Na semana passada tive uma discussão forte pelo Facebook com alguns colegas. Assunto: jornalismo. Discussão forte, mas digamos, civilizada, no bom sentido. Esses colegas já percorreram uma longa estrada no jornalismo gaúcho. E ao estrear como colunista do Coletiva.net, lembrei que neste mês de março estou completando 40 anos de profissão desde meu primeiro estágio no Expresso Zona Norte, liderado pelo editor Luiz Vaz, o secretário de redação Vidal de Negreiros (o jornal era de bairro mas tinha esse cargo) e o diretor comercial Marcos Profes. Boas lembranças… mas, voltando à “vaca fria”, o motivo da discussão foi uma crítica à qualidade do jornalismo atual.
Entendem os colegas que os textos andam muito ruins, alguns nem ao menos respeitam a velha regra do antigo lead: o quê, quando, onde, como e porquê. Concordei apenas em parte, não por solidariedade ou “coração mole”, mas porque entendo que o jornalismo passa por um ciclo de mudanças, de evolução – o que nem sempre significa melhorar – em termos de processos tecnológicos e até ideológicos.
Uma colega argumentou que mesmo enfrentando problemas o fundamental é a verdade sempre ser preservada. Neste ponto concordo plenamente e, como ressaltei, seria um idiota se pensasse diferente. No entanto, nem sempre o jornalista consegue transmitir a totalidade dos fatos. Ou por não descobrir tudo o que deveria ou porque, caso tenha as informações, depara com restrições, orientações sobre como proceder na empresa em que trabalha. Sabemos muito bem que a censura interna existe. Quanto a isso há duas opções: pedir demissão ou tentar dar a informação da melhor maneira possível.
O debate – expressão mais adequada do que discussão – prosseguiu com ênfase na qualidade do produto final. Acompanho o jornalismo em suas mais variadas modalidades, por gosto e necessidade de estar informado, tentando sempre me atualizar. Pode ser que estejamos vivendo uma crise de qualidade, mas não é uma prerrogativa atual. Ou será que nos tempos áureos do jornalismo das máquinas de escrever, das laudas e dos gravadores tipo “caixotes” se fazia um jornalismo perfeito, sem reparos, com coberturas exemplares? Claro que não. Todos cometemos erros, ninguém é perfeito. Fiz muitos textos ruins, de não conseguir boas informações e “encher linguiça”, precisei reescrever. Também fiz coberturas fracas ou menos boas que meus concorrentes, mas sempre tive a humildade de reconhecer meus pontos fracos e aprender com as qualidades dos rivais.
Hoje sou menos ruim (ou um pouco melhor) do que antes, não apenas pelo aprendizado, mas também porque tive sorte de contar com o apoio de alguns ótimos editores (tive até coopydesk, imaginem!) e colegas que me ajudaram a tratar melhor o texto, checar informações, desenvolver formas de dedução, de pensar, ligar fatos etc. Pois bem. Vivemos uma espécie de “fast food jornalístico”. Tudo é feito com pressa, rapidamente para abastecer sites, blogs, twitters, Facebook etc. Com raras exceções, como em jornais e revistas, não há tempo para pensar, elaborar bem uma reportagem, revisar um texto.
Culpa de quem? Do jornalista que se acomoda, do currículo fraco, dos professores, dos editores, da empresa? Talvez cada um tenha uma parcela de culpa, mas isso não significa que tudo o que está sendo produzido agora seja uma merda. Vimos surgir bons jornalistas da média (e nova) geração, gente que escreve bem, se expressa com eficiência. Mas, como antigamente, também há profissionais fracos, despreparados e sem talento. Estes deveriam, para o bem do jornalismo, dedicar-se à outra profissão.
O debate é salutar, o questionamento, bem-vindo. E deveria acontecer mais vezes, não apenas entre antigos colegas pelas midias sociais, mas provocado, estimulado de forma didática por nossas entidades representativas como o Sindicato dos Jornalistas, a ARI, Fenaj e outras. A propósito, o setor de publicidade parece mais atento a está dando um passo à frente como demonstra a iniciativa da ABA, Sinapro, Abap e ARP, com a realização do ENAA – 1º Encontro Nacional de Anunciantes e Agências – O Futuro da Comunicação na Era da Sociedade do Conhecimento, marcado para 12 de março no BarraShoppingSul, em Porto Alegre. Estarei lá, pois jornalismo e publicidade são dois dos muitos filhos da Comunicação que precisam aprender a andar juntos.

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