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Mulheres caminhando

Na adolescência, descobri Rubem Fonseca na antologia Homem de fevereiro ou março. Me babei: tinha mulheres. Mulheres de carne e osso não são estranhas …

Na adolescência, descobri Rubem Fonseca na antologia Homem de fevereiro ou março. Me babei: tinha mulheres. Mulheres de carne e osso não são estranhas na literatura, nem na brasileira, mesmo sendo uma literatura muito cabaçuda como me disse uma vez Caio Fernando Abreu, sem se eximir. Em Fonseca, uma grande novidade: as mulheres caminham. Me diga, rapidinho, em que autores as mulheres caminham? Num Henry Miller há sexo a três por quatro, mas não me lembro das mulheres caminhando. Cortázar, um escritor que gostava de caminhar e em quem o erotismo é importante, tem mulheres caminhando? Adolfo Bioy Casares, em quem o erotismo também é importante e que, segundo Emir Rodríguez Monegal, leva vantagem sobre Cortázar nesse ponto, tem mulheres caminhando? Gostaria de ver o que os críticos, que sempre descobrem tudo, têm a dizer sobre mulheres caminhando na ficção. Fonseca estava na rua com seus personagens, olhando as mulheres — e eu via, eu sentia cada músculo: o molejo, o veludo. É demais.

 

A força humana

O personagem bombado do Fonseca: “(…) além disso só tocam música legal, daquelas que você tem que ficar ouvindo e que faz mulher boa na rua andar diferente, como cavalo do exército na frente da banda”.

 

Dicionário do mau digitador

Desmaior. Um desmaio que dá coma.

Subirtamente. Coisa de macaco, subir sem aviso e com grande agilidade.

Calmente. Sedativo vencido.

Interessente. Um sentimento curioso.

 

Marcia Tiburi e a guerra no trânsito

A filósofa, num artigo chamado “Fascismo potencial”, na revista Cult, começa assim:

“Theodor Adorno publicou em 1950 um estudo psicossociológico com a intenção de abordar o que surgia naquela época como um novo tipo subjetivo. Hoje estamos acostumados com ele. A característica fundamental do que se chamou de ‘personalidade autoritária’ era a combinação contraditória, num mesmo indivíduo, entre uma postura racional e idiossincrasias irracionais.

“Na visão de Adorno, a pessoa marcada por esta personalidade seria um tipo individualista e independente enquanto teria, ao mesmo tempo, uma propensão fortíssima a se submeter à autoridade”.

Assim segue, sempre muito culta, sempre muito inteligente. Mas lá pelas tantas ela dá um exemplo do que chama de “ódio barato” que, well, vamos ver. Ela acha que a implicância de tantas pessoas com os motoqueiros está limitada a “um olhar de dentro das carcaças de seus carros”. Os motoqueiros denunciariam a burrice do sistema, ao ocuparem a rua “com outra alternativa do que a prescrita pela indústria da cultura automobilística”.

Em que ruas a Marcia Tiburi anda? A maioria absoluta dos motoqueiros anda acima da velocidade, costura o trânsito pela esquerda e pela direita, tira fininhos a todo momento e corta a frente de qualquer carro, não importa o tamanho. Eu vi, no Bom Fim, perto do Pronto Socorro, um motoqueiro ultrapassar um táxi pela direita, no vão entre o carro e o cordão da calçada. Pra azar dele, a passageira abriu a porta. Não sei o que Theodor Adorno diria do tombo que ele levou.

Os motoristas não são santinhos, claro. Muitos fazem horrores, vemos todo santo dia. Só não fazem mais e pior por pura impossibilidade física. Se seus carros fossem motos, pode crer, eles fariam.  Enfim, pra mim o problema é a ocupação das ruas com outra alternativa que a prescrita pelas leis do trânsito.

 

Antropofagia

Esse negócio de antropofagia sempre me pareceu uma mera piada do Oswald de Andrade. Porque antropofagia é o que todos os bons autores sempre fizeram, não? Ou o que o Machado de Assis fez com o romance inglês e francês não é antropofagia? O que o Robert Arlt fez com a literatura popular e Dostoiévski não é antropofagia? O que o Jorge Luis Borges fez com praticamente tudo não é antropofagia? A diferença é que alguns autores têm mais dificuldades na hora de digerir e outros comem quietos.

Autor

Ernani Ssó

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