A ficção científica tem muitas correntes, coisa nada espantosa num gênero com milhares de autores, mas parece haver uma predominância desgraçada nos seus temas: a aniquilação do planeta, o extermínio de alienígenas quase sempre malvados, a conquista do espaço e robôs com sentimentos. Entende-se fácil essas fixações, mesmo uma besteira como robô com sentimentos. Veja, eles são apresentados, praticamente sempre, com forma humana. Daí a querer botá-los no circuito da vida…
O estranho é que a coisa começou muito melhor. Começou com o doutor Frankenstein. Hoje, com a engenharia genética arrombando a porta do nosso quarto, a gente pode achar ridículo um médico costurando pedaços de cadáveres. É um risco comum a qualquer produto da ficção científica, vide a nave com pedal (embreagem e acelerador) do Flash Gordon. Mas a imagem da criatura é emblemática: Boris Karloff com a cabeça chata, um parafuso no pescoço e uma palidez esverdeada é a cara da audácia e da miséria humanas. O doutor Frankenstein quis criar a vida sem se submeter à natureza. Ele quis desvendar o segredo dela. E conseguiu. A coisa desandou, mas ele conseguiu. Quer dizer, depois dele algum outro, com igual orgulho e curiosidade, tentará de novo. Mesmo que não tivesse conseguido, outro tentaria. Frankenstein, o retorno, não demorou — nas telas e fora delas.
Na esteira da criatura, vieram os robôs ou computadores — o mais famoso é Hall, de 2001, Uma Odisseia no Espaço, de Arthur C. Clarke. Permaneceu o medo de sempre: o homem ser vítima de sua própria inteligência, ou a suspeita de que nossa inteligência não é lá essas coisas. Hoje não se pensa a sério que estamos invadindo terreno divino, apenas que lidamos com forças muito complexas, com forças que não dominamos agora, mas amanhã, quem sabe? Pode ser petulância demais para uma espécie que não consegue prever, com certeza, se chove no fim de semana. Mas é isso: petulância não nos falta. Já ética…
Em seguida, entram em cena os andróides, um composto de carne e eletrônica. Há os otimismos bobos tipo Ciborg, O Homem de Oito Milhões de Dólares, aquela velha série da tevê, mas tem também A Formiga Elétrica, um esplêndido conto de Philip K. Dick, na coletânea Máquinas que Pensam (L&PM). Dick, aliás, foi quem deu o próximo passo: em O Caçador de Andróides, os andros são de carne e osso, carne e osso de laboratório. O último modelo é o Nexus-6, com vários tipos e cada tipo com várias cópias. Eles são fortes e espertos, mas não duram muito. Algo na biologia deles entra em pane lá pelas tantas. Sob pressão, quando humanos reagem, eles são tomados de uma espécie de letargia. Agora, a grande diferença é que eles não têm empatia por nada, questão levantada no título original do livro: os andróides sonham com ovelhas elétricas? Sem empatia, sabe-se, a violência é banal.
Agora, uma boa cópia de um humano foi feita por Frank Herbert, na série Duna. O espadachim dos Atreides, Duncan Idaho, morreu, mas algumas células originais foram guardadas. Daí os Tleilaxu — nos seus tanques axlotl, considerados infames por todas as raças, a ponto de Tleilaxu ser sinônimo de sujo — produzem inúmeros Idahos. As cópias não são exatamente iguais entre si. Umas saem melhores do que outras. Todas têm as memórias do Idaho original, menos a memória do que as cópias anteriores viveram, coisa que só muda no último romance, As Herdeiras de Duna. Os tormentos de uma das réplicas de Idaho é um dos pontos altos da ficção científica, embora sejam abordados meio de passagem, quando, acho, mereciam um romance inteiro.
No volume O Imperador-Deus de Duna, os Tleilaxu, a partir das células de um homem, fazem uma mulher, Hwi. O original era uma pessoa muito querida (e inimiga) do imperador. Daí que Hwi será sua Julieta e também sua destruição. Mas Herbert não se detém nas implicações do caso. Por falar em Julieta, em Máscaras Venecianas, Adolfo Bioy Casares conta a história dos apaixonados por Daniela. Um deles, abandonado, pede a ela algumas células para fazer uma réplica. Ele fica satisfeito. Mas a visão que temos da mulher, apenas entrevista, impassível, devorando chocolate interminavelmente, é inquietante.
Veja, se ser um filho adotado ou de proveta pode render anos de análise, imagina ser a décima cópia de uma pessoa, ou ter os genes manipulados para se fazer um atleta, um operário padrão ou um assassino — tudo depende de quem paga a pesquisa. O que acontecerá com a cabeça dessa gente? Sonharão com clones de ovelhas escocesas? Abrem-se possibilidades vertiginosas para romances, novelas, contos. Os temas não são propriamente novos, mas uma coisa é nova: agora é pra valer, agora esses velhos sonhos, ou pesadelos, são reais.
Como se vê, os cientistas estão a anos-luz na frente. A ficção científica comeu uma mosca federal no caso da engenharia genética. Mais: corre o risco de deixar de ser um gênero de antecipação para ser um gênero realista.

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