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Jabuti ou o Cágado?

Achei na internet uma crítica elogiosa ao romance que levou o Jabuti deste ano, O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo …

Achei na internet uma crítica elogiosa ao romance que levou o Jabuti deste ano, O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Roterdam. O resenhista, Rafael Bán Jacobsen, autor do romance Uma leve simetria, fez o favor de pinçar várias citações para demonstrar as alturas imortais alcançadas pela prosa do Evandro Affonso Ferreira. Também fez o favor de pinçar algumas fraquezas. Favor? Não, isso é obrigação de qualquer resenhista.

O gozado é que não consegui distinguir os erros dos acertos. Vejamos um exemplo de cada: “Morte. Também ela chama-me à memória minha amada” (pág. 36); “Silhueta da lâmina da despedida estava por trás daquele olhar umedecido” (pág. 78).

Que qui vancês acham? Segundo Jacobsen, a primeira frase é uma mancada (aliteração não proposital que suja o texto), a segunda um primor. Querem franqueza? Eu acho as duas uma boa bosta boba.

A primeira é evidentemente proposital. Há várias outras brincadeirinhas desse tipo, citadas pelo próprio Jacobsen. A mim isso parece apenas uma tentativa idiota de tornar palatável uma banalidade. Digo idiota porque o autor fica tão encantado com a forma como diz a besteira que se sente em estado de graça e aí, meu nego, só a dita forma tem importância. O pobre talvez nem lembre mais da besteira que queria dizer ou passe a acreditar que se trata de uma agudeza. Cá pra nós, quem tem peito de dizer, de boca cheia, que a morte lhe traz à memória a fulaninha? Onde está a emoção, de preferência ambígua, que salvaria essa informação digna de uma novela da Globo ou da Record?

A segunda frase, ao falar na lâmina da despedida e dos olhos úmidos, me deu uma bruta saudade da tia Felícia. Ela era um portento, escrevia acrósticos pra uma funerária botar nos túmulos e fundou a Academia Literária das Tias Solteironas de Espumoso do Sul, nos anos 40, e a presidiu até os anos 70. Uma de suas obras máximas era justo um soneto sobre a despedida em que falava dessa mesma lâmina e também de olhos úmidos. Me explicou que úmidos aqui era um modo astuto pra não dizer lágrimas, o que me chocou na época.

 Enfim, pelas amostras que li por aí, não achei a linguagem do Evandro Affonso Ferreira tão hermética como dizem. Me pareceu mesmo foi brega. Brega num grau incorrigível.

Sabem qual o problema da literatura brasileira? É feita por bacharéis, nos fins de semana, quando não pelas minhas tias.

Vinícius Jatobá

 Ele resenhou O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Roterdam pro Estadão. Eis o primeiro parágrafo: “E esta é a herança maior de uma cultura em constante desconforto: a eleição como supraliterário de uma linguagem divorciada de qualquer preocupação em se comunicar com um público amplo de leitores. Alçar Rosa e Lispector, donos de estilos herméticos, como os últimos escritores pilares nacionais, é indicativo dessa escolha da dificuldade como termômetro de valor estético: o difícil é o válido, e nenhuma reta pode ser guardiã de sabedoria. Mas para cada Rosa existem dezenas de Borges: literatura que convida o leitor a uma experiência emocional e estética sem humilhá-lo”.

Tudo muito bem, mas tenho minhas dúvidas, várias, na verdade, mas vamos ficar em duas. Há mesmo dezenas de Borges pra cada Rosa? Onde, onde? Se o Vinícius tem razão, é provável que haja alguns Borges no Brasil. Por favor, se alguém que me lê souber do paradeiro de um que seja desses Borges, me avise com urgência. Se souber do paradeiro de escritores que, mesmo não sendo Borges, se esforçam pra ter uma atitude semelhante diante da literatura, me avisem também.

Nem Borges foi sempre Borges. Como ele mesmo disse, começou escrevendo absurdamente e foi melhorando aos poucos. Quase todos começam escrevendo absurdamente, mas o diabo, Vinícius, é que quase todos seguem assim. Vide as academias lotadas.

Quanto à Clarice Lispector, sei não. A Clarice dos contos não tem nada de hermética. A dos romances é outro papo. Mas os romances dela são difíceis não porque a linguagem seja difícil. Nota-se, em cada linha, o esforço da Clarice pra ser o mais clara possível. O assunto dela é que é difícil. Tratar das emoções, com a minúcia e profundidade da Clarice, não é pra qualquer um. Nem pra qualquer leitor. Mas eu conheço várias pessoas que não leram mais que meia dúzia de livros e que são vidradas na Clarice, principalmente por causa dos romances. Eu, que não suportei dois parágrafos de O lustre, vejo isso com inveja.

Mas vamos às primeiras linhas de A paixão segundo G. H.: “—–estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi”. Me parece perfeitamente claro. Mais: me parece bonito. Agora, aguentar esse tipo de coisa por duzentas páginas exige que você esteja ligado na mesma corrente 220.

A “dificuldade como termômetro de valor estético: o difícil é o válido, e nenhuma reta pode ser guardiã de sabedoria”. É verdade, acontece muito por aqui. Mas me parece que o Brasil não tem o monopólio dessa idiotice, mesmo que às vezes sofra alguns surtos violentos, fazendo jurados de concursos literários babar na gravata e críticos enfiar o sorvete na testa.

Jabuti

Fui indicado três vezes ao Jabuti – duas como autor, uma como tradutor. Periga eu ganhar o bicho um dia desses. Mas já aviso: se eu ganhar, foi por acaso, não tenho culpa nenhuma.

Autor

Ernani Ssó

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