, com seus raciocínios matemáticos, na hora do amor ou dos ressentimentos estariam entregues às emoções e se comportariam como uns idiotas, como todo mundo. Aqui a razão estaria no seu lugar de sempre: atrás, se esforçando para juntar os cacos da vida para ver se faz algum sentido.

Esses detetives não usam a inteligência para se conhecer melhor, mas sempre em coisas externas. Podemos intuir algo deles vendo os alvos preferenciais dessas inteligências. Aí é goleada: a morte por assassinato, a coisa mais dramática que há.

Sherlock não sabia que a Terra gira em torno do Sol, mas sabia de cor todos os horrores perpetrados no seu século. Vive entediado, se droga. Só se anima com um bom caso para resolver. Wolfe vive isolado, só quer saber de comida e orquídeas. Para manter isso, é obrigado a desvendar crimes de morte. Ellery Queen viaja pelo mundo atrás de suculentos assassinatos. Seu terror por não encontrar nenhum só é comparável ao terror de encontrar um que não consiga solucionar. Dupin se deleita analisando os detalhes mais escabrosos de um esquartejamento e de um estupro seguido de morte. Parece evidente que esses homens, emparedados na inteligência, têm medo e nostalgia de uma vida mais dramática.

Qualquer um de nós pode matar, basta um bom motivo ou uma boa oportunidade. Mas nos romances policiais, como geralmente os crimes são engenhosos, até os ódios mais loucos precisam esperar e se submeter à inteligência. Isso na realidade é monstruoso. Mas nos livros tem o efeito contrário: estiliza, distancia, torna seguro o crime. Podemos sonhar sem remorsos. Somos inocentes, como os detetives.

 

O afeto que se encerra

Os Burns Bannion, de Earl Norman, os Shell Scott, de Richard S. Prather, os Mike Hammer, de Mickey Spillane, se comportam muito parecido com os bandidos que combatem. Como eles, têm todas as paixões. O problema é que o sexo e a violência são tão exagerados que perdem a realidade. Aí, o que era para ser direto, sórdido, acaba estilizado e estamos novamente numa brincadeira.

A brincadeira diminui com Sam Spade, Philip Marlowe, Lew Archer e acaba com Maigret. Sam não está entrincheirado atrás da inteligência, mas da insensibilidade. Sam não pensa nunca. Nada sabemos de suas emoções: Hammett só nos descreve seus gestos e suas caretas. N’O Falcão Maltês, ele não apenas entrega Brigid O’Shaughnessy para a polícia, como faz piada sobre o enforcamento dela. No fundo talvez Sam esperasse não ser tapeado pela Brigid. Se entrevê a fraqueza na sua brutalidade. Como todo mundo, sentiu o vazio. Como todo mundo, ele quer afeto, mesmo que não confesse isso nem para si mesmo.

Em O Longo Adeus, como notou José Onofre, que sabe das coisas, Chandler botou em cena pela primeira vez o detetive com um envolvimento pessoal: Marlowe é traído por um amigo, Lennox. Mas Lennox não é um grande amigo. É um cara com quem Marlowe tomou uns tragos. Quer dizer, no fim Marlowe está mais amargo, mais derrotado, mas não foi ao limite de si mesmo. Isso acontece no próximo livro, Playback. Aí o caso mostra a pior face da sua profissão e Marlowe, aquele durão sem família, sem amigos, sem amantes fixas, quebra ou quase. Apesar de agarrado a seu orgulho, anseia pela volta de Linda Loring, a quem ele disse, em O Longo Adeus, que o amor deles não duraria um mês. Linda Loring é a chance de Marlowe ser gente. O próximo livro, Poodle Springs, de que Chandler deixou apenas quatro capítulos e que foi terminado por Robert B. Parker, é uma demonstração radical de que os autores não sabiam o que fazer com o Marlowe homem. Pena.

Ross Macdonald conta de Lew Archer pouco além de que é divorciado e que trabalhou para a promotoria. O resto é puro presente, Archer virando dias e noites, sem comer ou dormir direito, até desvendar intrincados crimes de família. Num de seus casos, ao contar algumas coisas para um homem, nota que ele ouve ávido, como se vivesse das migalhas da vida dos outros. Isso toca Archer, porque ele teme um destino semelhante. Que eu saiba, é o único detetive a admitir isso, de viva voz. Mas isso, um dos primeiros dramas do detetive, nunca é levado até o fim.

 

O risco de ser gente

O casamento de Maigret é do tipo tricô de um lado, jornal do outro. Difícil pensar em sexo ou amor. Num dos livros ficamos sabendo que o casal perdeu uma filha pequena. Não sei se sou eu que já ando paranóico, mas isso me soou totalmente falso. A senhora Maigret tem cuidados maternais com o comissário, o que o irrita às vezes.

Maigret, de Georges Simenon, compreende, tem simpatias, piedade. Mais do que qualquer outro, Maigret vive os suspeitos que investiga, mais veste a pele deles. Como os crimes são reais, cometidos por gente muitas vezes comum, com motivos de verdade, não estamos mais num jogo. Com Maigret corremos o risco de ser gente.

Mas Maigret continua essencialmente um espectador. Ele nunca foi levado às últimas consequências. Simenon nota isso com clareza ao falar da diferença entre suas novelas, as Maigret e as duras, como ele chamava as outras. Numa Maigret, tudo é visto pelo comissário que, por mais humano que seja, por mais envolvido que esteja com as pessoas, não é nem a vítima nem o criminoso, personagens levados ao fundo do drama. Nas duras, tudo é visto por estes. Ao terminar uma dura, Simenon estava arrasado, com a pressão baixa, sofrendo os sintomas das suas criaturas. Ao terminar uma Maigret, estava apenas cansado de dez dias de máquina de escrever.

O problema de levar um detetive desses ao seu limite é que não se poderia escrever uma série. Provavelmente, o herói se desintegraria na primeira aventura, como o detetive da Conversação, filme de Francis Ford Coppola. Ou os espiões de Greene, ou de le Carré. Smiley, apesar de judiado — usam a mulher dele para desestabilizá-lo — não é levado até o fim, embora esteja perto em A Vingança de Smiley. Mas muitos outros são destroçados e num processo sempre semelhante: no decorrer do caso, se deixam envolver, se identificam com o inimigo, ou deixam de acreditar na causa pela qual lutam e acabam na morte, ou próximos da loucura. Como se vê, hoje em dia estamos um pouco longe da poltrona de Dupin, do seu cachimbo meditativo e de suas aulas sobre o ilimitado poder da inteligência do homem.

Autor

Ernani Ssó

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