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As bruxas estão soltas

CORVO: Eu trouxe uma pergunta do Poe. Podemos começar com ela? É verdade que você queria ser ele aí pelos catorze, quinze anos?  ERNANI: …

CORVO: Eu trouxe uma pergunta do Poe. Podemos começar com ela? É verdade que você queria ser ele aí pelos catorze, quinze anos? 

ERNANI: Hum-hum. Não consegui, claro. Como todo adolescente, eu adorava histórias de terror, mas o que realmente me deslumbrava no Poe era a imaginação. Ainda deslumbra.

CORVO: Você não gosta mais de histórias de terror?

ERNANI: Gosto sim, mas de poucas, como “A porta condenada”, do Cortázar.

CORVO: Mas há terror nas tuas histórias infantis.

ERNANI: Sim, terror no mesmo esquema dos contos de fadas. O medo vem com nome e endereço: bruxa, ogro, gigante, diabo, a morte como o esqueleto aquele com a gadanha. É uma máscara pro vazio, não? O terror mesmo não tem nome nem cara, é isso que acontece no quarto ao lado no conto do Cortázar. Isso seria insuportável pra criança. Minhas histórias, por mais apavorantes que possam parecer a um adulto, divertem e acalmam as crianças. São ilustrações de emoções que elas têm mas não compreendem ou nem sabem direito que têm. Na hora em que essas histórias dão elementos pra fantasia, que criam um repertório de situações que será a base de brinquedos, servem pra criança elaborar seus medos, coisa e tal. Sem falarmos que o terror, nas minhas histórias, é indissociável do humor e da ironia. Se você pensa que as crianças não pegam o humor e a ironia, aposto que você não conhece uma criança.

CORVO: Você disse que escrever pra criança é mais difícil que pra adultos. Explique-se.

ERNANI: Se eu escrevo pra adultos, escrevo sobre o que me preocupa ou diverte, com a minha linguagem. Se você é da minha tribo, vai me acompanhar, não? Mas quem é uma criança? O que a preocupa? O que a diverte? Que linguagem ela entende? Eu não sei responder com exatidão.

CORVO: Como então se meteu a escrever pra criança?

ERNANI: Tentei por anos, sem conseguir. Aí, quando pensei em ter um filho, escrevi a primeira história em vinte minutos, pra satisfação do doutor Freud.

CORVO: E?

ERNANI: Olha, eu escrevi sobre uma coisa que eu conhecia muito bem: estar no escuro, no quarto, vendo coisas. Mas foi só depois da reação das crianças que eu me dei conta do que tinha feito.

CORVO: Elas gostaram?

ERNANI: A primeira turma com quem falei dessa história foi numa pré-escola, com crianças de cinco anos. Me fizeram um monte de perguntas e me contaram todos os pesadelos que tiveram. Me consideravam um amigo íntimo. Na hora da despedida, às onze da manhã, me desejaram boa-noite.

CORVO: Legal, mas não pode responder de modo direto?

ERNANI: Não. Tenho vergonha.

CORVO: Essa vergonha anda cada vez menor, não é? Ou eu não estaria aqui te entrevistando.

ERNANI: É verdade. Mas dificilmente você me verá vestido de Carmen Miranda.

CORVO: E o politicamente correto? Até um ogro como Shrek é bonzinho.

ERNANI: A história do Shrek é divertida, mas não é uma história de ogro. É a história de um gordo feio. Ogro é um monstro devorador de gente. Se a humanidade não tivesse crescido com medo de ser devorada por monstros, não teria inventado nenhuma história com ogro, tá na cara. Ignorar o medo, a violência e tudo mais, quer dizer, contar histórias sem sal, histórias desmilinguidas, é uma idiotice. Não precisamos proteger as crianças das histórias e sim de certas realidades. E um dos modos de proteger as crianças é contando boas histórias. E as boas histórias têm de tudo, sexo, drogas e roquenrol, me entende? Temos de nos experimentar no papel da bruxa, do ogro, do diabo, da morte, além de no papel do herói ou da fada madrinha.

CORVO: Alguém já reclamou das tuas histórias?

ERNANI: Criança nenhuma. Uma menina de oito anos resumiu bem a questão. Ela me disse: “Gosto das tuas histórias porque não são pra criancinha”. Precisava ver o desprezo com que ela disse criancinha. Claro, ninguém gosta de ser tratado com condescendência. Um menino, também de oito anos, me pediu um autógrafo e depois me apertou a mão, muito sério, e me disse: “Continue assim”. Venho tentando.

CORVO: Bom, já que viemos até aqui, quer acrescentar mais alguma coisa?

ERNANI: Gostaria de terminar com uma história: “A aula da bruxa”, que está no meu último livro.

CORVO: Por que justamente essa?

ERNANI: É que me aconteceu uma coisa ótima por causa dessa história. Quando cheguei numa certa escola, entrou junto uma menina de uns sete anos, de outra escola, que tinha vindo pra ensaiar uma dança pra uma festa do bairro. Como ela tinha de esperar, assistiu à minha conversa com uma turma de crianças bem pequenas. Aí nos deixaram sozinhos na sala, enquanto as professoras organizavam a próxima turma. A menina me disse que a biblioteca da escola dela tinha meus livros e ficou folheando uns que estavam numa mesa. Quando largou o volume da “Aula da bruxa”, ela disse, sem nem me olhar, num tom de que falava com as amigas: “Já li este umas mil vezes”.

