A sugestão do Monteiro Lobato, para incentivar a leitura entre adolescentes, era romances como Teresa filósofa. Vocês sabem, é um romance erótico do século dezoito, atribuído a Jean Baptiste de Boyer, o marquês d’Argens. Eu achei bem divertido, mas não sei se não seria uma decepção para a maioria. A história de Teresa era provocante num tempo em que ver dois dedos da canela de uma mulher fazia o cara espumar no canto da boca, enquanto uivava pelas esquinas. Mas, pelo que me lembro dos meus treze, catorze anos, o raciocínio do Lobato continua perfeito.
Alegorias
A vida é como um romance policial cheio de suspeitos sem o último capítulo. Às vezes pensamos ter entendido a trama, mas, no último instante, o sentido nos escapa. Pra mim, a literatura e o cinema são bons quando, de um jeito ou de outro, tocam esse mistério. Sempre lembro de uma observação do Huxley sobre Os possessos do Dostoievski: aquilo tudo faz tão pouco sentido que parece real. Daí meu desprezo pelas alegorias, que são uma espécie de esquema matemático, com um resultado que o vestibulando pode marcar com uma cruzinha.
Feira do Livro
Como a feira está próxima, sugiro frase do Bush como slogan: “Uma das melhores coisas dos livros é que às vezes há algumas ilustrações fantásticas”.
Os acadêmicos e eu
Há um descompasso entre nós. Eu escrevo. Eles fazem uma produção textual. Isso se não estão tomados pelo demônio e não procedem a uma textualização.
Interpretações
Críticos americanos viram em Lolita, do Nabokov, a metáfora do fascínio da Europa, velha e decadente, pela América novinha em folha e indecifrável. Eu sou mais modesto. Prefiro ver o fascínio de um senhor de meia idade por uma menina bonitinha, nada indecifrável, por sinal. Estou com o García Márquez, que acha que certa crítica literária é um novo gênero de ficção.
Branca de Neve e os sete anões
CONTO DE NATAL
Era a última entrega, o dia se ensaiando no horizonte, ele podre de cansaço. Acostumado a trabalhar no escuro, viu muito bem o homem caído na sala, galhos do pinheiro sobre o rosto. O homem tentara se segurar quando levou os três tiros no peito. Perto da escada para o segundo andar, estava a mulher, de bruços, uma mancha de sangue no meio das costas. Ele ficou quieto um instante, pensando em procurar nos quartos, mas não teve coragem — afinal, criança era o seu negócio. Foi até um armário, se serviu uma dose dupla de uísque e a tomou de um gole. Depois, com todo o cuidado, limpou as digitais no copo, pôs os dois pacotes restantes ao pé do pinheiro e voltou para o trenó. Nem pegou as rédeas — as renas sabiam o caminho. Apenas resmungou um palavrão.
CONTO APOCALÍPTICO
No planeta destruído pelos alienígenas, a única coisa que restou foi uma placa, num poste: Consertam-se gaitas.
CONTO POLICIAL
— Olha, preciso de dados — disse o detetive. — Apenas Deus começou do nada e veja na merda que deu.
CONTO REGIONALISTA
— Lembre-se. Tua liberdade termina onde começa a dos meus bois.
CONTO DE FC
Pedófilo viaja no tempo, aos dias de sua infância, abusa de si mesmo, é preso, alega masturbação.
CONTO ERÓTICO
E aí começou a sessão de sexo oral com o botocudo…
CONTO DE TERROR
Ele fez uma crítica arrasadora de um livro póstumo. Dias depois, recebeu uma carta psicografada com ameaças.
CONTO DE CIENTISTA LOUCO
Patrocinado pelo Vaticano, cientista volta no tempo e faz inseminação artificial em virgem.

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