Dias atrás, lembrei-me da enorme vaia que Lucinha Lins tomou na final de um festival de música da década de 80, ao vencer Guilherme Arantes. Uma estrondosa vaia. Havia vaias para filmes, vaias para peças de teatros, vaias para pessoas, vaias para comportamentos, vaias. Hoje não há mais. O mundo parece estar totalmente apático, concordando com tudo.
Mas há revoltas, dirão alguns. Veja o caso do movimento contra o aumento das passagens, em julho passado. Claro, as pessoas não foram (ou não em sua totalidade) lobotomizadas. Mas se considerarmos o movimento contra o aumento das passagens, onde ele está agora? Sumiu. Evaporou. Isto quer dizer que as pessoas que participaram deste movimento estão de novo sentadas em seus sofás. Novamente, é uma minoria da minoria que se mobiliza e vai às ruas de forma ordeira. Não contam naturalmente como mobilização decente iniciativas de quebra-quebra ou Black Blocs, ou seus genéricos. Aí é a desordem pela desordem.
Falo de vaia. Desaprovação. Crítica. Contestação. Raciocínio. Análise. As coisas vão acontecendo e as pessoas seguem na frente da TV ou do computador, tanto faz. Políticos podem fazer o que quiserem, elas aceitam passivamente. São manipuladas para comprarem ou consumirem “artista” A ou B, produto A ou B, e lá se vão de forma bovina a consumirem. O cérebro das pessoas parece estar reduzindo, por absoluta falta de uso.
Sinto falta de vaias. Como era bom quando as pessoas desaprovavam algo porque ELAS desaprovavam, não porque eram mandadas a desaprovar. Gostavam porque gostavam, não porque simplesmente são ordenadas a fazê-lo (e o que é pior, o fazem!). As pessoas eram mais livres.
O que é veiculado como notícia hoje em rádios, jornais, TV, Internet, na realidade não é notícia. As rádios estão cheios de comentaristas que pensam pelas pessoas. Mas a culpa – se é que ela existe – não é somente destes comentaristas. Mas principalmente das pessoas, que aceitam e querem que alguém pense por elas. A preguiça de pensar, somada com a dificuldade de raciocínio, está tomando conta da mente da população.
Passando por um armazém hoje pela manhã, ouvi a apresentadora dizer, referindo-se à nova campanha de um frigorífico: “Mas o Roberto Carlos não aparece comendo a carne!”. Gente, pelo amor de Deus, isto é assunto?
Como humano, naturalmente sou em vários momentos levado pela maré. Me pegam. Quando me distraio, fui pego por uma marca, uma empresa, uma iniciativa. Tarde demais, já foi. Mas acho que devemos estar atentos. Devemos principalmente deixar de ser tão parte integrante da massa. Somos só uma massa que se move na direção de produtos, os consome e parte na direção de outros produtos. Sem crítica.
Fôssemos desenhar o ser humano do século XXI, provavelmente ele teria muitos olhos, pois a civilização é totalmente visual, tanto para ver o mundo que o cerca (todo mundo está postando), como para ver a si mesmo (gerações de pessoas que se amam. E é recíproco da parte das pessoas para consigo mesmas). Ouvido, provavelmente um. Pois embora haja o batidão dos funks, os sertanejos universitários e afins, dada a baixíssima qualidade musical, não são necessários dois ouvidos. Um só é mais do que suficiente. Caixa craniana naturalmente com as dimensões de um animal pequeno. O uso do cérebro está sendo tão reduzido que não há motivo para um tão grande quanto o humano. E há vantagens. Vamos ter menos cabelos para cortar, para pentear, chapéus menores. O estômago teria que ser aumentado. As pessoas estão vorazes para comer, comer, comer. Então, o estômago, para caber tudo o que os vários olhos enxergam em propagandas querem comer, terá que ser bem maior. E muitos braços para carregar os produtos de consumo: TVs, roupas, celulares, bem como todas as tranqueiras que fazem mal à saúde, mas que são consumidas em massa no supermercado porque são vistas nos anúncios.
Saudades de uma vaia.

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