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Seis propostas para o novo milênio

Quase quinze anos em pleno novo milênio e até agora não me parece que as propostas do Ítalo Calvino tenham sido ouvidas. Ou foram …

Quase quinze anos em pleno novo milênio e até agora não me parece que as propostas do Ítalo Calvino tenham sido ouvidas. Ou foram muito ouvidas e pouco seguidas, como sempre. Você lembra assim na bucha? Leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e aquela que o Calvino não teve tempo de esmiuçar, consistência.

Calvino não me proporcionou nenhuma revelação. Por puro instinto, eu escolhi, desde o começo, escritores que buscavam isso de que ele fala.

Acho gozado que o texto das Seis propostas falhe um monte de vezes nos quesitos que defende. Quase sempre soa afetado, pomposo, arcaico. Mas é bem provável que a culpa não seja do Calvino e sim da tradução do Ivo Barroso. Nota-se em cada palavra o rábula querendo impressionar a patuleia.

Adolescentes com mais de trinta anos

Nas páginas de Digam a satã que o recado foi dado, do Daniel Pellizzari, há um punhado de adolescentes com mais de trinta anos, ou simplesmente de pessoas malucas, burras, confusas. O irônico é que o discurso mais claro e sensato é de uma criança de treze. Você acha que isso acontece por acaso?

Um resenhista disse que esses personagens são vazios, gente perdida que fica jogando videogame e se drogando, um bando de idiotas e inúteis. Tudo bem. Aí diz que eles não envolvem o leitor, que não têm charme nenhum. Lembro então que Dostoiévski dizia: como lidar com pessoas comuns? Como deixá-las fora da literatura, já que o mundo está cheio de pessoas comuns? Claro, o mais difícil é tornar pessoas comuns interessantes num livro.

Pellizzari corre o risco. Não só. Dá a palavra aos personagens. Cada um desses idiotas fala na primeira pessoa. Você pode se interessar mais por um ou por outro e o Pellizzari pode ter acertado mais com um que com outro. Cabe ao resenhista deslindar isso do modo mais claro possível. Afirmar por afirmar é complicado. Lembre-se que muita gente afirmou que a Terra era plana.

Com vocês, Maurício Melo Júnior, direto de Brasília para o Rascunho, em Curitiba: “Aprofundando um pouco mais a questão das múltiplas vozes narrativas, em alguns momentos o empobrecimento semântico faz cair o ritmo do texto e crescer os apelos à subliteratura. Um desses instantes, certamente o mais óbvio, é quando Barry toma a palavra. De repente o leitor cai numa prosa de Ferréz, nosso baluarte da periferia, e aí o discurso não passa de uma agressão vazia à gramática. Aliás, quanto à dita literatura periférica, ao contrário do gigolô das palavras de Luis Fernando Verissimo, tal fenômeno ocorre não pela necessidade de bater nas regras gramaticais para ver quem manda no pedaço, mas pelo simples fato de o autor desconhecê-las”.

Gozado, o trecho que Melo Júnior (e o Melo Pai, passa bem?) considera o mais fraco é o meu preferido. É de grande fluência. Embarquei direitinho na falação de Barry. Essa fluência nasce dele, da sua total falta de desconfiômetro ou de censura, de uma raiva que abrange tudo porque vê tudo igual ou não vê nada a dois dedos do nariz. Barry fala todo errado, não o Pellizzari. Barry não agride a gramática pra deixar o Melo Júnior nervoso, ele fala assim, ele é assim. O fato de o cara ser um maluco desonesto preocupa menos o Melo Júnior que os plurais errados. Estranho. De um personagem eu espero que ele esteja o mais possível de corpo inteiro, que seja vívido, que eu possa lembrar dele como uma pessoa. É o que acontece com Barry, na minha opinião.

Já que o Melo Júnior invocou o Luis Fernando Verissimo, vamos a uma citação da crônica aludida: “A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer ‘escrever certo’ não é certo mas é claro, certo? O importante é comunicar. (E quando possível surpreender, iluminar, divertir, comover… Mas aí entramos na área do talento, que também não tem nada a ver com Gramática.)”.

A mim ao menos Pelizzari surpreendeu, iluminou, divertiu e comoveu com seu Barry. Veja, só o modo de falar do sujeito deu o seu retrato. As ações, poucas, apenas confirmam o que a linguagem criou.

Amores expressos

Eu sou contribuinte como todo mundo – meio contra a vontade, como quase todo mundo – e acho mais aceitável bancar uns dez, doze livros, do que um filme ou salvar banco que faliu ou perdoar dívidas de multinacionais com o fisco. O filme sai mais caro e tem toda a chance de ser uma merda, como a gente comprova tristemente quase todas as vezes que se arrisca a ver filme nacional. Mais caro? Com a grana da produção de um filme você pode sustentar vários escritores por mais de um ano e ainda publicar os livros deles. Com a grana que salvou o banco dava pra construir uma linda prisão de segurança máxima onde o banqueiro e vários empresários poderiam passar uma temporada.

Um lance de matemática básica: se você aposta numa dezena de livros, pode quebrar a cara, sim, mas tem mais chances de acertar do que se aposta num único filme. Se você conseguir produzir uns dois livros razoáveis, pode-se falar em sucesso. Estou sendo otimista. A questão é: vale a pena correr o risco? Sabe que eu acho que sim? Literatura, arte, educação me parecem questões de saúde, como os investimentos de vários outros países comprovam. Todo investimento em arte ou educação não tem um retorno tão mensurável quanto o investimento numa fábrica de bolacha. Só que a humanidade pode passar sem bolacha.

Autor

Ernani Ssó

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