CORVO: Ai, que fofo!

ERNANI: Que é isso, Corvo?! Tá me estranhando?

CORVO: Esses livros aqui são os últimos, você disse. Os dois volumes chamados No escuro reúnem todos os teus contos de bruxa?

ERNANI: Sim. Cada volume tem sete, como indicam os títulos. Levei vinte e sete anos pra escrevê-los.

CORVO: Tem gente que acha moleza escrever pra crianças.

ERNANI: Bom, eu não corro atrás das histórias. Fico na minha. Se elas aparecem e insistem pra ser contadas… Mesmo assim, muitas vezes não dá certo.

CORVO: O segundo volume do No escuro reedita cinco contos que já tinham sido publicados antes em volumes separados, não? Como o citado “A aula da bruxa”.

ERNANI: Sim. Mas revi o texto, apertei uns parafusos, essas coisas. Comigo as edições são sempre revistas e diminuídas.

CORVO: E o Diabos, ogros e princesas?

ERNANI: São quatro contos de fadas. Eu releio incansavelmente os contos de fadas há anos.  Eles desenvolveram as melhores estratégias narrativas pra criança. Disparado, as melhores. Bom, desses quatro, fora o “Donzela sem mãos”, nenhum é conhecido. Gosto de pegar contos obscuros, ou com lacunas, porque daí posso criar em cima, mas criar dentro do clima e da lógica desse tipo de história, que não tenho temperamento pra trabalhar em Hollywood. Qual a graça de arredondar uma bola, como é o caso de recontar a história da Branca de Neve, por exemplo? Abri uma exceção pra “Donzela sem mãos” porque, na última versão publicada pelos Grimm, baixou o espírito do pastor Feliciano num deles, que esterilizou o conto até a carolice. “A donzela sem mãos” é um conto triste? Sim, talvez o mais triste. Mas também é um dos mais bonitos.

A Aula da Bruxa

A Lúcio, que me fez as perguntas certas.

Na noite mais escura do ano, na hora mais escura da noite, a sala de aula estava mal iluminada por uma vela feita de sebo de cobras venenosas. As sombras das bruxas ficavam disformes e trêmulas nas paredes.

A Godofreda Velha, muito séria, pegou o livro de chamada e leu:

— Godofredas!

As seis bruxinhas, nas suas carteiras, disseram:

— Presente!

A sétima bruxinha entrou voando pela janela. Fez um rodopio de morcego e disse:

— Presente!

Com um rasante por cima das Godofredas, estacionou num canto, onde estavam as vassouras. A vassoura da Godofreda no 7 era vermelha como o olho do diabo.

A Godofreda Velha, muito séria, disse:

— De novo, dona Godofreda no 7? Como quer ser uma bruxa de verdade, cumpridora das suas malvadezas? Vive atrasada e ainda por cima tem o nariz arrebitado… Só falta usar maria-chiquinha…

A Godofreda Velha, muito séria, se virou para as Godofredas e disse:

— Como deve ser um bom nariz de bruxa?

As Godofredas berraram, batendo os tamancos:

— Nojento! Nojento!

A Godofreda Velha, muito séria, disse:

— Quem é que tem nariz arrebitado?

As Godofredas berraram, batendo os tamancos:

— Criancinha! Criancinha!

A Godofreda Velha, muito séria, disse:

— Então, dona Godofreda no 7, como vai consertar seu narizinho?

A Godofreda no 7, toda envergonhada, tirou do bolso um nariz postiço e o prendeu no rosto. Era um nariz grande, roxo como uma berinjela e com três verrugas cabeludas.

A Godofreda Velha, muito séria, resmungou:

— Tinha era de fazer plástica…

As Godofredas quase fizeram xixi de tanto rir.

A Godofreda Velha, muito séria, disse:

— Como castigo pelo atraso, dona Godofreda no 7, você terá de capturar sozinha uma criança e trazer pra nós antes do amanhecer, pra aula prática de culinária. Agora vá.

A Godofreda no 7 fez continência, bateu no chão os saltos dos tamancos e saiu voando pela janela.

A Godofreda Velha, muito séria, disse:

— Hoje, minhas horrorosas do coração, lições de susto com gente de verdade. Em frente, marche!

As Godofredas atiraram sobre os ombros os seus sacos de material escolar e correram para as vassouras. Os tamancos das Godofredas ecoaram pela noite como um galope de cavalos selvagens. Levantaram tanta poeira que até a Godofreda Velha se engasgou.

A Godofreda Velha foi a primeira a montar na vassoura. Em silêncio, as Godofredas levantaram voo uma depois da outra, em fila indiana. De longe só se viam as sombras das bruxas contra a lua cheia que tinha saído um instante de trás das nuvens.

Bobas de alegria, todas cantavam com voz de taquara rachada:

Sou malvada, sou levada, sou legal!

