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Maratona Cortázar

Meses atrás, ao me deparar na rede com gente falando mal do Cortázar, tomei uma atitude radical: reli todos os contos dele, mais uns …

Meses atrás, ao me deparar na rede com gente falando mal do Cortázar, tomei uma atitude radical: reli todos os contos dele, mais uns romances de quebra. Mentira, mentira deslavada, eu já tinha planos de reler o homem e não levei os detratores a sério, sabe como é, muita voz a todo volume, muito punho fechado batendo na mesa e muitos olhos no rodapé, à nossa procura. Se esse comportamento não funciona comigo nem em discussão de boteco, por escrito muito menos. É que eu só me impressiono com argumentos claros e exemplos insofismáveis. Bom, também me impressiono com mulheres bonitas. Se inteligentes, mais ainda. Se bem-humoradas, pode crer, peço em casamento.

Fora os contos e romances, li livros de correspondência, entrevistas, declarações de outros escritores, artigos e reportagens. Só me escapei dos ensaios porque tudo o que encontrei, contra e a favor, me pareceu ilegível. Como isso — achar muito texto ilegível — me acontece seguido, estou preocupado. Já marquei consulta com o Analista de Bagé. Se não for trauma na infância, como uma praga de madrinha, pode ser algum distúrbio intestinal. Sabes-se, oserhumano é mais complexo que letra de pagode.

Depois disso tudo, era de se esperar que eu escrevesse um livro de umas oitocentas páginas, mais cinquenta de bibliografia. Mas — sei que não vão acreditar em mim — tenho mais o que fazer e tenho o maior respeito pelo saco dos meus três fregueses. Eram quatro antes da morte do Paulo Hecker Filho. Note-se que não incluo os parentes, que, de resto, não me leem.

Outra coisa: deixo de lado as maledicências políticas. Nos anos 70, uma militante de faca na bota me disse que não gostava do Cortázar porque o texto dele era envolvente demais, não permitindo assim um distanciamento brechtiano durante a leitura. Achei sensacional a ideia de que um escritor tem de escrever mal que é pro leitor ter certeza de que conseguirá pensar. Isso explica muito escritor que anda solto por aí, não? Mas desde esse dia eu tirei meu cavalo ideológico da chuva de perdigotos das assembleias.

Cara e coroa

Como os argumentos dos detratores não existem ou, quando existem, têm mais furos que o mar dos buracos em que se perdeu o Submarino Amarelo, me perguntei, como bom perguntador, a troco de quê tudo isso? Talvez eu tenha começado a entender ao topar com esta declaração do Gabriel García Márquez: “Os ídolos infundem respeito, admiração, carinho e grandes invejas, claro. Cortázar inspirava todos esses sentimentos como muito poucos escritores, mas além disso inspirava outro menos frequente: a devoção”. Se você causa devoção em dez pessoas, é batata, como dizia meu avô, causará desprezo em outras dez. Entre esses dois polos, prefiro o momento em que o pêndulo fica no meio. Não é porque eu gosto muito do Cortázar que vou deixar de enxergar os defeitos dele, nem vou cuspir no talento do homem porque nem sempre ele é perfeito, como se alguém fosse.

Gigante & anão

Encontrei muitos comentários do tipo Cortázar era um gigante nos anos 60 e 70, mas nas últimas décadas baixou pra uma estatura normal, ou se tornou anão. Não é bem assim. Quando Cortázar era novidade, evidentemente tinha mais gente escrevendo sobre ele em jornais e revistas, ou falando nos bares. Mas isso não fazia dele um gigante. Ou fazia dele um gigante em termos de popularidade apenas.

