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Como lidar com a chatice dos clássicos

Futricando nas páginas do El País, encontrei uma velha conversa (de 20 de abril de 2002, capitaneada pela jornalista Rosa Mora) entre o professor …

Futricando nas páginas do El País, encontrei uma velha conversa (de 20 de abril de 2002, capitaneada pela jornalista Rosa Mora) entre o professor e ensaísta Martín de Riquer, que tem alguns livros muito bons sobre o Dom Quixote, e o romancista Manuel Vásquez Montalbán. Abaixo, tradução caseira de um trechinho. Confesso que ajeitei aqui e ali, porque se nota demais que a transcrição da entrevista foi, digamos com bonomia, hesitante.

Rosa: Então, professor Riquer, tudo bem se a gente pula um trecho de um clássico se encontra algum tropeço?

Riquer: Esse tropeço pode acontecer por vários motivos. Por exemplo, que você não entenda o que se diz e então precisa procurar num dicionário, ou que você se chateie. Se se chateia, deixe de lado. Uma das coisas fundamentais da literatura é que tem que ser divertida.

Montalbán: Mas um professor deve se chatear muito.

Riquer: Então o professor pode avisar: isso é chato.

Montalbán: Nunca se escreveu uma história professoral contra o tédio. Um professor que, em vez de dar uma de Bloom com os cânones, diga que a partir da página tal do livro tal de tal escritor não continue lendo porque é um porre.

Riquer: Bom, na minha Historia de la literatura catalana há um artigo onde digo que depois de ter lido a primeira parte do Memorial del pecador (de Felip de Malla), não tive ânimo pra ler a segunda. Insisto, é muito importante a literatura divertir.

Montalbán: Às vezes é obrigatório ler um livro de que dificilmente você pode gostar e então você faz um exercício de abstração cultural.

Riquer: É que chamamos tudo de literatura. (…)

Rosa: A gente pode ler Crime e castigo como um romance policial?

Riquer: É o que é, e também Guerra e paz. São apaixonantes.

Jabuti de melhor romance

Evandro Affonso Ferreira, autor de O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam, ao comentar o Jabuti que ganhou: “Sabe, os escritores escrevem pensando em mudar o mundo. Eu escrevo pensando em mudar de endereço”. Taí, depois dessa sou capaz de ler o livro dele.

Citação

Com vocês, numa cortesia do meu amigo Guaraci Fraga, esta preciosidade do Mark Twain: “A diferença entre a palavra certa e a palavra quase certa é a mesma entre um relâmpago e um pirilampo”.

Duas da matina

Acordo de madrugada e fico um tempão no banheiro, sentado no escuro. É mais grave que um problema intestinal. Mais grave e indefinido.

Não é cansaço ou indiferença, mas, se eu morresse nesse instante, tudo bem. Não teria nenhuma palavra ou gesto contra. Sempre penso que deve haver uma hora, na velhice, em que a pessoa sente a morte como a única opção razoável, talvez a deseje, talvez se sinta aliviada.

Então revejo uns trechos do filmezinho da minha vida, as cenas fora de ordem, algumas imagens fora de foco. Reconheço as cenas, mas não me lembro direito do enredo. Quando lembro, vejo que na época eu interpretei tudo errado. Essa descoberta não me constrange nem me causa graça. Só anoto o fato, com algum tédio.

Dizem que na hora da morte o cara passa por essa última sessão de cinema. Como será que sabem, se ninguém sobreviveu pra contar? Depoimento psicografado não será aceito por tribunal nenhum.

Sempre se dá por óbvio, também, que se trata de um instante dramático. No caso do meu trailer, nessa madrugada no banheiro, não houve nada de dramático. A menos que se possa chamar de dramático a ideia de que era melhor achar o controle e desligar essa porcaria de uma vez.

Universalidade

Cante sua aldeia e seja universal? Prefiro cantar as aldeãs.

Autor

Ernani Ssó

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