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Minhas mulheres (de papel) preferidas

Me acontece com as mulheres de papel o mesmo que com as mulheres de verdade. Claro que a inteligência e a beleza mexem comigo. …

Me acontece com as mulheres de papel o mesmo que com as mulheres de verdade. Claro que a inteligência e a beleza mexem comigo. Mas o que importa mesmo é outra coisa. O que, exatamente, é difícil dizer. A gente simplifica chamando de amor, simpatia, atração. Simplifica, sim, porque amor e companhia são o salto e o que precisa ser explicado é o impulso que leva ao salto. Tentar traduzir isso em palavras é como querer vestir uma sombra. Essa coisa está entre os gestos, no fundo da voz, na transparência dos olhos, na própria pele que brilha com um brilho que não é dela. Essa coisa às vezes existe apenas para a gente. Às vezes existe por segundos: se acende e se apaga como uma estrela cadente.

Entre as mulheres de papel, nem sempre as grandes personagens, as obras-primas da literatura, ganharam minha fantasia. Lady Macbeth, por exemplo. Ao contrário da maioria, que prefere Hamlet, tenho uma queda especial por Macbeth, de Shakespeare, mas prefiro Laurel Russo a duas ladies. Laurel Russo, embora dê o título a um romance de Ross Macdonald, A Bela Adormecida, mal aparece em algumas páginas. Mas há algo nela, no seu desamparo, que me pegou — e também pegou o herói, o detetive Lew Archer. Se essa coincidência não foi só entre nós, mas com dezenas de leitores, trata-se de uma proeza literária de Macdonald.

Todo mundo conhece Madame Bovary. Todo mundo sabe que ela é uma das personagens mais bem realizadas da literatura universal. Você sai do romance de Flaubert com a sensação de conhecer intimamente uma pessoa. Mas — Vargas Llosa que me perdoe — acho a madame uma chata. Eu queria mesmo conhecer era madame de Rênal, a amante de Julien Sorel em O Vermelho e o Negro, de Stendhal. Além de ser uma grande personagem, madame de Rênal faz o meu tipo. Com ela eu também passava o marido pra trás. Outra por quem caí de quatro foi a Cláudia de Os Prêmios, de Julio Cortázar. Que La Maga, que nada.

Com as russas não. Não consigo ter muita paciência com todas aquelas mulheres atormentadas. A exceção é a heroína de Pais e Filhos (senhora Odintsova, se não me engano*), de Turguéniev. Como disse Mario Puzo, comentando Os Irmãos Karmázov, os personagens russos parecem um bando de italianos tentando parecer sérios. No fundo, não sei se isso é verdade, mas acho muito engraçado. Esquisito, na adolescência eu adorava Dostoiévski pelo que ele tem de desesperado. Depois, justamente por isso, começou a me irritar. Agora, com a idade chegando de mansinho, volto a gostar. Mas quero suas mulheres apenas entre as páginas dos livros.

Alice, aquela do país das maravilhas, tem hordas de pedófilos no encalço. Mas eu amo mesmo é Chapeuzinho Vermelho, Rapunzel, Branca de Neve. Não lembro se foi Charles Dickens ou Chesterton que disse que teria sido feliz se tivesse casado com a Chapeuzinho Vermelho. Eu compreendo isso. Compreendo e assino embaixo. Não sei por que, vejo sempre a Chapeuzinho com o rosto da Wynona Ryder de Os Fantasmas se Divertem, de Tim Burton.

Para continuarmos na pedofilia, as tranças de Rapunzel atiradas pela janela da torre e a Branca de Neve na sua caixa de vidro são duas das cenas mais eróticas que conheço. Muito melhores do que aquele esfrega-esfrega da Lolita com o Humbert no sofá — e olha que aquele esfrega-esfrega… Por falar nisso, não consigo ter para com Lolita os mesmos sentimentos de Humbert, como no caso de Lew Archer em relação a Lauren Russo. Nabokov é muitas vezes melhor escritor que Ross Macdonald, mas isso não tem nada a ver com literatura e sim com taras diferentes.

