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Ídolos protéticos

Quanto mais notícias há de corrupção, mais enxergamos a falibilidade das ilusões. A ilusão de que poderíamos construir um sistema político e econômico just

Quanto mais notícias há de corrupção, mais enxergamos a falibilidade das ilusões. A ilusão de que poderíamos construir um sistema político e econômico justo. A falibilidade de pessoas,  sejam ídolos de rock, sejam políticos, sejam atletas, sejam padres, sejam ateus, nos dá uma sensação inevitável de desamparo. Porque era neles que depositávamos nossas ilusões.

O ser humano tem uma ilusão de potência. Se por um lado se enxerga mortal, por outro quer afirmar-se como onipotente. Nossas próteses neste caso são os ídolos. Eles nos representam no panteão dos deuses. Lá gostaríamos de estar, mas como nos sabemos limitados, encontramos próteses.

E quanto mais chegam notícias de falhas humanas de caráter nestes ídolos, tanto pior. Porque a velocidade e quantidade estonteante com que recebemos informações nos dias de hoje provocam um torpor, uma alienação, por duas razões: 1) já que não podemos acompanhar a tanta notícia, optamos pela alienação. Antes a ignorância do que a incompletude da informação, um pedaço de informação.; 2) como uma boa parte destas informações é de desconstrução destes ídolos(por suas falhas) e eles são a nossa (às vezes única) possibilidade de realização pessoal, preferimos a ignorância. Senão, sabedores de que nossos ídolos não têm as qualidades (e portanto o poder)que lhes atribuímos, caímos novamente em desamparo. Melhor não saber.

Entra então um outro fenômeno: qualquer um pode ser um ídolo, hoje em dia. Não são necessárias grandes virtudes, nem grande inteligência. A sensação de desamparo gerado pelas notícias ruins sobre estes ídolos, acabando com sua aura protetora, é mortal. O abandono e o desamparo são duas das maiores forças da humanidade. Então, é necessário repor a posição do ídolo caído, sob pena de este desamparo gerar a ansiedade da existência, de que tanto fogem os seres humanos. Então, vale qualquer ídolo. Seja ele religioso, musical, estético, esportivo.

A indústria da fama é, portanto, uma indústria protética: ela é a possibilidade, às vezes única, de realização “pessoal” de muitos bilhões de indivíduos mundo afora. Uma fábrica de próteses de realização e felicidade, que precisa criar novos ídolos diariamente, posto que as próteses que ela mesma cria vêm com defeito, pela velocidade urgente com que são criadas e postas no mercado. E, caso venham com defeito, tome outra prótese. Ídolos às avessas, o sucesso da ilusão.

Autor

Flavio Paiva

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