A crítica o tratou mal desde o começo. Os primeiros livros — os sensacionais Bestiario e Final de juego — nem foram lidos ou foram pouco lidos, apesar de vários contos de Final de juego terem começado a dar o que falar em revistas literárias. Las armas secretas, por causa de “El perseguidor” causou alguma emoção. Alguma, porque se limitou ao meio literário. Los premios, apesar de muito divertido e de um punhado de personagens mais concretos que muita gente que a gente conhece, foi considerado mais ou menos. A quase totalidade dos resenhistas bateu em Rayuela. O romance foi sucesso de público apesar dos críticos. Histórias de cronópios y de famas, hoje respeitado até pelos inimigos do Cortázar, também levou pau na época em que saiu. Se tornou famoso o lamento de uma senhora argentina: “E dizer que era um de nossos escritores mais sérios…”. Não sei quem era ela, mas, se for Victoria Ocampo, eu não ficaria surpreso. Cortázar jamais deixou de ser sério, num sentido que essa senhora nem sonhava: o da mortal seriedade da criança que brinca.

62 — Modelo para armar praticamente não teve defensores. Continua não tendo, com exceção de alguns matusquelas de plantão, como eu. Nem a esquerda, que naqueles dias faturava com o prestígio do Cortázar, engoliu Libro de Manuel. Os livros de contos Alguien que anda por ahí e Queremos tanto a Glenda levou um belo sarrafo. Até os que amavam tanto a Julio não gostaram, eu inclusive, tirando uns dois ou três contos.

Então, quando se fala em reavaliação crítica, eu fico com um pé atrás. Porque, pelo que vi, essa crítica não mudou grande coisa. Às vezes mudou apenas o nome dos críticos, tanto contra como a favor. Pior, a irritação que Cortázar causava em escritores dos anos 60 e 70 continua muito semelhante à que causa nos escritores dos anos seguintes, alguns de hoje inclusive. Acho isso interessante, porque esses escritores têm traços comuns, como não causarem, em seus leitores, a simpatia desmedida que Cortázar causa nos dele e terem um texto que parece sopa de serragem se comparado com o texto do Cortázar. Alan Pauls, que despacha uma série de lugares-comuns sem perder o ar de solenidade, que o diga.

Há depoimentos datados das décadas de 60 e 70 em que Cortázar concorda com algumas das críticas e se ri da idiotice de outras. Também se ria dos elogios desmedidos, sem argumentos, sem exemplos. Mais, não lia trabalhos acadêmicos sobre sua obra, dizia que por falta de tempo, mas fica evidente que não tinha o menor saco pra eles. Só ganhou um prêmio em toda a vida. Foi na França, se não me engano, por Libro de Manuel. Não precisa dizer que foi por motivos políticos, não literários.

Quando reclamaram de sua militância política, invocando os altos destinos da literatura, já que a relegara a um segundo plano, ele disse que pouco ligava pros altos destinos da literatura, que pra ele uma ação ética valia qualquer livro que pudesse escrever. Pode parecer um peitaço da vaidade, não? Uma bela enrustida, não? Mas ele publicou Libro de Manuel sabendo que, literariamente, o livro deixava a desejar. Publicou por motivos pedagógicos — note-se, em benefício da esquerda, não da direita. E não ganhou um tostão com ele. A grana foi toda pra oposição a Pinochet. Entre parênteses: admiro essa banana a uma carreira literária, mas sou egoísta, preferiria mais livros do Cortázar. O que ele escrevia, só ele escrevia. Já sua contribuição política, em termos práticos, foi mínima e poderia ser dada por quase qualquer pessoa. Mas ele tinha esperanças e era um bom sujeito, ao contrário de mim.

Cortázar nunca se declarou um escritor profissional e disse, muitas vezes, que se interessava mais por autores marginais, esquisitos, guerrilheiros da literatura. Talvez ele possa ser incluído nessa categoria. Quer dizer, a falta de consagração acadêmica foi bem merecida e bem-vinda.

Quanto à imortalidade? Eis o capítulo 107, de Rayuela, em tradução caseira: “A melhor qualidade de meus antepassados é a de estarem mortos; espero modesta mas orgulhosamente o momento de herdá-la. Tenho amigos que não deixarão de me fazer uma estátua em que me representarão de bruços no ato de chegar a um charco com rãzinhas autênticas. Botando uma moeda numa ranhura, me verão cuspir na água, e as rãzinhas se agitarão alvoroçadas e coaxarão durante um minuto e meio, tempo suficiente para que a estátua perca todo o interesse”. Há o comportamento de uma vida toda embasando essa brincadeira.

