A edição de Zero Hora do dia 28 de março, quinta-feira passada, destacou com chamada de capa para a página 2 a coluna do jornalista David Coimbra, sob o título ‘O jornalismo engajado’. Como tudo o que se refere à comunicação e, em especial ao jornalismo, desperta minha atenção, li, reli, trili (?) com muito interesse. Como em minha carreira não fui fiel a uma única empresa e nem a um tipo de jornalismo, achei a coluna interessante, mas também instigante e, de certa forma, discriminatória. Em um primeiro momento, esclareço. Nos últimos tempos poucas coisas dividiram meu cérebro no momento do pré-sono, quando costumamos refletir sobre alguns temas que nos alegram ou nos atormentam. Em um primeiro momento me senti, de certa forma, ofendido. Em um primeiro momento, repito.
Nos dias que se passaram li e reli novamente a coluna, comentei com alguns colegas, demonstrei indignação até. Em um primeiro momento. Aos poucos fui assimilando a ideia de que o David tem razão. Mas apenas em parte, pois até mesmo os gênios e os semideuses se equivocam, quanto mais os simples mortais. Inteligentes sim, mas mortais e, por isso mesmo, sujeitos a escorregões interpretativos. Pensei qual seria o melhor ângulo ou foco a abordar no sentido de trazer à luz um debate que, se acontecer, sirva para engrandecer e melhorar o nosso jornalismo.
Será que ser caracterizado como assessor de imprensa é uma ofensa “jornalística” ou apenas uma circunstância momentânea de ofício? Pensei em retrucar e dar uma porrada no que poderia ser considerada uma atitude abusiva de quem desfruta de um espaço nobre em um grande conglomerado de comunicação. Será que essa seria a melhor ou mais adequada manifestação? Ou ser irônico e comentar sobre o estilo da abordagem, de dar voltas e voltas e não dizer nada e ficar meio que caetaneando no final.
Em dúvida, pensei que talvez fosse melhor não “comprar briga” e deixar prá lá esse assunto, que devesse levar a nada. Eu deveria entregar esta coluna na terça-feira, como o combinado com o Coletiva, mas a assembleia na Associação dos Cronistas Esportivos, para analisar a complicada prestação de contas do atual presidente, prolongou-se até tarde. E perdi a hora. Solução, entregar no dia seguinte depois de aproveitar o Circuito Brasileiro de Degustação do Ibravin, na Catedral Metropolitana, para refletir melhor. E não é que lá estava a solução para a minha dúvida?
Quando jornalistas se encontram nem sempre querem mudar o mundo… às vezes, apenas o síndico do prédio. E quando jornalistas se encontram falam de política, futebol… e jornalismo. Às vezes, algumas vezes, de bebida e mulheres/homens. Ao encontrar o colega Roberto D’Azevedo, que há 40 anos sugeriu que eu trocasse o estágio no saudoso Diário de Notícias por um na emergente Zero Hora, pintou uma luz. Comentei o assunto com o Beto que tem DNA de jornalismo espalhado em cada célula. Filho de jornalistas e professores de jornalismo e pai de jornalista. Sabe das coisas. É espirituoso, mas perspicaz e de raciocínio rápido.
Ele também leu a coluna do David e, talvez menos impulsivo do que eu na avaliação do todo, não se sentiu ofendido com a caracterização do jornalismo engajado, aquele jornalismo desenvolvido por assessores de imprensa, como escreveu o David. A resposta dele foi simples: “no jornalismo atual, TODOS somos assessores de imprensa, de uma ou de outra mídia”. “No jornalismo esportivo ainda há uma certa resistência, um tipo de jornalismo diferente”, emendou. Pensei rapidamente e concordei. Realmente, independente de qual seja seu veículo, seu patrão, você desenvolve um jornalismo engajado. Se você não se engajar ao perfil do veículo que representa, não estará sendo honesto com quem paga seu salário. É melhor trocar de patrão ou de profissão. Você é um assessor de imprensa do seu patrão, seja ele quem for.
Então, concordo com o David sim, porque ele também faz um jornalismo engajado. Um jornalismo engajado à RBS. E, em resumo, é um assessor de imprensa da RBS. E o faz com competência, mas não precisa ter vergonha de admitir isso. Vergonha é ser incompetente e desonesto. O resto é conversa pra boi dormir. Esta história do patrão preservar a credibilidade para ganhar dinheiro, respeitar o reporterzinho mixuruca que mora num quarto e sala da Azenha, é balela. Jornalismo hoje, e negócio. Ponto final.
Nesse tempo de jornalismo presenciei muitas coisas boas nas empresas nas quais trabalhei, mas também guardo comigo a tristeza e decepção de ter visto colegas, não reportezinho mixuruca, mas competentes profissionais sendo demitidos por pressão de anunciantes ou amigos de diretores, incomodados com algumas reportagens. Os patrões não hesitaram em fazer uma execução sumária. Um dos colegas hoje é diretor de uma grande rede de comunicação, o outro, um talentoso chargista, infelizmente faleceu. Há também o caso de um outro excelente repórter que morava num bairro da Zona Norte e que certo dia foi defenestrado porque escreveu (boa) reportagem sobre os banheiros do Parque da Redenção. Mas a caracterização escatológica da matéria, embora real e verdadeira, não agradou os patrões e o repórter foi deslocado para uma Sibéria jornalística. Anos depois voltou e, aos poucos, foi conquistando o espaço que seu talento merece.
O David é muito inteligente, acima da média e sabe jogar bem com as palavras, quase não deixa furos. E eu o admiro. Por isso, agora fiquei com outra dúvida: devo ser sincero ou hipócrita? O que será que um professor de jornalismo deve dizer a seus alunos a esse respeito? Com a palavra quem se interessa por jornalismo.

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