Tantas mulheres e agora me dou conta de que não citei nenhuma criada por uma mulher. Entre as escritoras, minhas preferidas são Jane Austen, Clarice Lispector (a dos contos), Mary McCarthy e Anne Tyler. Da imbatível Jane Austen, todas ou quase todas as imbatíveis senhoritas. Da Clarice, adoro a velha de “Feliz Aniversário” e a anã de “A Menor Mulher do Mundo”. Quanto a Mary, não sei. Acho-a dura demais, séria demais. É do tipo Ringo: Deus perdoa, ela não e ainda cospe em cima. Daí que suas mulheres (seus homens também) nunca são agradáveis.

Anne Tyler tem uma vantagem suprema: senso de humor. Ela apresenta bandos de malucos e malucas, analisa-os minuciosamente, não fecha os olhos a miséria nenhuma, mas isso não resulta numa condenação inapelável como em Mary McCarthy. Podemos não sair apaixonados por nenhuma de suas mulheres, mas na certa saímos apaixonados pela autora, sua leveza, sua ternura. Entre parênteses: é proverbial a falta de humor entre escritoras, mas estão aí Anne Tyler, Jane Austen e algumas outras, graças a Deus. O jogo começa a ser jogado a sério. Mas, cá entre nós, Laura Esquivel é uma grossa.

Falando nas brasileiras, no charme e veneno das mulheres brasileiras, a minha preferida é Ana Terra, de Érico Veríssimo. Não é bairrismo meu não. Ana Terra é perfeita desde o nome. Ela é isso, uma força, uma espécie de Úrsula Iguarán na juventude, a melhor personagem de Cem Anos de Solidão, de García Márquez. Estou taxativo demais? Falando em mulher dá nisso.

Cheguei a duvidar que o Machado de Assis entendesse de mulheres. Como Dalton Trevisan, não levo muita fé no famoso mistério de Capitu. Mais: acho a Capitu meio irritante. Nunca precisei de salva-vidas para seu olhar de ressaca. Mas o Machado manja de mulher, manja sim, manja pra chuchu. Está aí a Conceição da “Missa do Galo” como prova definitiva.

Quanto às Marias de Trevisan, Deus me acuda — nunca quero ir a Curitiba**. E quanto às prostitutas que se dão bem na vida — vide Jorge Amado —, sei não, todas parecem inspirar amores de verão, amores que a gente esquece logo que volta pra casa. Em matéria de mulheres fogosas, ainda sou mais a Rita Baiana, n’O Cortiço de Aluísio Azevedo.

Pra gozar a Maíra, de Darcy Ribeiro, Ivan Lessa elegeu Iracema miss Brasil. É isso aí, frente à virgem dos lábios de mel, quem é a escrava Isaura, quem é a Moreninha e tantas outras? Mas meu negócio foi com Ceci. José de Alencar, como bom romântico, manjava de enredo de masturbação. Com doze, treze anos, muitas vezes fugi para o mato com Ceci. Nem a Jane do Tarzã, com sua tanga de pele de leopardo, foi páreo. O recato dos longos vestidos de Ceci era muito mais excitante.

É difícil parar, quando o assunto é mulher. Mas, como em algum momento é preciso, me deixe parar em grande estilo. Sim, com as gregas. Pressinto um suspiro na galera letrada. Ah, as gregas… Antígona, Electra — são tantas e terríveis e maravilhosas. Tenho uma especial fixação na Ifigênia, que devia estar entre as ninfetas, se formos justos. Mas, entre todas — que minha mãe me perdoe —, fico com Jocasta.

 


 * Estou fazendo onda, fui conferir.

** Já fui três vezes depois que escrevi isso, mas segue valendo.

Autor

Ernani Ssó

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