Sou filha da noite, sou filha do mal!

Sou muito doida, sou muito feliz,

Tenho uma verruga na ponta do nariz!

A Godofreda Velha levantou uma mão de garra e as Godofredas se calaram. Sobrevoaram em silêncio uma cidade, até que a Godofreda Velha, muito séria, apontou uma casa.

As Godofredas inclinaram para baixo os cabos das vassouras. A Godofreda Velha deu o sinal de ataque. As Godofredas aceleraram e desceram a mil, quase de ponta-cabeça, como aviões de guerra.

Um tiquinho antes de bater na parede da casa, as Godofredas sumiram e apareceram lá dentro, no quarto de um menino. Fizeram um rodopio de morcego e estacionaram num canto escuro.

Por um momento, olharam o menino na cama, dormindo quietinho. Quase sentiram pena dele.

A Godofreda Velha apontou para a Godofreda no 1 um dedo magro, sujo e unhudo. A Godofreda no 1 tirou do saco de material escolar um buquê de urtigas, fez cócegas nos pés do menino e voltou rápido para o canto escuro.

O menino gemeu de dor, mas não acordou.

A Godofreda Velha apontou para a Godofreda no 2 um dedo magro, sujo e unhudo. A Godofreda no 2 tirou do saco de material escolar uma máscara de mulher bondosa, que prendeu no rosto. Foi até a cama e disse no ouvido do menino, com voz suave:

— Filhinho, acorde… Acorde, filhinho…

O menino se remexeu inquieto. Meio zonzo de sono, viu a máscara e pensou que era a mãe dele. Aí a Godofreda no 2 tirou a máscara. O menino quase morreu de susto com a cara dela. Com um grito, se meteu embaixo das cobertas. Rápida e satisfeita, a Godofreda no 2 foi para o canto escuro.

As Godofredas estavam deliciadas com a maldade e se cutucavam umas às outras. Mas a Godofreda Velha levantou uma mão de garra e as Godofredas sossegaram na hora.

Como não acontecia nada, o menino começou a pensar que tinha sonhado. Se encorajando, levantou uma ponta da coberta e espiou.

A Godofreda no 3 não aguentou e deu uma risadinha espremida. A Godofreda Velha puxou os cabelos dela.

Mais que depressa, o menino se enfiou embaixo das cobertas.

A Godofreda Velha apontou para a Godofreda no 4 um dedo magro, sujo e unhudo. A Godofreda no 3 ia dizer que era a vez dela, mas a Godofreda Velha deu outro puxão nos seus cabelos, mais forte ainda. A Godofreda no 3 não aguentou e gemeu alto.

Apavorado, o menino começou a gritar:

— Manhêêêêêê!

Antes que a Godofreda no 4 conseguisse jogar um punhado de lacraias embaixo das cobertas do menino, a mãe dele chegou e acendeu a luz. As Godofredas sumiram junto com a escuridão e apareceram no céu, voando a toda, de volta para o colégio.

Na aula, a Godofreda Velha, muito séria, disse:

— Dona Godofreda no 3, a senhora estragou tudo, rindo fora de hora. Quando a gente quer rir, a gente vê filme de terror. Agora venha pro castigo.

A Godofreda no 3 foi. A Godofreda Velha tirou do bolso um escorpião e o botou na ponta da língua da Godofreda no 3. A coitada arregalou os olhos de medo e a Godofreda Velha, muito séria, disse:

— Você vai ficar três dias e três noites com o escorpião. Ele vai ficar mexendo as perninhas o tempo todo. Se você rir, ele pica. Se fechar a boca, ele pica. Se dormir, ele pica. Aí você morre envenenada. Agora vá sentar.

A Godofreda no 3 obedeceu, com lágrimas e a língua espichada.

A Godofreda Velha, muito séria, disse:

— Agora vamos às lições de culinária. Esta noite vamos aprender como se prepara pizza de orelha de criança com muzzarela de leite de sapo.

As Godofredas berraram, batendo os tamancos:

— Eba! Eba!

Então a porta se abriu e entrou adivinha quem? Ela mesma, a Godofreda no 7, sem o nariz postiço e de maria-chiquinha. Segurando o bastão mágico como uma espada, gritou:

— Aaaaaaatttttaaaaaaaccccaaaaarrrrr!!!

Um bando de crianças entrou correndo na aula.

A Godofreda Velha foi a primeira a fugir. Mas as Godofredas se agarraram no vestido dela, nas pernas, nos braços, loucas de medo. Caíram todas no chão, num bolo só, gritando por socorro, saltando tamancos pra todo lado. Até o escorpião que estava na língua da Godofreda no 3 se mandou de rabo em pé.

As crianças pegaram os bastões das Godofredas e deram uma surra nelas. Depois jogaram uma por uma pela janela, para que aprendessem a voar sem vassoura. Como o sol estava nascendo, as Godofredas rodopiavam um instante no espaço, chiavam como se estivessem sendo fritas e sumiam como bolhas de sabão furadas. Não sobrou nenhuma, nem a Godofreda Velha, a mais malvada de todas.

A criançada festejou com uma gritaria medonha.

Autor

Ernani Ssó

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