Sempre que falam de mim, como autor ou tradutor, mesmo aqui no Rio Grande do Sul, meu nome vem acompanhado da palavrinha: gaúcho. Não me irrita nem me orgulha, nem me vejo de bota e esporas. Podia irritar, sim, porque muitas vezes não passa de um cacoete jornalístico. Mas orgulhar? São bastante duvidosas as vantagens de se nascer abaixo do Mampituba, fora a quantidade assombrosa de mulheres bonitas. Se eu tivesse nascido no Rio ou em São Paulo, ou me mudado logo como outros mais espertos, talvez não passasse tanto trabalho como escritor. Pelo menos há uma manada de cariocas e paulistas medíocres em evidência apenas porque estão ao alcance dos olhos de editores e da imprensa.
Mas sejamos sérios. Calma, é só por um minuto.
Eu seria outro se não fosse gaúcho? Dizem que entre marido e mulher só não se pega pé torto. E entre a gente e o lugar onde se vive? Sei que tenho alguns costumes e manias que seriam outros caso eu tivesse nascido em, digamos, Tóquio. Por exemplo, estou mais pra entrecot na brasa que pra sushi, mais pra mate que outros chás verdes e tenho mais de dez palavras pra distinguir o pelo dos cavalos, coisa bastante exótica pra um japonês, imagino. Mas, cá pra nós, isso faz falta a alguém? Digo, ter tantas palavras pro pelo dos cavalos. Fora, claro, pra Letícia Wierzchowski, que conhece zainos pretos e alazões brancos, detalhes que passaram batidos pelos idiotas do Aurélio, do Houaiss e do Caldas Aulete.
Já gastei meu minuto de seriedade? Ainda não? Então vamos lá, rapidinho: me preocupo com os limites que nossa cultura impõe. Não bastam os da nossa burrice? Há detalhes e sentimentos que só um japonês vê e tem. Fique diante de uma ameixeira florida e depois conversamos. Quantos desses detalhes me escapam porque meu olho e minha mente, ou aquele órgão muito badalado no cancioneiro popular e não só popular, foram treinados por estas bandas? Meus sentimentos para com as mulheres seriam outros? Isso me parece mais complicado e importante do que olhar pra uma ameixeira. Enfim, eu seria menos cético, menos honesto, menos alegre ou mais solene se fosse japonês?
Me desculpe a conversa fiada, é que fico constrangido de ter de dizer o óbvio ululante: sim, eu seria outra pessoa se fosse japonês ou armênio ou esquimó, mas não profundamente, capisci? Daí que se eu fosse catarinense ou mineiro, as diferenças seriam mais superficiais ainda. Isso tudo me leva a pensar nos livros. Aí, sim, o buraco é mais embaixo.
Eu seria outra pessoa até o tutano se não tivesse lido e relido muito mais Mario Quintana que Erico Verissimo. Ou, cruzando o Mampituba, se não tivesse lido e relido Campos de Carvalho, Ivan Lessa, Dalton Trevisan. Ou, cruzando as demais fronteiras, não tivesse lido e relido Borges, Cortázar, Kafka, Stevenson, Cervantes, Rabelais, Petrônio, Sófocles, Stendhal, Alexandre Dumas, Svevo, Turgueniev, Graham Greene, Chandler, Philip K. Dick, García Márquez, Melville, Kawabata, Jane Austen, Clarice Lispector, Anne Tyler e sei lá quantos mais. Me reconheço muito mais nesses escritores, distantes no tempo, distantes geograficamente e às vezes literariamente, do que na maioria absoluta dos meus conterrâneos, com ou sem bombacha.
Hino
Não acho que nossas façanhas sirvam de modelo a toda a terra. Elas são muito parecidas com as de qualquer outro povo. Nossas infâmias também.
Universalidade
Cante sua aldeia e será universal, reza a frasesinha. Tudo bem. Mas ela é o álibi de muita idiotice municipal.
Pátria guasca
Se o patriotismo, como dizia o doutor Johnson, é o último refúgio do canalha, o que dizer do bairrismo, que é o patriotismo elevado ao nível do miolo mole?


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