Autor pra adolescentes

Outra coisa muito difundida é que hoje Cortázar é lido apenas por adolescentes. Ou, pelo menos, que a maioria dos seus leitores é de adolescentes. Há nessa afirmação a insinuação de que nos velhos tempos não era assim, que Cortázar também era lido pelos velhinhos. Besteira. Cortázar sempre fez mais sucesso entre os jovens. Foram os jovens que fizeram a fama de Rayuela. Cortázar sabia disso e gostava, mesmo que não escondesse uma certa surpresa com o comportamento dos velhinhos. Eu, mais cético e talvez cínico, não sinto surpresa nenhuma.

Há ainda nessa afirmação uma acusação não muito velada: os adolescentes são cidadãos de segunda classe, então não merecem ser levados muito a sério. Interessante. Eu gostaria de saber quantos dos leitores que leram Cortázar na juventude ainda o releem hoje, como e por quê. Vou ficar no desejo, claro. Só posso falar na minha própria experiência. É o que farei em notas futuras, caso meu saco dê pro gasto.

Há fãs e fãs

Cortázar, em entrevista a Paris Review, fala que o sucesso lhe permitiu viver de direitos autorais, mas que em grande parte era uma chatice, não podia ir à praia sem que em cinco minutos aparecesse um fotógrafo. Pose? Ele era um ferrenho defensor da privacidade, basta ler suas cartas pra notar — fora as que escreveu pros Jonquières, não há confidência nenhuma e mesmo nestas a coisa é das mais leves e indiretas. Nos anos 50, quando não era famoso, quando apenas começava a ser lido na Argentina, se recusou a dar uma entrevista na televisão pra falar de Los premios, pra desespero dos editores. É que ele achava que os livros tinham de se virar sem propaganda, pelo menos feita por ele mesmo.

Mas a fama trouxe algumas coisas bonitas. Um pouco antes de morrer, Cortázar estava em Barcelona, andando à noite pelo Bairro Gótico. Havia uma garota, americana, bonita, que tocava violão e cantava meio como Joan Baez. Um grupo de jovens estava ao redor, ouvindo. Cortázar parou, meio afastado, nas sombras. Dali a pouco, um jovem de uns vinte anos se aproximou dele com um bolo na mão e disse: “Julio, pegue um pedaço”. Ele pegou, comeu e disse: “Muito obrigado por ter vindo e me dado o bolo”. O rapaz: “Olhe, eu lhe dei tão pouco comparado com o que você me deu”. Cortázar: “Não diga isso, não diga isso”. Então se abraçaram e o rapaz foi embora.

Cortazar achava que coisas como essa eram a melhor recompensa ao seu trabalho como escritor. Que um garoto ou garota viesse falar com ele e oferecer um pedaço de bolo valia a trabalheira de ter escrito.

Fico matutando. Aconteceram coisas assim com Adolfo Bioy Casares, Ricardo Piglia ou Alan Pauls, pra ficarmos com apenas três ilustres maledicentes? Não venham me dizer que muita mulher gostosa deu pra eles. Isso não vale. Até pro Paulo Coelho muitas devem ter dado apenas por ele ser famoso. Trata-se de outra coisa.

Me pergunto também se leitores quarentões ou sessentões seriam capazes de um gesto desses. Eu, por exemplo, que não ando por aí dando tapinha no ombro de ninguém e estou cada vez mais perto do crematório. Se eu topasse na rua com o Kafka, com o Conrad, com o Italo Svevo, com o Stendhal? Talvez eu me encorajasse, talvez eu falasse com eles. Se topasse com o Nabokov, eu só olharia de longe. Borges também. Ter lido e relido Nabokov e Borges me basta. Eu não teria o que dizer a eles. Gostaria, claro, de apertar a mão dos velhos, mas sem que eu tivesse de forçar o acaso. Agora, com o Cortázar, se eu o encontrasse e tivesse um pedaço de bolo ou uma lata de cerveja, sei não, perigava eu fazer como o adolescente espanhol.

Autor

Ernani Ssó

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